6 de novembro de 2026

O livreiro Boanerges

Envelhecemos e as lembranças afloram. Com elas à flor da pele, aflora a necessidade de expressá-las. Queremos atenção daqueles que estão na nossa proximidade para nos ouvir. Com as lembranças, esquecemos de ouvir.
Dentre os muitos livreiros que convivo ao longo desse anos em Brasília, me lembro do Boanerges. Eu saía de minha casa, quando ainda residia na Ceilândia, e ia até à Asa Norte para visitá-lo em sua livraria. Era um amigo. Não só meu amigo, mas desses amigos que amam todos que amam os livros.
Só me lembro. Não tenho a sua história pessoal nem o registro de nossos diálogos. Lembro que era quase silencioso, leve. Talvez se alimentasse só da paixão pelos livros. A livraria era pequena, mas conseguia raridades numa época em que as raridades não eram comercializadas a preços abusivos para colecionadores. Mas, naquele tempo, as primeiras edições dos grandes autores brasileiros ainda não eram raridades, mas novidades.
Eu gostaria de ter muitas histórias sobre ele para perturbar muitos interlocutores sobre a importância do trabalho que ele fez pela literatura de Brasília. Não só pela literatura, mas pela formação de leitores. Quantos livros circularam por suas mãos?
Ele escrevia também, mas me lembro apenas do livreiro. Me lembro de seu corpo frágil, de sua voz débil. Mas a cultura não exige grito ou bíceps volumosos. A leitura é o fisiculturismo da mente.
Ajuda-me a manter a memória de Boanerges, o livreiro. Ele se registrou na história da cultura de Brasília.
Eu e o Boanerges poderíamos morar em Macondo. Lá todos tem o mesmo nome. Não para fazer confusão, mas para demonstrar que todos nós somos a mesma pessoa. Se um deseja guerra, todos guerreiam. Se um busca o Amor, todos amam. Se um deseja Paz, todos vivem em Paz. 

7 de outubro de 2026

Experiência e preocupação políticas

O tempo ficou curto. Será que ainda dá tempo de firmamos uma consciência sobre a ação política que precisamos? A compreensão da política exige longo percurso para ser formada.

A filosofia nos alerta que toda ação humana tem um componente de teor político. To-da tomada de decisão ― seja correta ou aventureira ― é política. E toda decisão política afeta a todos e não só quem a negociou. Não podemos tomar decisões políticas com irresponsa-bilidade, pois não podemos esquecer que seus efeitos afetarão a todos.

Fico imaginando onde começou a minha interação com a política. A primeira ação política relacionada à minha vida, possivelmente, tenha acontecido no meu nascimento. Duas mulheres – minha mãe e minha madrinha Mariinha – sozinhas, sem domínio dos cuidados com o parto, cuidaram da minha chegada ao mundo.

Temos de compreender que essa inauguração de minha presença é um fato político. A ausência da política também é política. Quando o Estado não comparecia à minha região com ações administrativas para inclusão da população à nacionalidade, era um ato político de banimento de parte da sociedade. A uma parte da sociedade ficava impedido o acesso à ri-queza do país. Ali no entroncamento dos rios Calvo e dos Bois, no município de Silvânia, até a minha saída da localidade, nunca chegou um centavo de benefício para a população. A ad-ministração nunca tinha feito uma estrada, um mata-burro, uma escola, uma agulha de inje-ção sequer.

Os donos de terras, que eram os mandatários políticos, moravam nas cidades, geral-mente na capital, e compareciam às suas fazendas só para usufruir do resultado do trabalho dos agregados. Os agregados goianos viviam em total regime de servidão, pois não tinham acesso a nenhum direito trabalhista. Os homens tocavam as roças de meia e as mulheres cuidavam dos serviços da casa do senhor da fazenda. Tudo isso, em troca do direito de ter um rancho precaríssimo na propriedade. Tocavam uma roça no terreno do latifundiário. Ás vezes, o latifundiário chegava a recolher toda a produção depois da colheira, deixando o trabalhador viver à míngua. A esse trabalhador sempre era solicitado serviços na fazenda. Er-guer uma cerca, cortar lenha, fazer roçados, abrir um rego. Quantas vezes compareci com meu pai a esses serviços. O pagamento era um litro de sal ou de querosene. Essa era a ação política: a exploração de meu pai e o impedimento de seus filhos de ter acesso à saúde e à escolarização.

