27 de junho de 2026

O trabalho de Siron Franco



Como não vivo e não vivi em Goiânia, não convivi com a obra de Siron Franco nem com o pintor enquanto pessoa física e ser social. Não é só como contemporâneo e conterrâneo que admiro Siron Franco, mas pelo espasmo de exatidão crítica ao estranho que exala de cada um de seus trabalhos.

Tenho dois livros sobre sua obra e uma reprodução de um trabalho que retrata a cabeça de um animal por ele inventado a partir de suas experiências com o estranho. Certa vez comprei um tabloide, não me lembro qual, e esse trabalho vinha como encarte. Está em minha sala. Trata-se da figura de uma cabeça de animal em desenho limpo no formato de fotografia para eliminar o sentido da invenção artística. Essa enganosa fotografia parece colada sobre desenhos rupestres. Se num tamanho A4 já assusta, imagine se ela ocupasse alguns metros de uma parede como habitualmente os trabalhos de Siron Franco ocupam.  

Estive com meus filhos ainda crianças numa montagem de Siron Franco na Caixa Econômica de Brasília. Na mesma Caixa de Brasília, assisti a uma palestra por ele proferida com espontaneidade e resistência. Ali nos cumprimentamos, mas encontro fortuito insuficiente para aprofundar qualquer discussão ou relação. Na exposição, estavam expostos grandes tanques de petróleo num ambiente escuro. Cubos menores também com petróleo formavam uma espécie de labirinto. Os meus filhos retornaram para casa cheios de manchas nas roupas, mas plenos de expressões que tentavam compreender a montagem. Não sei se era mais assustador aqueles recipientes com centenas de litros de petróleo ou a sala, em outra exposição, com centenas de litros de tinta, de Anish Kapoor. É o destino de querermos o acúmulo. Mas o acúmulo não torna ninguém mais sábio nem rico, nem é mais belo do que a beleza do que está no mínimo.

Talvez a maior exposição do Siron que eu tenha visitado seja a que foi montada na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia. Tive o privilégio de visitá-la em companhia da poeta Maria Abadia Silva, que conviveu com o pintor, é sua amiga e conhece a sua família, o ateliê e a obra. Nem essa convivência acalma a poeta da presença intimidadora da obra.

A exposição foi dividida em três espaços. O primeiro dedicado à ditadura, onde o corpo humano fica exposto à violência. Lembrou-me as minhas leituras sobre a inquisição. O quadro sobre a Guernica repressiva corrói-nos a alma, o ânus, a genitália. Há rostos apagados, recortados, rostos que não enxergam, indiferentes, omissos, outros que apresentam visões duplas ou deturpadas ou olha. Há cortes de carne humana em ágapes de repressores. Não precisamos da inteligência artificial para nos amedrontarmos, pois quem precisa de extensão para ver é aquele que não sabe e nem é confiante. Qual a nossa vesguice diante da violência repressiva e dos canais que inutilizam a nossa presença e sabedoria? Se oportunistas políticos querendo ampliar a própria imagem comparecerem prometendo mãos pesadas, Siron Franco recortará as cabeças que orientam essas mãos de carrasco e as denunciará em seu trabalho.

O segundo espaço é dedicado ao acidente do césio, que levou Goiânia ao medo e à imprensa internacional. Foi uma experiência nefasta de descaso da administração para lidar com material radioativo. Siron Franco expõe a roupa esvaziada da primeira vítima. Esvaziada, pois quem desaparece não ocupa mais espaço. Mas somos todos vítimas, pois todos estamos expostos e envergonhados numa realidade deformada. Quando imaginamos espaços civilizados não podemos ver corpos venezuelanos apodrecendo na calçada, o corpo de Lázaro sendo jogado como um saco num camburão ou valas sendo abertas para cadáveres da pandemia serem atirados em sepultamentos coletivos.

