março 22, 2015

Rua da Direita

Enquanto nada acontece
vamos fazer uma pergunta
ou dar uma resposta
Ou dar um oi
já que hoje não temos passeio ao rio dos Bois
Para ceifar o matagal
tirar as foices da viga do paiol
Chegou a visita?
Ronda teu nariz algum mosquito?
Há a rua enorme e vazia e silenciosa
à espera das crianças com os skates
Ou só o dia enorme e indiferente
com a igreja do Senhor do Bonfim no fim da rua
Vestir a boa roupa
e ficar elegantes para pensar coisas grandes
e não surgem na rua os elefantes
Até as formigas descansam a esta hora
e vazio fica o terreiro
Quase estamos presos numa masmorra de Palmelo

Já assisti nessa paisagem
de adormecida poeira e de desânimo

março 19, 2015

Publicação no Diário da Manhã


Aguardo com ansiedade meu exemplar do livro analisado abaixo. Alguns poemas aparecem junto com os bons goianos:

Sublimes linguagens:  harmonia e perfeição sob a tutela de Elizabeth Caldeira Brito


O homem, desde os primórdios de sua existência, foi impulsionado a expressar os seus sentimentos. Na sua simplicidade, entrou no mundo das artes, grifando nas rochas e elaborando esculturas, contando com o material que tinha em mãos. Mais tarde, começou a usar as palavras gravadas nas pedras e a explorar os recursos de voz para emitir sons musicais. Externar emoções é inerente ao ser humano.
As artes, a literatura e a música sempre caminharam juntas no decorrer do desenvolvimento da civilização. Gradativamente, surgiram grandes talentos, porém, a posteridade tomou conhecimento apenas do material que foi registrado. Quantas maravilhas foram apreciadas, na época em que foram produzidas, e se perderam no tempo sem deixar marca para que outras gerações pudessem desfrutar desse acervo cultural que traduzia a alma da humanidade!
O trabalho que Elizabeth Caldeira Brito vem realizando no Diário da Manhã, na página por ela elaborada no caderno OpiniãoPública, abre espaço para que a poesia e as artes plásticas possam se entrelaçar resultando uma união perfeita. Além disso, permite que os artistas desfrutem de um painel para a divulgação das suas obras.
Tudo o que não é publicado cai no ostracismo. Foi o que aconteceu com a obra do grande mestre alemão do período barroco musical Johann Sebastian Bach, cujos manuscritos permaneceram esquecidos nos sótãos empoeirados de residências abandonadas por quase um século. Graças à descoberta dessas relíquias por  Felix Mendelssohn, seu compatriota, a humanidade pode ter acesso à perfeição das mais lindas obras primas do ilustre compositor que se tornaram imortais e fonte inspiradora de renomados musicistas.
Porquanto a iniciativa de Elizabeth deve ser valorizada. Depois de mais de três anos de publicação no DM, resolveu reunir as peças do seu trabalho e divulgá-las em um livro, o qual intitulou Sublimes Linguagens. Elaborou com maestria uma edição consistente de extrema beleza, bom gosto e imaginação. As cores fortes e harmoniosas deram vida às exposições e, ao mesmo tempo, serviram para separar as produções dos autores.
Obras primas se juntaram como elos da mesma corrente, entre elas, telas de Amaury Menezes, Cleber Gouveia, Frei Nazareno Confaloni, DJ Oliveira, Gustav Ritter, Goiandira do Couto, Antônio Poteiro, Alessandra Teles e Elder Rocha Lima; esculturas de Maria Guilhermina, Elifas, Helena Modesto e Antônio Vieira; fotografias de Nelson Santos, Sinésio de Oliveira, Wagner Soares e da autora Elizabeth Caldeira Brito; poemas de Leda Selma, Augusta Faro, Moema de Castro e Silva Olival, José e Gilberto Mendonça Teles, José Fernandes, Alcione Guimarães, Geraldo Coelho Vaz, Ercilia Macedo–Eckel, Mariza de Castro, Itaney Campos, Ursulino Leão Tavares, Nasr Chaul, Yêda Schmaltz, Miguel Jorge, Brasigóis Felício, Sandra Rosa, Cristiano Deveras, Büchner Sampaio Rosa, Floriano Freitas Filho, Aidenor Aires, Edival Lourenço e Bariani Ortencio.
Tantos outros autores se destacaram no acervo de Elizabeth, tornando-se difícil se referir a todos. Somente em um ambiente adequado, folheando as páginas do livro, lendo com atenção as indicações da autora, os títulos escolhidos para cada parte selecionada, seria possível avaliar a grandeza do trabalho de Elizabeth Brito.
O lançamento do livro aconteceu no salão da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil. Na entrada, cavaletes com quadros ilustrativos de Sublimes Linguagens ornamentavam o saguão, abrindo alas para as pessoas que chegavam, encantando-as com o espetáculo pictórico que se descortinava, como se a intenção fosse prepará-las para terem em mãos o livro a ser autografado.
Indivíduos do mundo das artes, da literatura e da música circulavam ao lado de presidentes de entidades culturais com a alegria natural de participar desse evento onde a atmosfera era de harmonia e bons fluidos. Elizabeth, com o desembaraço que lhe é peculiar, recebia a todos com gentileza e apreço, brindando os leitores com dedicatórias delicadas e carinhosas.
Dessa forma, ficam registradas para a posteridade obras relevantes da atualidade. Os participantes se sentem honrados com a oportunidade de ter suas obras tão bem-ilustradas. Esperamos que a autora dê continuidade a essa difícil empreitada para que outras gerações possam ter acesso aos movimentos artísticos e literários a par dos fatos que acontecem nos nossos dias. Parabéns, Elizabeth Caldeira Brito, pela dedicação na pesquisa e produção deste livro encantador: Sublimes Linguagens!

(Alba Dayrell, membro da Academia Feminina de Letras e Artes (Aflag), da União Brasileira dos Escritores (UBE)e professora aposentada da UFG)

março 01, 2015

Enquanto o engano

Continuo no ponto de espera enquanto
há o engano na duração de uma lua
com a extinção da água na cornucópia de Orfeu
Nos barris negros enquanto não foram vapor
e nem me interpor nas curvas das assinaturas
entre os acordos das coordenadas
Na fixação do rosto na podridão do assédio
e ser assaltado pelo despudor da falha dentária

To be/não me engano com a mão
empurrada para o vértice das pernas
enquanto se apresentam as moscas sicilianas
que vieram de um diálogo do filme de Losey
Não me engano pela troca da espingarda
pelos acres de terra/ficar este ser
sem onde atirar/mirar ao Norte
entre os saltos das ondas do bestiário

Não é por ludíbrio que todos se ausentam
Talvez por conhecer os estirões nos joelhos
a desnecessária vara do pau-de-arara
Talvez pelo balde vazio/pela covardia
de não se mover no engarrafamento
Acreditar-se com a riqueza enviada
pelas barreiras do câmbio suíço
e ter de balançar o berço de talas do Calvário

Curto meu ócio/minha viagem habitada por bivalves
que ofuscam as vulvas do significado
Aguardo desde o movimento boreal
Desde a constância da eliminação do adversário
A minha estrada não é aquela em ponho meus pés
em que faço mira com minha espingarda
Em bocainas de secos mirtilos/sigo para povoar
o mundo com nossa falta de ovário