1 de julho de 2026

A importância da Arte para a harmonia e a liberdade

              Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?

            Uma pedra que encontramos na natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão, ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.

            Para ser uma obra de arte, o objeto tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos que existem no mundo? Temos de criar outros?

            Devemos estar atentos a essas questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e imaginamos.  A Arte é o resultado da execução daquilo que imaginamos.

            Octávio Paz, poeta mexicano que ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões podem ser aplicadas à Arte.

 

A poesia é conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito. Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras.

 

Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens, nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos, contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet – para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)

 Com a arte, o homem aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo. 

Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas. Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro compra até as coisas que não precisamos.

Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar, podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão, mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo. Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.

Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte, identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização, descobrimo-nos iguais.

            A Arte é a melhor forma que o homem encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos. Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas, sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona, alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da Arte.

            Assim, vamos tocando o que chamamos de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das criações humanas.

            Inventemos para nossa própria alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo. No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria vida.

            A Arte e a experiência de viver se complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo. Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.

            Uma pessoa feliz, que ouve uma música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.

            Não deixemos de conhecer, de perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.

O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho, desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a que nos oprime.

Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes, integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer que a vida seja boa para todos sem subterfúgios, enganações, opressões e escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam inibir a percepção da liberdade.

            Ampliamos nossa percepção através da Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber, criamos a nossa liberdade.

A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!

 

 

1.      PAZ, Octavio. O Arco e a lira in La casa de la presencia, Galaxia Gutenberg, Barcelona : Espanha, 1999.   


27 de junho de 2026

O trabalho de Siron Franco



Como não vivo e não vivi em Goiânia, não convivi com a obra de Siron Franco nem com o pintor enquanto pessoa física e ser social. Não é só como contemporâneo e conterrâneo que admiro Siron Franco, mas pelo espasmo de exatidão crítica ao estranho que exala de cada um de seus trabalhos.

Tenho dois livros sobre sua obra e uma reprodução de um trabalho que retrata a cabeça de um animal por ele inventado a partir de suas experiências com o estranho. Certa vez comprei um tabloide, não me lembro qual, e esse trabalho vinha como encarte. Está em minha sala. Trata-se da figura de uma cabeça de animal em desenho limpo no formato de fotografia para eliminar o sentido da invenção artística. Essa enganosa fotografia parece colada sobre desenhos rupestres. Se num tamanho A4 já assusta, imagine se ela ocupasse alguns metros de uma parede como habitualmente os trabalhos de Siron Franco ocupam.  

Estive com meus filhos ainda crianças numa montagem de Siron Franco na Caixa Econômica de Brasília. Na mesma Caixa de Brasília, assisti a uma palestra por ele proferida com espontaneidade e resistência. Ali nos cumprimentamos, mas encontro fortuito insuficiente para aprofundar qualquer discussão ou relação. Na exposição, estavam expostos grandes tanques de petróleo num ambiente escuro. Cubos menores também com petróleo formavam uma espécie de labirinto. Os meus filhos retornaram para casa cheios de manchas nas roupas, mas plenos de expressões que tentavam compreender a montagem. Não sei se era mais assustador aqueles recipientes com centenas de litros de petróleo ou a sala, em outra exposição, com centenas de litros de tinta, de Anish Kapoor. É o destino de querermos o acúmulo. Mas o acúmulo não torna ninguém mais sábio nem rico, nem é mais belo do que a beleza do que está no mínimo.

Talvez a maior exposição do Siron que eu tenha visitado seja a que foi montada na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia. Tive o privilégio de visitá-la em companhia da poeta Maria Abadia Silva, que conviveu com o pintor, é sua amiga e conhece a sua família, o ateliê e a obra. Nem essa convivência acalma a poeta da presença intimidadora da obra.

A exposição foi dividida em três espaços. O primeiro dedicado à ditadura, onde o corpo humano fica exposto à violência. Lembrou-me as minhas leituras sobre a inquisição. O quadro sobre a Guernica repressiva corrói-nos a alma, o ânus, a genitália. Há rostos apagados, recortados, rostos que não enxergam, indiferentes, omissos, outros que apresentam visões duplas ou deturpadas ou olha. Há cortes de carne humana em ágapes de repressores. Não precisamos da inteligência artificial para nos amedrontarmos, pois quem precisa de extensão para ver é aquele que não sabe e nem é confiante. Qual a nossa vesguice diante da violência repressiva e dos canais que inutilizam a nossa presença e sabedoria? Se oportunistas políticos querendo ampliar a própria imagem comparecerem prometendo mãos pesadas, Siron Franco recortará as cabeças que orientam essas mãos de carrasco e as denunciará em seu trabalho.