Para atravessarmos para o terreno das madonas, deparamo-nos com um vasto mar, com seu azul acolhedor que ladeia um mínimo barco, quase invisível é de imigrantes, que, certamente, irão morrer na praia. Nem tudo que vemos envolve áurea turística, pode muito bem ser uma fuga com destino incerto e de possíveis fatalidades. E está lá, em outra obra essa menor , a criança de borco na areia. Todos os visitantes passam, e, após a passagem, possivelmente, ninguém vá chorar ou sentir repugnância. Talvez o visitante até admire o barquinho como nódoa de beleza na imensidão do céu e do mar. O céu e o mar sempre são imaginados para acolher com beleza e não para acolher fatalidades. Mas há fatalidades, sobretudo a do barquinho da amplidão da tela de Siron Franco, que não são ocasionadas pela natureza.

Chegamos ao último espaço, com as madonas. Algumas severas. Há erotismo. Mas tudo se dilui, e se acalma em cores estreladas em fundos monocromáticos. Vamos nos apaziguar na presença dos últimos trabalhos.

Voltamos ao exterior e vemos numa estrutura de Siron Franco que braços pretos e brancos, enlaçados como formigas que se apoiam umas nas obras para formar uma corrente levadiça, se contorcem uns dentro dos outros para subirem em redenção rumo aos céus, pois não podemos ficar eternamente num universo de diluição dos corpos pela violência, seja ela de má-fé administrativa, por totalitarismos ou pelos mais diversos colonialismos. Precisamos de alcançar ascensão para escape da degradação civilizatória.

Siron Franco é nosso ser sagrado. Não se detém aos aspectos físicos do homem de sua região. As suas figurações são frias, quase como recortes de madeira, sem identificação regional das imagens. Não lhe interessa descansar numa paisagem, usufruir de um pub chic, mas apreender e expressar, incansável e ininterruptamente, em leituras duras. Mas de beleza eterna. Siron cria nosso espelho enquanto seres susceptíveis de naufragar. Mas um país que tem quem nos obriga a nos enxergarmos é passível de redenção.

A minha primeira experiência com a arte foram os bustos de cerâmica produzidos por Manoel Natal de Siqueira postos a secar na calçada em frente à sua casa, que, por coincidência, também era a minha rua, em Silvânia. Bustos esses descolados de qualquer corpo e que viriam a surgir na arte de Siron aos milhares. Dos bustos da calçada só me lembro do que retratava Pelé, que se encontrava no auge da carreira. Em Siron Franco, os bustos manifestam-se sem identidade. Não se assemelham a Pelé, ao Vivinho ou ao Pe. Januário.

Não sou um expert em arte. Mal compreendo alguns rudimentos da literatura. Por escassez de dinheiro e também por não me preocupar e me incomodar nas viagens, nunca estive em museus europeus ou no Moma de Nova Yorque. No entanto, sempre que pude e posso, busco conhecer museus e exposições. Visitei o Museu de Fernando Botero, na Colômbia, e de Oswaldo Guayasamín, no Equador. Lamento não ter ido conhecer obras de Frida Khalo quando estive no México. Procurei visitar as obras de Portinari em Lençóis (SP) quando visitei aquela cidade. Sempre que incluem uma peça de Maria Martins nalguma exposição a mim acessível não deixo de comparecer para apreciá-la.

Por incompetência, não me atreverei a fazer associações da obra de Siron com a tradição da arte mundial. Todos esses artistas nascem do milagre de estar presente numa realidade de estranheza. Guayasamín estende as mãos numa súplica eterna, convidando-nos a estarmos próximos: oferece-te. O chamado de Botero: amplia-te e desnuda-te para ocupação do que te pertence. Siron Franco, oferecendo a ascensão, mantém aceso o alerta: cuida-te, senão serás recortado e parte de te será ofertada numa ceia nefasta.


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Salomão Sousa sente-se honrado com a visita e o comentário

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