16 de julho de 2013

Um discurso de Górgias

Poema de Antonio Miranda
para Salomão Sousa
  
A minha poesia
só existe para mim.
É incomunicável.
O que se escreve é
incompreensível.
Faço minhas leituras
de Drummond, sem jamais
apreendê-lo: palavras
me levam a outro sentido.

Releio e recrio. Por isso
o crítico escreve mil palavras
sobre um mesmo verso
de Pessoa, e apenas
o intuímos: o sentimento
é intransferível!  Uns
dizem entender, outros
abominam, nos desentendemos.

Insondáveis, alteregos
do diálogo de equívocos.
Intencionalidades. Tent
ativas, aproximações.
Sempre nos vemos nos
outros sem que nos vejam.
Não vemos ninguém,
só a nós mesmos.

Condenados ao solipsismo.
A sós, nós
na multidão.
Em vão. 
 
Brasília, 14-07-2013

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