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Mostrando postagens de Janeiro, 2010

Brasões do desânimo

Quase acreditei nas montanhas
intocáveis por intempéries,
por algum gesto abrupto,
estúpido. Ou quedas.
Quase atingi a lascívia das sombras,
a naturalidade das ervas nas ranhuras
e eram pedras fabricadas em série.

Quase avistei o sol, quase
consumei o estupro, as cevas,
mas era falsa a embalagem.
Quase dormi de madrugada,
quase passei pela calçada.
Quase era palmeira na vereda.
Abandonei as pequenas estufas,
não me aventurei pelos pântanos.
Quase enfrentei o gesto de animar.

Quase meu nervo foi tocado
por toque voraz, inseto, torquês,
palavras, a ponta de taquara
a escapar de um cesto.
Não houve anúncios, ombros,
os gestos de enfurecer o sangue.
Quase tive a chuva na janela,
os ginetes reais, os javas,
os paramentos sobre os lumbagos.

Trafalgar, folguedos em Tordesilhas.
Todas as naus com especiarias, algas
no reluzir, cobres, pratas
de tremeluzir apagado em zinabre.
Quando pude, alcançou-me a lascívia
do chocho, do desânimo, da ferrugem.

Não era mais a estrada de Aquidauana,
de onde as colônias animavam
o luxo…
Os grãos ainda em sonolência
o granjeiro a tocá-los
com o estrume virgem das mãos
A distância das línguas férteis
em desconexas sílabas e engrenagens
Antes não fossem os reinos
ou as ostras a gerar riquezas
Antes não fossem as perdas
herdadas por algumas bocas
às quais os grãos se negam
e às quais se negam os sais
as sílabas os minerais de um calor

A permitida esgrima
com o esquecimento
Não aconteceria o chulo
a semente ressecada, a ova nula
Não aconteceria a penhora
os grãos triturados de uns seios
Antes não fosse o companheiro
numa viagem, numa visita
O companheiro sem estrume
sem ganas de dizer
sem ganas de ganhar um lírio
Antes não fosse o reino
das ostras incivis
a negar, a não permitir
o estoque da riqueza

São muitos os reinos
Os de Pascal, os dos grãos no estrume,
os de um país de muitas roupas íntimas
Ai! os reinos da lombalgia
Antes fossem os reinos
das ostras da civilidade

Blues por Scorsese

Por acaso, ao ir a um shopping, comprei numa pechicha de uma lonja de departamentos, o dvd "A história do Blues", documentáiro de Martin Scorsese. Fui averiguar e pude apurar que o dvd é relançamento, pois já esteve em catálogo em outras oportunidades.Trata-se de um concerto ao vivo na Radio City Music Hall, reunindo as lendas vivas do blues, com presença de novos. A abertura, com Anjelique Kidjo, é hilária. Ela canta uma música de raiz africana — eu que já gosto dela cantando music world. No dvd, o som está ótimo; a seleção dos músicos, incomperável; a imagem, digna de Scorsese, que já filmou documentário sobre Bob Dylan (também imperdível) e turnê dos Rolling Stones. Vou ficar revendo. E ouvindo. "Me enterre com uma pá de prata". "Eu odeio o sol de pondo..."

Leitura 2010

O texto abaixo foi produzido especialmente para o Jornal Opção, publicado em Goiânia. O texto, que saiu da edição desta semana, responde a enquete anual do jornal sobre o programa de elitura para 2010. Agradeço ao poeta Carlos Willian Leite a lembrança de meu nome para a enquete:

......
Es­cre­vo da­qui de Sil­vâ­nia es­tas re­fle­xões so­bre os meus pro­je­tos de lei­tu­ra em 2010, num mo­men­to em que as pe­que­nas ci­da­des vi­vem o apa­gão cul­tu­ral, quan­do se de­via es­pe­rar o con­trá­rio: cres­ci­men­to das ins­ta­la­ções pa­ra a prá­ti­ca da cul­tu­ra, tais co­mo ci­ne­mas, te­a­tros, bi­bli­o­te­cas, com igual con­sci­en­ti­za­ção da po­pu­la­ção pa­ra a prá­ti­ca e uso des­tes bens; quan­do a ju­ven­tu­de tam­bém po­de­ria es­tar fa­zen­do seus pro­je­tos de lei­tu­ras e de com­pa­re­ci­men­to a ou­tros ti­po de es­pe­tá­cu­los. No en­tan­to.

No en­tan­to, res­tam ape­nas as ins­ta­la­ções pa­ra o al­co­o­lis­mo e os pe­que­nos mon­tes de pe­dras nas vi­as pú­bli­cas pa­ra os…

Grenier

Já justifiquei as minhas férias com a leitura de "As ilhas", de Jean Grenier — lançamento da Perspectiva. Sem este livro, admirado por Albert Camus, não existiria "O estrangeiro". Não sei o que é mais demolidor — Schopenhauer ou Grenier. OU o tal do "Tao".