O segundo espaço é dedicado ao acidente do césio, que levou Goiânia ao medo e à imprensa internacional. Foi uma experiência nefasta de descaso da administração para lidar com material radioativo. Siron Franco expõe a roupa esvaziada da primeira vítima. Esvaziada, pois quem desaparece não ocupa mais espaço. Mas somos todos vítimas, pois todos estamos expostos e envergonhados numa realidade deformada. Quando imaginamos espaços civilizados não podemos ver corpos venezuelanos apodrecendo na calçada, o corpo de Lázaro sendo jogado como um saco num camburão ou valas sendo abertas para cadáveres da pandemia serem atirados em sepultamentos coletivos.

Para atravessarmos para o terreno das madonas, deparamo-nos com um vasto mar, com seu azul acolhedor que ladeia um mínimo barco, quase invisível é de imigrantes, que, certamente, irão morrer na praia. Nem tudo que vemos envolve áurea turística, pode muito bem ser uma fuga com destino incerto e de possíveis fatalidades. E está lá, em outra obra essa menor , a criança de borco na areia. Todos os visitantes passam, e, após a passagem, possivelmente, ninguém vá chorar ou sentir repugnância. Talvez o visitante até admire o barquinho como nódoa de beleza na imensidão do céu e do mar. O céu e o mar sempre são imaginados para acolher com beleza e não para acolher fatalidades. Mas há fatalidades, sobretudo a do barquinho da amplidão da tela de Siron Franco, que não são ocasionadas pela natureza.

Chegamos ao último espaço, com as madonas. Algumas severas. Há erotismo. Mas tudo se dilui, e se acalma em cores estreladas em fundos monocromáticos. Vamos nos apaziguar na presença dos últimos trabalhos.

Voltamos ao exterior e vemos numa estrutura de Siron Franco que braços pretos e brancos, enlaçados como formigas que se apoiam umas nas obras para formar uma corrente levadiça, se contorcem uns dentro dos outros para subirem em redenção rumo aos céus, pois não podemos ficar eternamente num universo de diluição dos corpos pela violência, seja ela de má-fé administrativa, por totalitarismos ou pelos mais diversos colonialismos. Precisamos de alcançar ascensão para escape da degradação civilizatória.

Siron Franco é nosso ser sagrado. Não se detém aos aspectos físicos do homem de sua região. As suas figurações são frias, quase como recortes de madeira, sem identificação regional das imagens. Não lhe interessa descansar numa paisagem, usufruir de um pub chic, mas apreender e expressar, incansável e ininterruptamente, em leituras duras. Mas de beleza eterna. Siron cria nosso espelho enquanto seres susceptíveis de naufragar. Mas um país que tem quem nos obriga a nos enxergarmos é passível de redenção.

A minha primeira experiência com a arte foram os bustos de cerâmica produzidos por Manoel Natal de Siqueira postos a secar na calçada em frente à sua casa, que, por coincidência, também era a minha rua, em Silvânia. Bustos esses descolados de qualquer corpo e que viriam a surgir na arte de Siron aos milhares. Dos bustos da calçada só me lembro do que retratava Pelé, que se encontrava no auge da carreira. Em Siron Franco, os bustos manifestam-se sem identidade. Não se assemelham a Pelé, ao Vivinho ou ao Pe. Januário.

Não sou um expert em arte. Mal compreendo alguns rudimentos da literatura. Por escassez de dinheiro e também por não me preocupar e me incomodar nas viagens, nunca estive em museus europeus ou no Moma de Nova Yorque. No entanto, sempre que pude e posso, busco conhecer museus e exposições. Visitei o Museu de Fernando Botero, na Colômbia, e de Oswaldo Guayasamín, no Equador. Lamento não ter ido conhecer obras de Frida Khalo quando estive no México. Procurei visitar as obras de Portinari em Lençóis (SP) quando visitei aquela cidade. Sempre que incluem uma peça de Maria Martins nalguma exposição a mim acessível não deixo de comparecer para apreciá-la.

Por incompetência, não me atreverei a fazer associações da obra de Siron com a tradição da arte mundial. Todos esses artistas nascem do milagre de estar presente numa realidade de estranheza. Guayasamín estende as mãos numa súplica eterna, convidando-nos a estarmos próximos: oferece-te. O chamado de Botero: amplia-te e desnuda-te para ocupação do que te pertence. Siron Franco, oferecendo a ascensão, mantém aceso o alerta: cuida-te, senão serás recortado e parte de te será ofertada numa ceia nefasta.


