Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Abril, 2014
Recebi nesta semana vários livros que comprei por reembolso da editora Cosac Naif. Adoro as belas edições desta editora. Lamentável no entanto a tradução viciada de alguns livros. Em Oblomov, logo no primeiro parágrafo, aparece o horrível "cujo", que só serve para relatórios: é uma palavra de uso correto, mas em desuso. E o que está em desuso acaba soando fora de lugar.. Jamais Gontacharóv usuaria esta construção frasal. E, na linda edição de Contos de Lugares Distantes, do australiano Shaun Tan, aparece também na primeira frase uma construção completamente incompreensível. Eu não compreendo esta frase: jardim: "aquele que ninguém cortava a grama". Matou a minha vontade de ler livro. Eu não sei se é em que se é onde ou outra alternativa. As traduções a cada dia ficam menos literárias. Estou cansado do uso do verbo "nutrir" e do uso de "passante" para transeunte. Para desejo, amor, compreensão, comer, para tudo é nutrir.Dá enjoo.  E tantos outros…

Roberval Pereyr

O livro "Mirantes", de Roberval Pereyr foi o vencedor do Prêmio Brasília de 2014. Não compareci à entrega do prêmio, pois faltou motivação aos autores de Brasília até mesmo para aplaudir os eventos da Segunda Bienal do Livro. Tudo feito à margem de Brasília como se fosse um evento nacional e não com dinheiro local, com necessidade e obrigação de refletir na localidade. No entanto, encomendei o livro e não posso deixar de aplaudir a poesia de Pereyr. Aparentemente, sobretudo pelos autores que saúdam Pereyr - Secchin, Ruy Espinheira Filho, Alexei Bueno - pode-se ter a impressão de uma poesia tradicional, sem grandes tentativas de novos caminhos. E é. Ligada à metafísica de Pessoa, ao andamento construtivo de Drummond, e com alguns laivos dos compositores do Nordeste. Até a utilização do soneto - mas como a poesia vai se cansando da invenção excessiva, há naturalmente retorno nietszchiano às antigas formas. Mas essa mistura em si já acaba resultado num trabalho de transparência…

Viagem com a Júlia e o homem de Guaporé

O poeta perde a piedade
Não encontra a gratidão
nos respingos de chuva
que entram pela janela
que um passageiro
insiste em deixar aberta
Fecha o livro para não ver
que ele se desmontará úmido
Repugna-lhe o suco açucarado
que só faz aumentar a sede
E o homem de Guaporé
viaja com o antebraço
enfiado em suas costelas

O poeta desiste de articular
o poema sobre a memória
É memória da garotinha Júlia
que circulará amanhã
à procura de flores e achando lixo
O jovem que economizou
na passagem caminhando
sob a chuva
As pequenas flores mutantes
da buchinha
A memória do parente que aguarda
pela benevolência de alguém
que consiga a vaga no hospital
Melhor fora para o poeta
produzir pamonha sem ser tributado

Entre os ruídos
às vezes umas palavras:
viagem de dois dias
Cartão no hotel sobre a cama
Porto Velho/Guaporé
Registrar a perda na delegacia
Anúncio no rádio
e não encontro o irmão
E do irmão só sabe
que é empregado
Parece que retorna
de tentar falar com a presidente
Seguem poeta e homem de Guap…