A poesia é meu território, e a cada dia planto e colho grãos em seus campos. Com a poesia, eu fundo e confundo a realidade. (Linoliogravura do fundo: Beto Nascimento)
25 de julho de 2026
Novamente Anitta
21 de julho de 2026
Impressões sobre o filme Odisséia
O cinema é outra de minhas paixões desde a infância. Quando o cinema se soma à Literatura, a paixão aumenta, e a paixão ainda mais se amplia quando a música se ajusta às cenas. A Odisseia, filme de Christopher Nolan que está em cartaz nos cinemas, pode ter pecados, mas procura ajustar Homero ao nosso tempo. Perdemos a narrativa e o diretor, consciente ou inconscientemente, desmonta a ordem, sem perder tanto a similaridade com as invenções consagradas da história e das lendas gregas.
Como um amante
do andamento dos filmes antigos, gostaria de menos recortes e mais introspecção
nas cenas, gostaria de atores mais intensos, um Telêmaco menos apático, uma
Helena que não fosse inutilizada, pois não adianta substituir a atriz branca
por uma negra e deixá-la desfigurada ao lado de um Menelau que se parece com um
simples lutador de MMA ou um fascista convicto de suas vitórias.
Quem são os
alienígenas de uma ilha que botam os heróis para correr? Há invenções fora de
lugar? Há. Nessa ilha, os lestrigões não são alienígenas como posso imaginar
numa primeira leitura. Talvez robôs reaproveitados dos Transformers para
encanto da ala jovem. E é nesse momento que há clareza nas imagens, talvez por
essa remissão ao futuro, onde os robôs serão os grandes inimigos destruidores
das frotas e lendas do passado. Os robôs apagarão a memória, levando a História
à deformação?
A trilha
sonora é justa. Não podemos exigir Bossa Nova para dar intensidade a uma
tragédia. Tem de ser mesmo batidas minimalistas. Eu não esperava violinos, mas martelos
no ferro. O canto das sereias só poderia ser oferecido por elas. O homem não
pode compô-lo. O canto das sereias é o que descobrimos de descompasso em nós
mesmos. Enlouquecemos quando nós nos ouvimos. Esse canto está no filme, mas só
vai compreendê-lo quem está disposto a se ouvir. Cada um tem o canto das
sereias dentro de si mesmo e ele é ivergente em cada um que se ouve. E vivemos
numa época em que as pessoas não busca ouvir os próprios descompassos.
Portanto,
atores frios ou interpretações apáticas foram previsíveis para atrair uma ala
jovem do público. A velocidade das cenas também. As cores escuras, esmaecidas,
dá o tom lúgubre necessário, inclusive realça o impacto do passado, quando era
escassa a iluminação. Também para realçar a clausura em que vivemos. A clausura
nos remete à escuridão. E também é escassa a nossa compreensão dessa história
passada. Reclamemos mais luzes em nós mesmos.
Enfim,
concordo com o comentarista da Folha de S. Paulo - o filme traz
desconforto, pois, nele, reconhecemos que não estamos respeitando nossos
adversários. Quando não respeitamos o outro, perdemos o caminho. Enlouquecemos
quando não reconhecemos nossas contradições.
A Odisseia
é um filme de difícil leitura, mas é hollywoodiano, com suas falhas, sobretudo
de roteiro, mas com a coragem de um diretor, com a oportunidade de pôr na mesa
temas delicados e, sobretudo, a elogiável exposição de uma obra imorredoura,
que serve para lembrar que, por mais que o Homem se perca, a nossa casa, a
nossa ilha, as pessoas amadas - aí se encontra o nosso grande refúgio. Perdemos
a proteção dos deuses quando violamos o refúgio do outro e não zelamos pelo
nosso.
1 de julho de 2026
A importância da Arte para a harmonia e a liberdade
Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?
Uma pedra que encontramos na
natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão,
ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não
tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.
Para ser uma obra de arte, o objeto
tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um
significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos
que existem no mundo? Temos de criar outros?
Devemos estar atentos a essas
questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os
próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de
perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa
casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se
melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais
elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se
deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de
nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que
estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as
roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e
imaginamos. A Arte é o resultado da
execução daquilo que imaginamos.