Essa exploração teve continuidade quando nos mudamos para a cidade. Os políticos locais – que eram os mesmos mandatários de nossa região ― eram os candidatos do partido político da Ditadura. Meu pai era convocado para ajudar no comitê partidário. Voltava à fa-zenda, ajudava a fazer tachadas de doce de leite, a matar bois para o churrasco, e ainda ajudava no transporte daquelas dezenas de latas de querosene de vinte litros cheias de doce de leite para manter no cabresto o eleitorado da cidade. As crianças ficavam brincando no meio daquela festa dos coronéis políticos, com churrasco e doce à vontade. Era o mais terrível engodo ― compra de voto e preparação dos jovens para continuarem submetidos ao mando sem acesso a direitos. Cheguei, à época, a visitar o comitê da Oposição, que ficava às moscas. A construção do endeusamento dos políticos governistas era um processo de impedir a construção de conhecimento dos direitos individuais. Era suficiente, para os eleitores, o di-reito a uma festa na época da eleição. Importante lembrar que a maioria era analfabeta sem direito ao voto, mas amarrados ao processo político por vassalagem.

Apesar de ter trabalhado mais de quarenta anos com a política dentro do Congresso Nacional, nunca tive um engajamento com o processo. Foram anos acompanhando ativida-des de CPIs, da Constituinte, dos estatutos dos direitos das crianças e dos idosos. A Demo-cracia criava pernas.

Foram anos de leitura para compreender os regimes totalitários. Quanto desespero senti em minha vida ao ler os livros sobre o nazismo e o stalinismo. O horror praticado pelos Doi-Codi da Ditadura. A dúvida se ficava com a esquerda ou se me equilibrava com o centro. O poeta José Godoy Garcia me confundia com a sua história participativa nos movimentos comunistas do Centro-Oeste e com seus elogios a Stálin. A estupefação com as declarações feitas por um secretário-executivo de ministério, que tinha sofrido nas mãos de torturado-res. Declarou que na Ditadura havia uma cela carcerária no Ministério da Defesa, que ficava próxima ao gabinete do ministro da época da Ditadura. A estupefação quando na campanha política há promessa de castração humana.

Passei por Karl Marx, passei por Rousseau. Esses me mostraram que somos revoluci-onários e precisamos de participar e nos rebelarmos, nos revoltarmos. Cheguei a ficar assustado com as leituras de Octávio Paz e Albert Camus, que se mostraram descrentes com a política, pois o homem se acomodou e não faz mais a revolução e se satisfaz em ser apenas um revoltado. O revoltado grita na solidão, sem ir para a rua, não faz enfrentamento.

Mas os pensadores foram mudando e eu com eles. Edgar Morim humanizou a esquer-da, colocou a necessidade da esperança, do amor ao outro. Paulo Freire me mostrou a neces-sidade da solidariedade, da formação das crianças. Darcy Ribeiro e Lévi-Strauss me mostra-ram aqueles que respeitam a natureza, a cultura indígena. Há diversidade e essa precisa ser acolhida e tratada conforme a diversidade exige ― com diversidade. Talvez esse amansa-mento tenha sido desastroso para a política da extrema direita. O homem passou a achar que poderia ficar quieto, pois a própria política resolveria por si só os problemas do mundo. Mas a política exige vigilância. Quando não há participação da sociedade, ela se corrompe e passa a ser dominada por castas, elite – seja lá que nome damos na época.

Cheguei a Karl Popper. Foi o susto total. Precisamos de criar em nós a exigência de conhecer. Não podemos acreditar sem questionar. Passei a compreender o meu passado. Só acreditava naquilo que outros me diziam. Ocorre que para acreditar eu preciso conhecer e saber. Se não sei e se não conheço, continuo absorvendo o que os outros desejam que eu acredite.

Quando não sabemos, a força política nos transforma em seus soldados. Passamos a empunhar a arma para defender o interesse do mandatário e não pra defender os nossos in-teresses e necessidades. Esse é o grande problema da política atual. A política transformou os indivíduos em seus soldados e não em cidadãos de uma Pátria. O cidadão ama e defende o seu País. O soldado de uma elite política não se preocupa com a soberania de sua Pátria, se ela será entregue a um País estrangeiro.

O cidadão defende o seu entorno. Cuida do seu espaço de vivência e convivência. O soldado fica na esquina dizendo quem pode ou não passar por sua calçada. O soldado fica à espreita defendendo o poder só para o seu mandatário. Para o soldado, só o mandatário pode transitar livremente. O cidadão trabalha pela inclusão, pela aplicação da lei, pela punição do corrupto. O cidadão não estupra, não castra. Ao soldado não interessa se seu mandatário se apossa do patrimônio. O soldado acha que vai receber parcela da posse daquilo que foi rou-bado. O cidadão compreende que o conjunto de riquezas do país é de todos. O cidadão com-preende ― e luta por isso: há o poder, mas o cidadão também compõe o poder, pois o poder é a sua representação.

