maio 31, 2013

Hilda Mendonça



VAGEM DE VIDRO.
    Escrever sobre autores que admiramos é um deleite, no entanto,escrever sobre autores que têm seus nomes inscritos nas letras nacionais, que já receberam comentários críticos de pessoas abalizadas,é aventurar-se em empreitada para a qual não se está devidamente preparado. Contudo,minha admiração  de longos anos por este goiano, filho da aconchegante cidade  de Silvânia, leva-me a ao atrevimento deste comentário.
    Pelos idos de setenta, minha amiga e colega de trabalho, Edir Tourinho, levou-me certo dia um livro de poesias de um amigo,dizendo ser este amigo Salomão Sousa.O livro em questão tinha o título de A Moenda dos Meus Dias.
         Chegando em casa, me dispus apenas a  dar  uma espiada naquelas páginas e de repente  exclamei para mim mesma;_Mas é um grande Poeta!Li, reli,guardei para outras releituras e comentei com minha amiga.Tempos depois conheci o autor daquela intrigante moenda em eventos literários e na Feira do Livro de Brasilia.
   Dizem que se um poema não nos causa prazer estético, não é poema. Salomão, amigo de outro amigo poeta, o Taveira,conseguiu despertar em mim emoções vividas e sonhadas em seus brilhantes versos. Acompanhei seus passos à distancia através da ANE, entidade que tenho o orgulho de fazer parte do quadro de seus associados, e percebi Salomão construir tijolo por tijolo,às vezes de pedra bruta, este artista completo do agora.
   Em Vagem de Vidro, que recebi recentemente pelos coreios, o poeta se mostra por inteiro, com um fazer poético refinado que difícil se faz  separar o que é melhor. Gostaria de destacar apenas um pequeno fragmento que me agradou deveras,à pagina 84,entre “viagens” estes versos: ”Viajei.Vi homens no luxo/Vi crianças no lixo/e no lixo tropecei”, este contraste lixo/luxo,ou ao contrário, já tem sido mote de alguns artistas, mas nenhum com a profundidade de Salomão que tropeça nesse lixo, não apenas constata e faz com que o poeta não seja aquele que vive nas nuvens, como sói acontecer, sonhando com seres inatingíveis, não,o poeta aqui vive/viaja mas que é telúrico partícipe da realidade de nossa gente,
“Viajei”. Quem diria que um verbo assim pretérito, isolado do restante do verso por um ponto final, pudesse transmitir tanto. É como se houvesse uma chegada e batendo firme o pé no chão, desse conta do que viu na viagem. E o lixo, no caso,sobrou justamente para os indefesos, as crianças no lixo. A perplexidade do poeta passa a ser nossa. Tropeça no lixo, mas não fica indiferente e cede a sua voz aos que não têm voz..
  Ficaria aqui interminavelmente a desfiar recados soltos ou nem tanto em sua bela poesia, mas meu poeta Salomão, me contento em lhe dizer;Obrigada Salomão Sousa, valeu a leitura.
Hilda Mendonça_Em noite de Chuva em Passos, MG,28/05/13

maio 29, 2013

A pergunta

Ronda, quase visível, a pergunta.
Cresce com os filhos, oculta-se
entre as escassas raízes da memória.
Ajusta-se às dormentes crisálidas
de um teto, aos títulos de minha honra,
à luz a animar a transitória bula
com que jamais me recuperarei.

A resposta crestou com os pães
e com os frutos que comerciei
em balcões de seca hibernação.
Anima-se nas lutas das paisagens
em que jamais transitarei
com óleo de invisível centro da madeira.
Dorme nos raios de um sol lânguido
a descarnar o andamento dos dias.

Diante de minha manhã acontece
a atacada do falcão
à fugidia companheira
e o meu ataque também se expandiria
em revoluções animadas dentro de um céu
em resposta fulminante.

Para que as garras nunca se retorçam
no pescoço de uma presa,
de uma isca implantada no meu trânsito,
aquieto-me na sementeira
de estéril decisão de florescência.
A pergunta nunca se despeça de sua hora
e em mim o falcão nunca adormeça.