setembro 20, 2012

ACRÓSTICO DE ANIVERSÁRIO



(nos 60 anos de Salomão Sousa)

Ser, acima de tudo, um verdadeiro
Amigo - generoso, solidário,
Leal, não é problema para
O querido aniversariante de hoje,
Marido da Chiquinha, pai e
Avô de tantos filhos e netos que
O amam e respeitam sem ressalvas.

Sessenta anos de uma bela vida,
Ornada pelos melhores sentimentos,
Um deles de causar justa admiração:
Salomão Sousa, seu nome é sinônimo de
Amizade, sua pátria é o afeto.

Fabio de Sousa Coutinho
Brasília, DF, 19.9.2012

setembro 19, 2012

Os pequenos aprendizes de poesia

Recebi o seguinte e-mail de minha amiga Marta Teixeira:

Os Poetas

O Eduardo tinha que fazer uma poesia para a Escola.
Então resolvi visitar um poeta de verdade (Salomão Sousa). Levei comigo dois seguidores e aprendizes de poeta: Eduardo e Lucca - embora contra a vontade deles que queriam o vídeo game.
Salomão ensinou que a poesia pode brotar de qualquer coisa: da lua, da cachoeira, da janela do carro. Qualquer coisa.
Coloquei o jantar em casa para os dois meninos - escondidinho de carne moída.
E iniciei a conversa:
Que tal a gente fazer uma poesia? Pode ser para o escondidinho, que já ganhou o título.
Lucca engrenou logo os três primeiros versos. Eduardo continuou. Tira dali, tira daqui, veja o que sobrou:

Escondidinho

Pega carne
Pega batata
Acho que bate
Amassa batata
Faz o purê
Bota no fundo
Pega carne
Bota no meio
Pega o purê
Bota em cima
Tudo isso em uma grande forma
Que  bota no forno
Assa correndo
Espera faminto
Bota no prato
Tudo quentinho
Hum!!!
Que delícia!

setembro 18, 2012

EXERCÍCIOS PARA DEVORAR UM CARVALHO



Para não continuar morrendo de inveja das conferências fictícias de Eliot no livro de perfeição incontestável de Gonçalo M. Tavares, isolo uma frase do romance As vidas de Dubin, do norteamericano Bernard Malamud, para uma análise também fictícia, pois tudo que gira na esfera do teórico é imaterial.
Bernard Malamud é mestre na inserção de silogismos poéticos de extrema sabedoria em suas narrativas. No entanto, nem tudo que é sábio carrega praticidade no momento de aplicação nos atos de enfrentamento da realidade. A poesia e a sabedoria não existem para serem postas em execução na práxis. A poesia e a sabedoria existem para enlevar, engrandecer, deixar evidente que em algum momento o indivíduo pode agir heroica e belamente.
Em minhas análises da frase de Malamud, não vou ter em mente o personagem romanesco a que ela se refere, mas o homem enquanto ser presente na realidade, materializado, que atua, constrói e destrói, pois, o ato de devorar exige materialidade tanto do devorador quanto do elemento a ser consumido ─ exige presença e resistência corporal um frente ao outro. As águas devoram as margens. O mar devora o barco. O convidado devorou a galinha caipira. A mó tritura o grão. Avalio que é no mínimo estranho dizer – devorou o romance em três dias. Devorar é comer, é destroçar com ligeireza. E para comer um livro não são necessários três dias. Pode-se muito bem comê-lo em dez minutos; vamos, então, admitir que um livro possa ser devorado em meia-hora para não perder a elegância das boas maneiras à mesa e também para não prejudicar a digestão.
Mas passemos à frase silogística em questão:

“Às vezes sentia-se como uma formiga pronta para devorar um carvalho.”