Octávio Paz, poeta mexicano que
ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e
a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões
podem ser aplicadas à Arte.
A poesia é
conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a
atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um
método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos
eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra
natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo
com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania,
epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação,
condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes.
Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e
o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito.
Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto
do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência
às regras; criação de outras.
Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui
identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens,
nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos,
contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de
existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é
ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet –
para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo
precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos
no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não
correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos
identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)
Com a arte, o homem
aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua
presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria
existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não
tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é
consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo.
Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele
ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas.
Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a
casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas
filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por
isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não
precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O
dinheiro compra até as coisas que não precisamos.
Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros
e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar,
podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos
contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da
sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser
encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem
pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por
nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão,
mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter
consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo.
Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a
razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos
procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.
Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos
aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos
entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros
pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte,
identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização,
descobrimo-nos iguais.
A Arte é a melhor forma que o homem
encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um
animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar
ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos.
Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem
fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por
criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas,
sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona,
alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da
Arte.
Assim, vamos tocando o que chamamos
de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos
viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das
criações humanas.
Inventemos para nossa própria
alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula
a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo.
No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir
daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não
sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria
vida.
A Arte e a experiência de viver se
complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço
melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me
envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa
desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo.
Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não
desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.
Uma pessoa feliz, que ouve uma
música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar
dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de
arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa
troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a
Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom
ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as
pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda
a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e
belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.
Não deixemos de conhecer, de
perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas
entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser
extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.
O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se
faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer
e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho,
desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou
pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre
para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer
no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o
outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como
pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a
que nos oprime.
Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes,
integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao
desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos
ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas
condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer
que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e
escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar
pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam
inibir a percepção da liberdade.
Ampliamos nossa percepção através da
Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos
a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber,
criamos a nossa liberdade.
A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder
trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por
não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a
sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não
prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que
todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do
outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz
e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!
1.
PAZ,
Octavio. O Arco e a lira in La casa de la presencia, Galaxia
Gutenberg, Barcelona : Espanha, 1999.
27 de junho de 2026
O trabalho de Siron Franco
Como não vivo
e não vivi em Goiânia, não convivi com a obra de Siron Franco nem com o pintor
enquanto pessoa física e ser social. Não é só como contemporâneo e conterrâneo
que admiro Siron Franco, mas pelo espasmo de exatidão crítica ao estranho que
exala de cada um de seus trabalhos.
Tenho dois
livros sobre sua obra e uma reprodução de um trabalho que retrata a cabeça de
um animal por ele inventado a partir de suas experiências com o estranho. Certa
vez comprei um tabloide, não me lembro qual, e esse trabalho vinha como
encarte. Está em minha sala. Trata-se da figura de uma cabeça de animal em
desenho limpo no formato de fotografia para eliminar o sentido da invenção
artística. Essa enganosa fotografia parece colada sobre desenhos rupestres. Se
num tamanho A4 já assusta, imagine se ela ocupasse alguns metros de uma parede
como habitualmente os trabalhos de Siron Franco ocupam.
Estive com
meus filhos ainda crianças numa montagem de Siron Franco na Caixa Econômica de
Brasília. Na mesma Caixa de Brasília, assisti a uma palestra por ele proferida
com espontaneidade e resistência. Ali nos cumprimentamos, mas encontro fortuito
insuficiente para aprofundar qualquer discussão ou relação. Na exposição,
estavam expostos grandes tanques de petróleo num ambiente escuro. Cubos menores
também com petróleo formavam uma espécie de labirinto. Os meus filhos
retornaram para casa cheios de manchas nas roupas, mas plenos de expressões que
tentavam compreender a montagem. Não sei se era mais assustador aqueles
recipientes com centenas de litros de petróleo ou a sala, em outra exposição,
com centenas de litros de tinta, de Anish Kapoor. É o destino de querermos o
acúmulo. Mas o acúmulo não torna ninguém mais sábio nem rico, nem é mais belo
do que a beleza do que está no mínimo.