19 de maio de 2026

16 de março de 2026

Oscar 2026

Assisti a vários filmes que concorreram ao Oscar 2026. O Agente Secreto eu vi duas vezes. É um filme introspectivo, mas excessivamente fragmentado em sua narrativa, por isso peca por gerar cansaço. No entanto, denuncia os universos dos momentos de repressão, seja ela qual for, seja fobia ou real. Mistura a jagunçagem política com a jagunçagem urbana e administrativa. Vale. Vende a imagem de um Brasil carnavalesco, mas que esconde uma fraqueza de conhecimento formal, pois somos um país onde a fuga do ensino é a normalização..
E hoje assisti ao filme Pecadores. Sem nenhuma criatividade. Levou 4 estatuetas e é um filme feio, sem gerar nenhuma empatia ou crítica. Excessivamente óbvio. Será que é necessário vampirisno para atração (ou crítica?) da camada extremada? Temos de viajar demais para montar um processo crítico com essas narrativas mirabolantes. A crítica pode ser mais objetiva e sem amontoado de cenas estúpidas e que já entupiram as telas. O cinema americano virou virulência de cenas de bizarrice.  Estou cansado disso. Melhor as narrações piegas do que as cenas de bizarrice.

24 de fevereiro de 2026

A importância da Arte para a liberdade

Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?

            Uma pedra que encontramos na natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão, ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.

            Para ser uma obra de arte, o objeto tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos que existem no mundo? Temos de criar outros?

            Devemos estar atentos a essas questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e imaginamos.  A Arte é o resultado da execução daquilo que imaginamos.

            Octávio Paz, poeta mexicano que ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões podem ser aplicadas à Arte.

 

A poesia é conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito. Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras(1).

 

Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens, nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos, contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet – para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)

 Com a arte, o homem aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo. 

Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas. Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro compra até as coisas que não precisamos.

Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar, podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão, mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo. Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.

Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte, identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização, descobrimo-nos iguais.

            A Arte é a melhor forma que o homem encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos. Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas, sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona, alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da Arte.

            Assim, vamos tocando o que chamamos de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das criações humanas.

            Inventemos para nossa própria alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo. No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria vida.

            A Arte e a experiência de viver se complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo. Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.

            Uma pessoa feliz, que ouve uma música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.

            Não deixemos de conhecer, de perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.

O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho, desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a que nos oprime.

Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes, integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam inibir a percepção da liberdade.

            Ampliamos nossa percepção através da Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber, criamos a nossa liberdade.

A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!

 1.      PAZ, Octavio. O Arco e a lira in La casa de la presencia, Galaxia Gutenberg, Barcelona : Espanha, 1999.   


6 de janeiro de 2026

Uma leitura de Robert Walser

Comecei antes do Natal de 2025 a leitura do pequeno livro "Jakob von Gunten", do suiço Robert Walser, escritor admirado por grandes nomes como Kafka, Elias Caneti e Walter Benjamin. É o segundo romance de Walser que leio. "O Ajudante" também me cativou sobremaneira. Em "Jakob von Gunten" encontro tudo que me cativa numa obra romanesca. A poeticidade, a capacidade introspectiva de tratar os personagens e a sombra da época que paira sobre o leimotiv do livro. Cenas como a que o personagem imagina participar do exército de Napoleão é inesquecível, e quase impossível de escrever o capítulo que trata da experiência sexual do jovem personagem. Nunca vi nada igual!
    São três livros sobre instituições educacionais, onde os personagens passam por fomação, que merecem atenção. Nesse, o personagem, narrador de si mesmo, trata de do eu livre, sem peias diante da sociedade; em "O jovem Torless", de Musil, há uma premonição da violência que cairia sobre a Europa na forma de nazismo e fascismo; e "O Ateneu", de nosso Raul Pompeia, que trata da situação repressiva da própria instituição. Assim temos: a violência está no próprio indivíduo, já que ele confunde liberdade com o direito de menosprezao ao outro, está no ambiente das nacionalidades e também dentro das instituições. Resta a nós atenuarmos esse ambiente de violência.
    Acho que comecei bem o meu ano de leituras. Uma citação do livro: Não pense que, por amor a vocês, as tempestades, os raios, os trovões e os golpes do destino foram abolidos. De jeito nenhum!. E ainda acordo ouvindo em minha própria casa que devemos punir os assassinos arancando-lhes os olhos! É difícil humanizar o mundo!
    Julgamos sempre que é razoável invadir territórios e assassinarmos as leis internacionais. ou esta outra citação: Ainda bem pequeno, abri um buraco na cabeça do meu irmão. Mas isso foi um acontecimento, e não uma tola travessura.
    Trata-se de um livro em domínio que merece permanecer com mais disponibilidade do mercado. Só temos uma tradução pouco comertcializada e cara.



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A importância da Arte para a harmonia e a liberdade

               Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que se...