fevereiro 25, 2008

ALTIMAR PIMENTEL


Sempre que nos comovemos com a notícia de algum falecimento é sinal de que a pessoa estava inscrita entre aquelas especiais para nós. É assim com o caso de Altimar Pimentel, que faleceu agora em 21 de fevereiro de 2008. Podíamos ficar anos sem nos falarmos, principalmente em razão da distância territorial que nos separava (eu em Brasília e ele na Paraíba), mas nos sabíamos próximos na amizade.

Cursamos juntos Jornalismo no CEUB. Ainda me lembro da montagem de um texto dele como trabalho em uma das disciplinas. Tudo muito divertido — havia uma cena em que assávamos churrasquinho de mãe.

Deixo aqui o texto que o portal da Paraíba publicou no dia do seu falecimento.


"O escritor, teatrólogo, folclorista e professor aposentado da UFPB Altimar de Alencar Pimentel, aos 71 anos, morreu às 18h30 desta quinta-feira (21), no Hospital da Unimed, em João Pessoa, onde estava internado desde a última sexta-feira e morreu de complicações renais.
O corpo está sendo velado na Academia Paraibana de Letras, na Rua Duque de Caxias, em João Pessoa. O enterro será às 10h desta sexta-feira, no cemitério de Santa Catarina, no bairro Treze de Maio, na Capital paraibana.
Altimar Pimentel nasceu no dia 30 de outubro de 1936, na cidade de Maceió, AL. Concluiu o curso de Licenciatura em Letras na Universidade Federal da Paraíba, em 1971 e Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB), fez bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo, em 1976.
Em 1978 fez curso de especialização em Direção Teatral na Federação das Escolas Isoladas do Rio de Janeiro e na Universidade Federal da Paraíba. Dedicou boa parte de sua vida ao teatro.
Como teatrólogo é autor de inúmeras peças, muitas delas consagradas nacionalmente, entre elas: “Alamoa”, adaptação de “Coiteiros”, “Cemitério das Juremas”, a “Última Lingada”. Presidente da Comissão Paraibana de Folclore, Altimar Pimentel publicou 17 livros sobre temas folclóricos. Dedica-se, também, à história paraibana, com vários livros publicados, o último dos quais – Cabedelo – alcançou grande receptividade nos meios culturais.
Exerceu inúmeras funções, entre elas: diretor do Teatro Santa Roza (João Pessoa); na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de professor, foi diretor do Departamento de Extensão Cultural da Paraíba, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Documentação de Cultura Popular (NUPPO) e assessor cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários; diretor da Rádio Correio da Paraíba, assessor cultural do Instituto Nacional do Livro (Rio de Janeiro), assessor administrativo da Câmara dos Deputados (Brasília, 1980), membro do Conselho Estadual de Cultura da Paraíba (1963) e Membro do Conselho Fiscal e sócio fundador da Associação dos Dramaturgos do Nordeste e Membro da Academia Paraibana de Letras."

fevereiro 20, 2008

Revendo a poesia de alguns escritores de Brasília, notei a importância da temática de resistência dns anos da décadas de 70. Um poema pequeno de Lourdes Teodoro, com luminescência vital que lembra Montale:


ORAÇÃO DO MUTILADO

Lourdes Teodoro

o verde em mim
é um remoto ponto escuro.


Vejamos também o poema Remorso, do saudoso José Roberto de Almeida Pinto, que hoje é embaixador em Honduras:

REMORSO

José Roberto de Almeida Pinto

Nesta Brasília, calada
nesta sala assexuada
Nesta hora desgraçada
Eu sou somente remorso.

Aço preto na testa,
Acre sertão na garganta,
Resina de esgoto nos olhos,
Eu não sou mais que remorso.

Eu não sou mais que a vontade de sair correndo
estraçalhar a cara no primeiro poste, o homem
que um dia sonhou ser bom, a besta
que quer fugir e não pode
que quer berrar e não pode
que quer, meu Deus, ser perdoado.

Nesta véspera de sábado
Nesta Brasília silente
Há festas, boates, mulheres.

Roendo osso, remorso
Nesta sala indiferente.
Nesta hora desgraçada
Há somente o homem em face de si mesmo e náusea
O homem finalmente em face de si memso
O atônito covarde.

Para quem viveu, como poeta, os anos de ditadura e de resistência, a poesia não foi apenas um gesto de construção. Apesar de reconhecer a descabida terminologia para "Poesia engajada", acreditamos, no entanto, a necessida de uma 'Estética de Participação". O homem dentro de si mesmo, eternamente, acaba jogando também a arte dentro de um labirinto de inutilidade. Só a beleza é muito pouco.

fevereiro 05, 2008

Ao preparar o material do catalão JOAN BROSSA
para a página do amigo Antonio Miranda, dei de testa com a "Elegia a Che",
poema visual que mostra a ausência do guerrilheiro. É um poema de extremado silêncio, que nos queima as mãos quando colocamos os olhos naqueles vazios.

fevereiro 04, 2008

enquanto arrumas emprego
o louco grita próximos aos escritórios
procura por lentes de extinguir
os empórios da febre
a boca pronta para a mordida

já que o louco não é um bicho
talvez pudésseis lhe dar um prego
o louco martelaria com cabeça
afunelaria o vão na parede
por que não oferecer
os lábios em que ferrar a mordida?

em que acreditas, se não vês o louco?
talvez acredites no equilíbrio do pássaro
ou em qualquer outra insânia
veja na bifurcação da Divinéia
ou no rouco molejo da cama
da rua que tu achas que existe

a mãe do louco bate nas portas
com chocalhos de escaravelhos
leva dádivas de pães caseiros
e em seguida também enlouquece
blasfema ameaça à distância
com o muque e facões velhos

cansados da insanidade
se deixam debaixo dos oleandros
e divertem-se com o sabiá-da-terra
riem enquanto pássaro
abaixa e eleva a cauda
e espreita aquela paz de mãe e filho

se há pregos velhos
colecionam-nos esfuziantes
em montes com cabeça e sem cabeça
se há frutos colhem-nos
ofertam-nos aos transeuntes

calados os gritos do louco
enquanto procuras o prego?
enquanto andas numa rua que inexiste
ah! diálogo debaixo dos oleandros
pura penugem num caule em Anshan

@ Salomão Sousa