Talvez a maior
exposição do Siron que eu tenha visitado seja a que foi montada na Vila
Cultural Cora Coralina, em Goiânia. Tive o privilégio de visitá-la em companhia
da poeta Maria Abadia Silva, que conviveu com o pintor, é sua amiga e conhece a
sua família, o ateliê e a obra. Nem essa convivência acalma a poeta da presença
intimidadora da obra.
A exposição foi
dividida em três espaços. O primeiro dedicado à ditadura, onde o corpo humano fica
exposto à violência. Lembrou-me as minhas leituras sobre a inquisição. O quadro
sobre a Guernica repressiva corrói-nos a alma, o ânus, a genitália. Há rostos
apagados, recortados, rostos que não enxergam, indiferentes, omissos, outros
que apresentam visões duplas ou deturpadas ou olha. Há cortes de carne humana
em ágapes de repressores. Não precisamos da inteligência artificial para nos
amedrontarmos, pois quem precisa de extensão para ver é aquele que não sabe e
nem é confiante. Qual a nossa vesguice diante da violência repressiva e dos
canais que inutilizam a nossa presença e sabedoria? Se oportunistas políticos ― querendo ampliar a própria imagem ― comparecerem prometendo mãos pesadas, Siron Franco
recortará as cabeças que orientam essas mãos de carrasco e as denunciará em seu
trabalho.
O segundo espaço
é dedicado ao acidente do césio, que levou Goiânia ao medo e à imprensa
internacional. Foi uma experiência nefasta de descaso da administração para
lidar com material radioativo. Siron Franco expõe a roupa esvaziada da primeira
vítima. Esvaziada, pois quem desaparece não ocupa mais espaço. Mas somos todos
vítimas, pois todos estamos expostos e envergonhados numa realidade deformada.
Quando imaginamos espaços civilizados não podemos ver corpos venezuelanos
apodrecendo na calçada, o corpo de Lázaro sendo jogado como um saco num
camburão ou valas sendo abertas para cadáveres da pandemia serem atirados em
sepultamentos coletivos.
Para
atravessarmos para o terreno das madonas, deparamo-nos com um vasto mar, com
seu azul acolhedor que ladeia um mínimo barco, quase invisível ― é de imigrantes, que, certamente, irão morrer na
praia. Nem tudo que vemos envolve áurea turística, pode muito bem ser uma fuga
com destino incerto e de possíveis fatalidades. E está lá, em outra obra ― essa menor ―, a criança de borco na areia. Todos os visitantes
passam, e, após a passagem, possivelmente, ninguém vá chorar ou sentir
repugnância. Talvez o visitante até admire o barquinho como nódoa de beleza na
imensidão do céu e do mar. O céu e o mar sempre são imaginados para acolher com
beleza e não para acolher fatalidades. Mas há fatalidades, sobretudo a do
barquinho da amplidão da tela de Siron Franco, que não são ocasionadas pela
natureza.
Chegamos ao
último espaço, com as madonas. Algumas severas. Há erotismo. Mas tudo se dilui,
e se acalma em cores estreladas em fundos monocromáticos. Vamos nos apaziguar
na presença dos últimos trabalhos.
Voltamos ao
exterior e vemos numa estrutura de Siron Franco que braços pretos e brancos, enlaçados
como formigas que se apoiam umas nas obras para formar uma corrente levadiça,
se contorcem uns dentro dos outros para subirem em redenção rumo aos céus, pois
não podemos ficar eternamente num universo de diluição dos corpos pela
violência, seja ela de má-fé administrativa, por totalitarismos ou pelos mais
diversos colonialismos. Precisamos de alcançar ascensão para escape da
degradação civilizatória.
Siron Franco é
nosso ser sagrado. Não se detém aos aspectos físicos do homem de sua região. As
suas figurações são frias, quase como recortes de madeira, sem identificação
regional das imagens. Não lhe interessa descansar numa paisagem, usufruir de um
pub chic, mas apreender e expressar, incansável e ininterruptamente, em
leituras duras. Mas de beleza eterna. Siron cria nosso espelho enquanto seres
susceptíveis de naufragar. Mas um país que tem quem nos obriga a nos
enxergarmos é passível de redenção.