Numa análise inicial, é uma assertiva gastronomicamente correta, pois a formiga e o carvalho pertencem à materialidade do mundo. Podem ser colocados num campo de enfrentamento. A formiga, ou seja, o homem pode devorar, bem como o carvalho pode ser devorado. No entanto, pode-se dizer que é ecologicamente incorreto. A legislação já não admite que se possa sair por aí devorando impunemente qualquer árvore.
É possível encontrar carvalhos em quase todos os continentes do Planeta, principalmente nas regiões tropicais. Talvez só os habitantes dos polos tivessem dificuldade de executar a decisão de devorar um carvalho, pois teriam de se deslocar para regiões distantes. Mas aquele que for procurar um carvalho para devorar terá dificuldade de encontrá-lo, pois já foi devorado à exaustão quase até ser extinto em todos os Continentes. 
É importante pensar bem antes de devorá-lo, não só pelos impedimentos da legislação ambiental, mas pelo próprio gesto ético de preservação da espécie, pois o carvalho só floresce após completar oitenta anos de idade. E é de bom alvitre se acautelar ainda mais, pois o carvalho tem os seus protetores prontos a se tornarem inimigos do devorador. O carvalho é a árvore símbolo dos druidas. Também não é recomendável devorar carvalhos na Coreia para não acontecer de engolir a alma de algum coreano, já que naquele país, após a morte, as almas se instalam no tronco destas árvores. E nem na China, onde elas são plantadas sobre as sepulturas para impedir que as almas se evadam. Portanto, ao se arrancar um carvalho na China está sendo aberto um santuário de mortos, que poderá liberar almas que irão enfrentar iradas o devorador. Ou então festejar o glutão, já que as almas liberadas poderão se sentir felizes de escapar da morada eterna ou no mínimo milenar.
Trata-se de uma árvore que vive de quinhentos a mil anos. Quanto mais intempérie enfrenta mais fortalece as raízes no solo para garantir a sobrevivência milenar. Assim, quem for enfrentá-lo, tenha bons dentes, já que o carvalho, como bom adversário, sabe se defender com a rigidez de um bom combatente. Após a decisão de devorar o carvalho, lembrar-se de aproximar com exaustiva cautela. Como é uma árvore que traz inúmeros troncos rasteiros milhares de vezes maiores que uma formiga, bem pode acontecer de aprisionar o devorador sob um destes galhos como inimigo ínfimo. Bem como não deve ser escolhido para a devoração aquele carvalho que está plantado no meio do Jardim, conforme assinalado pelas Escrituras, para não ser desequilibrada a estrutura bíblica do Éden.
“Sentir-se” é uma expressão que deixa alguma dúvida para a execução do projeto de devorar uma árvore. Aquele que sente não é o mesmo que se preparou com rudimentos científicos e materiais para conhecer e executar aquilo a que se propõe. O sentimento serve apenas para assumir algo que apresentará resultados aleatórios. O homem pode sentir o calor, mas não pode carregá-lo; pode sentir o amor, mas não pode vendê-lo aos quilos; pode sentir o azul, mas não pode pesá-lo. Poderá sentir que pode carregar cem vezes o seu peso, mas acabará triturado, amassado ao levá-lo às costas. É de supor, então, que ao se sentir uma formiga o homem esteja pronto a carregar até cem vezes o seu peso, isto, oito mil quilos se for um de oitenta quilos; ou seis mil quilos se tiver sessenta.
Aquele que vai devorar um carvalho, além de sentir-se pronto, tem de estar preparado para a tarefa. Como um carvalho não pode ser devorado de uma única vez, já que tem um volume centenas de vezes ao do homem, algum armazém deve ser preparado de antemão para guardar os galhos picotados, as folhas ensacadas, as raízes e as cascas moídas e as bolotas assadas. Além de exigir que algum elemento de transporte esteja disponível para deslocar até o armazém a árvore desmontada.
Suponhamos, no entanto que a árvore seja um projeto imaginário. Uma metáfora. O homem estar pronto para devorar uma cidade, um país, uma terra estranha. Um curso de medicina, um discurso no parlamento, no organismo internacional. Encarar o mundo. Declarar guerra ao alienígena. Se o homem não estiver de posse de todos os rudimentos para a tarefa a que se propôs, ele, sim, é que acabará devorado pelo carvalho, que desabará como uma tempestade sobre o seu ínfimo corpo.  
Como gesto de reconhecimento da pequenez do homem para enfrentamento das grandes obras, é justo e legítimo sentir-se uma formiga capaz de devorar um carvalho. Abominável, no entanto, se o indivíduo se sentir acima dos carvalhos, maiores do que seus contendores, e que carrega o direito de devorar toda obra milenar, inclusive aquela instalada pelos ancestrais na medida exata do centro do Éden.
Ao sentir-se capaz de devorar um carvalho, o homem tem de reconhecer que uma formiga não devora sozinha a árvore. A trilha foi construída em conjunto, com divisões de tarefas; cada formiga carregou, em diversas travessias, suas cargas de gravetos e folhas e bolotas, num trabalho social e solidário de todo o formigueiro.
Em algum lugar o carvalho espera a formiga para ser devorado. Todo homem tem de se sentir uma formiga preparada para a empreitada, com a família e a sociedade organizada em perfeito ordenamento para executá-la. Todo homem tem de praticar obras sobre as quais não irá tirar nenhum desfrute, mas talvez sua futura quinta ou sexta geração. Basta ver que o homem não terá a mínima chance de devorar o carvalho que ele mesmo plantar. O homem não trabalha, portanto, só para si mesmo ou para seu tempo.
Cada homem plante o seu carvalho, e dele não tirará nenhum desfrute, nem mesmo verá a primeira floração. Sócrates, Dante, Homero, as naves de Américo Vespúcio, de Colombo ─ deles são os carvalhos que hoje devoramos.    



