abril 18, 2012

Bob Dylan, Brasília

Meu ídolo aparece no palco
e o tempo passa a ser o nosso tempo,
insira o toque minimal,
a tela escura que ampara
as repetições encontradas nesse dia.
Surge, insurge e insula juventude
e já serei jovem em meu funeral.
Ele não se faz ídolo, só compõe
os gestos que degeneram a frivolidade.
Ouço algum grito. A quietude
ronda o meu ídolo.
Ele não será de mais ninguém,
de nenhum outra geração.
Para não se romper a frequência
em que ficamos, não se despe,
não se despede ou impede
o encaixotamento das vestes.
Acoito-o nos ouvidos e nos olhos
e ele me acolhe em seu coito.

A Bob Dylan

abril 16, 2012

Participação dos escritores de Brasília na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura

Estive duas vezes na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Primeiramente, no sábado, para estar, abraçar, trocar poesia com Juan Gelman. Grande poeta argentino! Amanhã ou depois devo postar uma fotografia de nosso encontro. Consegui, com tietagem, um autógrafo na coleção de sua poesia reunida em edição da FCE, que importei do México.
Hoje, para almoçar. Aproveitei para fazer uma fotografia externa de um painel e de um monte de lixo que o guarnece. De posse da imagem, assaltaram-me algumas reflexões sobre a representatividade dos escritores de Brasília na programação da Bienal (mas deixo para outros, se assim o desejaram, espelhá-las aqui, olhando a minha fotografia).
O evento é bom, e deve repetir com a periodicidade que traz no nome. Mas os escritores precisam criar um comitê e cobrar representatividade nas próximas edições. Outros segmentos não podem falar pelos escritores. Certamente eles têm vozes. Se as entidades literárias não têm voz e representatividade, pelo menos os próprios autores, acredito, sabem expressar o direito em participar de um evento da Capital. Não podem continuar sendo lembrados apenas para aplaudir.

Tira meu corpo de diante do hostil,
da borra de pedra que faz adoecer,
empedrar, carregar hostil o projétil.
Em Catamares, a mão entre as minhas;
em Cetim, o coração acolheria o sangue.
Leva-me com tuas mãos, com teus
olhos me faça existir. Com tua palavra
me roça na língua estrangeira.
Para o trânsito com tua inclinação
que já ultrapassou as vésperas,
foi posterior às fronteiras.
Inunda-me com a cachoeira, a gosma,
o pedaço flexível de ti que é feliz.
Circunda-me com alguma fronteira,
ainda que de giz.

abril 06, 2012

Amos Gitai

Sexta-feira da Paixão totalmente desnorteada, não de preguiça, mas de falta de objetividade. Nem busquei meu Judas para malhar. Se nascer sol, será sol. Se faltar ovos, será alimentação de tempos de guerra. No desarranjo, assisti o filme "Aproximação", do cineasta israelense Amos Gitai, que amo. Acaba de ser lançado em DVD. Com Binoche e participação de Barbara Hendricks. Só a cena inicial já ressalta a necessidade de aproximação entre as etnias, mostra a falta de nacionalidade. E para que a nacionalidade se o homem é homem em toda parte, se ele se organiza e se desorganiza em qualquer território? O sol nasce e se apaga em todos os horizontes. Basta deixarmos nossa tinta na pele de um outro.

abril 02, 2012

ENVOLTO EM SAL


se a esperas, terás a tua recompensa
envolta em sal, esticada numa pele nua.
em ti mesmo estarás estirado na secura,
couro para a trança útil nas mãos do antepassado,
estímulo àquele que de ti aguarda o futuro.
terás. a recompensa será a mulher
a esquecer-se numa tarde de trabalho,
talvez tão perto de tua aspereza, numa bancada.
se a queres de madeira, de bálsamo a terás.
se desejas a clareza, o homem ilumina
e após o escuro terás pedrarias
de cio e cal. e não silenciarás.
se em ti falta equilíbrio, aguarde.
se em ti faltam os beijos, se em ti faltam os lábios
a recompensa trará envolto em sal
o húmus para teus beijos mortos.
se em ti, se na tua pátria faltam os heróis,
virão das fronteiras universais as flâmulas
para teus heróis, e elas serão das peles
secas dos godos novos, preparadas
com gases, do sêmen seco das virilhas.
e terás tuas bétulas, teu zarcão
antes de comer teu pão e tuas trevas.
se em dias de anotações inúteis
aguardas recompensas, terás cálcio,
cola, sola, pinos. e se souberes,
calcificarás, grudarás, amarrarás,
fixarás com os manifestos dos teus dias.
terás a recompensa em divertidas
ondas para teus mares, e voos
já não deixarão teus ares imóveis,
as folhas verdes não acreditarão
que estarão em tua lápide. a recompensa.
aguarde enquanto calcificas, enquanto fixas
com teu couro seco, útil, recortado.

abril 01, 2012

Releitura de "Claro enigma"

Eu diria que cresci ao som de Drummond. Mas a frase  soaria falsa, pois só comecei a lei poesia por volta dos 14 anos. Decidi reler "Claro Enigma" numa edição melhor, agora no relançamento da Companhia das Letras. A edição ainda tem algumas capengagens. O papel - é previsível que vai amarelar logo logo. O posicionamento dos poemas bem que poderia ser centralizado. Não dá mais para fazer livros de poesia com os poemas sufocados na margem esquerda. Mas é um encanto reler o Drummond, sobretudo este do "Claro enigma", em que se antecipa - com "Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima - a novas vertentes da poesia brasileira.  Ele chega a citar Orfeu no soneto "Legado". Mas em todos os poemas sobressaem versos de elevada construção, dos melhores da Língua Portuguesa, e do melhor humanismo da literatura. Já no soneto "Confissão" sobressaem os primeiros versos (Não amei bastante o meu semelhante/não catei o verme nem curei a sarna.) E o verso extraordinário da última estrofe, que se desdobra no seguinte (Não amei bastante sequer a mim mesmo,/contudo próximo). O inesquecível poema "Um boi vê os homens" - só poderia ter sido escrito por um mineiro, por um humanista. Veja um verso de inecedível atualidade (o boi refletindo sobre os homens: ...E ficam tristes/e no rasto da tristeza chegam à crueldade). E como vivemos a crueldade! E nem precisamos tocar nos versos de espectrações de dolorosa modernidade de diversos poemas, sobretudo do imortal "A máquina do mundo". Ai releitura! Releitura de Drummond.