1
Agora é uma política sem idealismo, sem futuro. Com raiva do velho. Por isso, quan-do saio à rua, caem sobre mim, o velho, olhares de pessoas que querem me agredir; se pos-sível, me eliminar. Mas as leis ainda funcionam e não podem me eliminar. E quando as leis forem banidas? Assim são educados os soldados totalitários, fascistas, nazistas ― eliminar o que não é do agrado.

Vou continuar escrevendo minha poesia, tendo as minhas convicções! Vou continuar com a minha consciência, com a minha bandeira, com a minha Pátria! Esse é meu alerta! Fico com pena das crianças, pois, se tudo der errado, caberão a elas fazer a limpeza no futu-ro.

2
Muita gente enganada aí achando que já estão abrindo vagas de emprego, que será atendida nos hospitais, que as vagas nas creches estarão abertas aos milhares. Muita gente achando que os filhos dos estupros crescerão felizes ao lado de mães felizes. As mulheres vão continuar achando que merecem ser estupradas. Que os filhos das comunidades precisam ser bandidos, pois a política precisa matar para fazer campanha para eleições.

Acabaram com as entidades dos trabalhadores para ter o voto deles, para explorar o trabalho sem pagamento de direitos.

A geração atual não passou por ditadura, não conhece a história dos regimes totalitários e os totalitários de plantão não querem que o indivíduo eleitor tenha essa compreensão. O candidato totalitário, filho da ditadura, fala em democracia, mas com direitos só para ele, sua família e correligionários.

Quando são eleitos os envolvidos com o Master, a compreensão da política está podre.

Há muito que progredir. Só o corpo a corpo vai ensinar o brasileiro a se compreender politicamente. A mentira da Internet vai continuar matando a nossa liberdade, a nossa ca-pacidade de nos compreendermos e de desejarmos espaços públicos seguros e funcionais.

Não nos omitamos, não apostemos na confusão. Participemos com responsabilidade do processo político. Política não é aventura. A política pode oferecer fome e até cortar o nosso pescoço

3
Votamos inclusive para o futuro.

Não quero um país com milico no poder, ditando o que pode e o que não pode. Não votamos para impedir o outro de ser gay, não poder frequentar religiões africanas.

Votamos para todos nós sermos livres, para sermos o que quisermos ser, para sermos o que somos, menos roubar e matar.

Não quero milicos nas escolas, ditando qual livro devo ler e quais temas posso escrever.

Quero votar para retomar o Congresso e o STF. Estão zoneando o Supremo pra acabar com ele e com a Lei.

A lei de Deus não acaba com a corrupção.

Acaba com a corrupção é um STF forte e livre de intervenção política. Num governo de milicos, TOTALITÁRIO, tipo Trump, são descartadas as leis, os poderes, as eleições, e podem enforcar ao bel-prazer do mandatário supremo.

Querem roubar, dar golpe e ficar sem um poder para julgá-los.

Todo mundo está sabendo que se trata de gosma sarnenta e está engolindo. Estamos ralando no golpe e ninguém toma tento.

Muito ruim ficar numa querela religiosa, que não tem a ver com política, a não ser uma política fascista que quer controlar a vida do cidadão.

O fascista quer que todo cidadão seja o seu retrato: limitado, idiota. Política é para cuidar do ambiente administrativo do país.

A política não deve enfiar o bedelho na vida privada do cidadão.

Dentro de sua casa decide o cidadão. Se vai ter imagem, se vai ter macumba, se vai ter três /quatro parceiros. Se vai ter cachorro ou papagaio.

Só o fascista quer controlar a vida do cidadão. Papagaios, entendam.

Chega de Geisel, Figueiredo, Hitler, Mussolini, Stálin, Trump.

Papagaios, como pode ter tanto pequenos ditadores!!!! São os pequenos ditadores que criam o grande ditador.

25 de setembro de 2026

Folder do lançamento do livro



A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos.


Continuo fiel à poesia em A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, que nasce acolhido por respeitados representantes da poesia e da crítica, que saudaram o lançamento do livro em espaços literários de grande respeito.