setembro 17, 2012

Edson Guedes de Morais


~Edson Guedes de Morais me manda uma caixinha com cartões montados com poemas de minha autoria. Outras vezes ela já me brindou com trabalhos artesanais. E assim ele tem feito com diversos poetas. Só de Brasília, tenho conhecimento que ele já montou caixinhas com poemas de João Carlos Taveira, Antonio Miranda e Alexandre Marino. Tenho imaginado uma forma de retribuição, mas nem sempre conseguimos equilibrar os gestos da paixão. O que Edson Guedes de Morais faz é por paixão pela poesia. E estou comovido pela escolha para estar entre os trabalhos de José Edson de Morais. Parece até que meus poemas ficaram mais expressivos depois de passar por suas mãos carinhosas. Ele é contista e poeta nascido em Campina Grande (PB).



setembro 16, 2012

Tropicália

Voltei ao cinema. Desta vez para assistir o documentário "Tropicália", acompanhado dos amigos Poesia Iberoamericana Antonio Miranda e Zenilto. O filme se destaca pela recuperação de imagens do movimento, principalmente de Caetano Veloso cantando "Asa Branca" - ponto altíssimo do filme, junto com o depoimento de Tom Zé. O cinema estava vazio, mas será que a juventude terá interesse em participar  
criticamente dos movimentos artísticos e momentos históricos do País? A tropicália se deu num instante em que a juventude queria participação, queria produzir. Hoje em dia a coisa tá melancólica. Fui à pecuária de Silvânia e fiquei entristecido. Até julguei que na cidade não tenha promotoria. Como é que as autoridades permitam que as famílias tenham de participar de shows construídos só com palavrões e músicas do mais baixo (deixa pra lá). Olha, essa música "minha capirinha está com cheiro de..." é vergonhosa. Os eventos custeados com dinheiro público devem ser melhor monitorados na qualidade, e em condições que não tenham de merecer censura! Ai, sodades da tropicália, do Clube da Esquina, da resistência de Chico Buarque!

Cosmopolis

Apesar de os filmes que se encontram em cartaz não serem nada animadores, arrisquei a ver "Cosmopolis". Fui na cara e na coragem, sem ver, inclusive, que era sobre o romance homônimo de Don Delillo. Assustei quando cheguei ao cinema e os funcionários do café e da limpeza da área do cinema já anunciarem que o filme é o pior que já esteve em cartaz, pois alguns que vão assisti-lo chegam a sair com menos de dez minutos de exibição. Só isso já foi um desafio. Precisava compreender essa façanha de Cronemberg! Primeiramente, o filme não é acelerado como a sinopse apregoa. É lento como um ensaio de Derrida! No entanto, é oportuno, pois todo Don Delillo é oportuno, e também todo Cronemberg. Arrasa com o universo capitalista, de isolamento do indivíduo dentro de seus bens e interesses. O personagem chega, na condição de capitalista, a ter uma chefe, em sua organização, para tratar das "teorias". Portanto, é um filme teórico. Inclusive há uma frase, que não decorei, mas que é a mesma de Almeida Garrett a quase 200 anos: "Quantos pobres são necessários para fazer um rico?". E nem Garrett deve ser assim tão ipsis litteris. No tempo de Garret, a visão ainda era do imperialista, e não do capitalista. Oras. É um filme que dá pra ver, talvez não para entender, pois, aí, as coisas são outras: tem que ter base, como diz o goiano. E, se não tem base, é melhor "carcar fora" após os dez minutos iniciais!

"Esse texto vem de uma postagem livre no Facebook"

setembro 10, 2012

Cléa Marsiglia

Hoje foi meu dia de ir aos sebos de Maceió. São vários. Lamentável que o preço de livro usado no Brasil  tenha se elevado muito em razão da concorrência da internet. Talvez por isso as livrarias fiquem vazias.
Alagoas é a terra de dois grande poetas: Jorge de Lima (um dos mais perfeitos do Brasil, e de Lêdo Ivo).
Comprei dois livros de Cléa Marsiglia. Fiz um verbete da poesia dela para a Poesia Iberoamericana Antonio Miranda. Deixo aqui um dos poemas do livro.

Bem de leve caminhar e lembrar
sem entristecer o  presente
nem esconder a beleza do passar.
Não fala do ontem
nem foge do hoje.
Sabe que tudo está sempre andando
para outros lugares
até chegar ao perfeito não ser.

Bem de leve passa a ternura
pelo imenso do amar
até se desmanchar no eterno.