A minha
primeira experiência com a arte foram os bustos de cerâmica produzidos por Manoel
Natal de Siqueira postos a secar na calçada em frente à sua casa, que, por
coincidência, também era a minha rua, em Silvânia. Bustos esses descolados de
qualquer corpo e que viriam a surgir na arte de Siron aos milhares. Dos bustos
da calçada só me lembro do que retratava Pelé, que se encontrava no auge da
carreira. Em Siron Franco, os bustos manifestam-se sem identidade. Não se
assemelham a Pelé, ao Vivinho ou ao Pe. Januário.
Não sou um
expert em arte. Mal compreendo alguns rudimentos da literatura. Por escassez de
dinheiro e também por não me preocupar e me incomodar nas viagens, nunca estive
em museus europeus ou no Moma de Nova Yorque. No entanto, sempre que pude e
posso, busco conhecer museus e exposições. Visitei o Museu de Fernando Botero,
na Colômbia, e de Oswaldo Guayasamín, no Equador. Lamento não ter ido conhecer
obras de Frida Khalo quando estive no México. Procurei visitar as obras
de Portinari em Lençóis (SP) quando visitei aquela cidade. Sempre que incluem
uma peça de Maria Martins nalguma exposição a mim acessível não deixo de
comparecer para apreciá-la.
Por
incompetência, não me atreverei a fazer associações da obra de Siron com a
tradição da arte mundial. Todos esses artistas nascem do milagre de estar
presente numa realidade de estranheza. Guayasamín estende as mãos numa
súplica eterna, convidando-nos a estarmos próximos: oferece-te. O
chamado de Botero: amplia-te e desnuda-te para ocupação do que te pertence.
Siron Franco, oferecendo a ascensão, mantém aceso o alerta: cuida-te, senão
serás recortado e parte de te será ofertada numa ceia nefasta.
16 de março de 2026
Oscar 2026
24 de fevereiro de 2026
A importância da Arte para a liberdade
Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?
Uma pedra que encontramos na
natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão,
ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não
tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.
Para ser uma obra de arte, o objeto
tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um
significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos
que existem no mundo? Temos de criar outros?
Devemos estar atentos a essas
questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os
próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de
perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa
casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se
melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais
elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se
deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de
nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que
estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as
roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e
imaginamos. A Arte é o resultado da
execução daquilo que imaginamos.
Octávio Paz, poeta mexicano que
ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e
a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões
podem ser aplicadas à Arte.
A poesia é
conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a
atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um
método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos
eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra
natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo
com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania,
epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação,
condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes.
Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e
o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito.
Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto
do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência
às regras; criação de outras(1).
Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui
identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens,
nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos,
contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de
existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é
ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet –
para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo
precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos
no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não
correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos
identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)
Com a arte, o homem
aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua
presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria
existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não
tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é
consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo.
Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele
ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas.
Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a
casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas
filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por
isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não
precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro
compra até as coisas que não precisamos.
Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros
e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar,
podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos
contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da
sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser
encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem
pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por
nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão,
mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter
consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo.
Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a
razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos
procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.
Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos
aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos
entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros
pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte,
identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização,
descobrimo-nos iguais.
A Arte é a melhor forma que o homem
encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um
animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar
ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos.
Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem
fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por
criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas,
sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona,
alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da
Arte.
Assim, vamos tocando o que chamamos
de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos
viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das
criações humanas.
Inventemos para nossa própria
alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula
a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo.
No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir
daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não
sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria
vida.
A Arte e a experiência de viver se
complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço
melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me
envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa
desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo.
Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não
desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.
Uma pessoa feliz, que ouve uma
música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar
dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de
arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa
troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a
Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom
ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as
pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda
a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e
belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.
Não deixemos de conhecer, de
perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas
entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser
extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.
O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se
faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer
e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho,
desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou
pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre
para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer
no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o
outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como
pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a
que nos oprime.
Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes,
integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao
desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos
ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas
condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer
que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e
escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar
pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam
inibir a percepção da liberdade.
Ampliamos nossa percepção através da
Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos
a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber,
criamos a nossa liberdade.
A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder
trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por
não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a
sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não
prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que
todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do
outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz
e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!
6 de janeiro de 2026
Uma leitura de Robert Walser
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