Como não vivo e não vivi em Goiânia, não convivi com a obra de Siron Franco nem com o pintor enquanto pessoa física e ser social.. Não é só como contemporâneo e conterrâneo que admiro Siron Franco, mas pelo espasmo de exatidão crítica ao estranho que exala de cada um de seus trabalhos.
Tenho dois livros sobre sua obra e uma reprodução de um trabalho que retrata a cabeça de um animal por ele inventado com suas experiências com o estranho. Certa vez comprei um tabloide, não me lembro qual, e esse trabalho vinha como encarte. Está em minha sala.
Estive com meus filhos ainda crianças numa montagem de Siron Franco na Caixa Econômica de Brasília. Eram grandes tanques de petróleo num ambiente escuro. Cubos menores também com petróleo formavam um espécie de labirinto. Os meus filhos retornaram para casa cheios de manchas nas roupas, mas plenos de expressões que tentavam compreender a montagem. Não sei se é mais assustador aqueles recipientes com centenas de litros de petróleo ou a sala, em outra exposição, com centenas de litros de tinta, de Kapoor. É o destino de querermos o acúmulo. Mas o acúmulo não torna ninguém mais sábio nem rico, nem é mais belo do que a beleza do que está no mínimo.
Na mesma Caixa de Brasília, assisti a uma palestra por ele proferida com espontaneidade e resistência.
Talvez a maior exposição do Síron que eu tenha visitado seja a que está na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, ainda mais em companhia da poeta Maria Abadia Silva , que conviveu com ele, é sua amiga e conhece a sua família, o ateliê e a obra.
A exposição está dividida em três espaços. O primeiro dedicado à ditadura, onde o corpo humano está exposto à violência. Lembrou-me as minhas leituras sobre a inquisição. O quadro sobre a Guernica repressiva corroi-nos a alma, o ânus, a genitália. Há rostos apagados, rostos que não enxergam, indiferentes, omissos, outros que apresentam visões duplas ou deturpadas ou olha. Com extensões, talvez já IA, pois quem precisa de extensãopara ver é aquele que não sabe e nem é confiante. Qual a nossa vesguice diante da violência repressiva e dos canais que inutilizam a nossa presença e sabedoria?
O segundo espaco é dedicado ao acidente do césio, que levou Goiânia à ao medo e à imprensa internacional. Foi uma experiência nefasta de descaso da administração para lidar com material radioativo. Siron Franco expõe a roupa esvaziada da primeira vítima. Esbaziada, pois quem desaparece não ocupa mais espaço. Mas somos todos vítimas, se todos estamos expostos e envergonhados.
Para atravessarmos para o terreno das madonas, deparamo-nos com um vasto mar, com seu azul acolhedor, mas o mínimo barco, quase invisível, é de imigrantes, que poderão morrer na praia. Nem tudo que vemos é turismo, pode muito bem ser uma fuga. E está lá, em outra obra, a criança de borco na areia. Todos os visitantes passam e possivelmente ninguém chore. Talvez o visutante até admire o barquinha como nódoa de beleza na imensidão do céu e do mar, que tudo acolhem.
Chegamos ao último espaço, com as madonas. Algumas severas. Há erotismo. Mas tudo se dilui, e se acalma em cores estreladas. Vamos nos apaziguar.
Voltamos ao exterior e vemos que mãos entrelaçadas em diversas cores, como formigas que se apoiam umas nas obras para formar uma corrente levadiça, se entrelaçam para subirem em redenção rumo aos céus, pois não podemos ficar eternamente num universo de diluição dos corpos pela violência, seja ela de ma-fé administrativa, por totalitarismos ou os mais diversos colonialismos.
Siron Franco é nosso ser sagrado. Não lhe interessa descansar numa paisagem, usufruir de um pub chic, mas apreender e expressar, incansável e ininterruptamente, em leituras duras. Mas de beleza eterna. Siron cria nosso espelho enquanto seres suceptíveis de naufragar. Mas um país que tem quem nos obriga a nos enxergarmos, é passível de solução.