SÉRGIO DE CASTRO PINTO, poeta-mor da Paraíba, no jornal A União de João Pessoa:

Ora, mas para dizer o indizível, o poeta deve encontrar uma nova maneira de dizer. E é justamente isso o que Salomão faz. Tanto que o considero um caso à parte na lírica brasileira, não apenas de hoje, mas também de ontem. Com efeito, difícil encontrar na sua poesia as pegadas de um outro poeta senão as dele mesmo – pegadas que ele as vem firmando desde o início, espécie de sinete de um individualismo e de uma inventividade que se afirmam a cada livro.


HILDEBERTO BARBOSA FILHO, um dos mais respeitados colunistas literários em atividade, também no jornal A União da Paraíba:

Poesia tocada pelo sangue das palavras e pelo vigor da atitude. Quem conhece a trajetória do autor, poeta e ensaísta, sabe do elemento essencial que o move no ato de pensar e de criar. Salomão não doura a pílula, mas também não se compraz com a falácia do panfleto.


HUGO PONTES, baluarte de resistência da poesia na fronteira mineira, no Jornal da Cidade, de Poços de Caldas:

A selva escura dos cristais perdidos deve ser lida como um livro de travessia: uma obra em que a poesia atua simultaneamente como memória, resistência e esperança. Salomão Sousa reafirma sua posição entre os poetas brasileiros contemporâneos que compreendem a literatura não apenas como exercício estético, mas como forma de estar no mundo.

ADELTO GONÇALVES, estudioso da história e da cultura brasileira, tem saudado todos os meus últimos lançamentos em grandes espaços virtuais de reflexo da literatura. Sobre A selva escura dos cristais perdidos:

as metáforas acabam assumindo um fluir, um caminho, um ato de navegar e dar continuidade, mas resistindo, precisando de portas e fronteiras livres. O cotidiano está por debaixo das palavras, sem grande angústia, mas é um convite para sermos participativos, sem omissão. O mundo se move conforme as nossas ações.

Ainda de luto por nosso filho Vítor Andrade, luto esse que retardou e inibiu alguns de nossos projetos, retomo a latência com a Poesia. Manter-me fiel à poesia também é uma maneira de me manter fiel à sua memória, à família, aos amigos, à sociedade, à necessidade de participação. A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos.

Com a publicação do livro A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, meu 19º livro, procuro estar próximo da vida cotidiana, resistir e convocar a lucidez. Nesse livro, as metáforas acabaram assumindo um fluir, de caminho, navegar, continuidade, mas resistindo, precisando de portas e fronteiras livres. O cotidiano está por debaixo das palavras, sem grande angústia, mas convite a sermos participativos, sem omissão. O mundo se move em conformidade com as nossas ações. Não podemos destruir nosso ambiente nem nossas relações. Não podemos subir no telhado para gritar impropérios contra os vizinhos, os familiares e os animais. Não podemos subir no púlpito para defesa de ideias envelhecidas e germinadoras de opressão e repressão. Temos de nos libertar do pragmatismo escravizante.

Nunca precisamos tanto da Arte como nesse tempo de indivíduos esvaziados de conhecimentos humanistas, no entanto, convictos de que são os detentores da ordem nem que seja com o dedo no gatilho! Quando queremos inibir o jornalismo, a poesia, o cinema – estamos inibindo a nossa própria possibilidade de usar a palavra. O pensamento é perigoso para quem quer dominar pela força.

Tudo tem significado político e social. Não há como escrever poesia, assistir a um filme, ler filosofia, dizer uma oração, sem que qualquer um desses atos não seja um evento social ou político. Todo ato que nos dá satisfação e bem estar é político, é social. São as ações que nos mantém juntos e permitem que progridamos juntos. O nefasto, que deseja nos dominar, faz de tudo para nos isolar. O isolamento nos enfraquece. A informação e a arte promovem o nosso encontro. O encontro nos fortalece.

Leio e faço e divulgo poesia para que sigamos juntos. Sozinho não significo bulhufas.

Os cristais estão perdidos, a noite é escura, mas seguimos para iluminar e encontrar.


23 de setembro de 2026

Pietro Costa

Pietro Costa fez no Facebook uma leitura primorosa do meu A selva escura dos critais perdidos. Precisamos que os escritores se manifestem mais sobre a produção literária de seu tempo. É na manifestação que nos compreendemos, aprendemos e exigimos de nós mesmos presença. E o Pietro é um dos mais presentes e atuantes no ambiente da literatura brasiliense.

“Não procuro nos livros uma confirmação de minha própria maneira de escrever. Seria tedioso encontrar em toda estante apenas espelhos. Prefiro as janelas, as frestas, os alçapões, eventualmente até as paredes contra as quais o leitor precisa esbarrar para descobrir que há outras arquiteturas possíveis para a linguagem.

‘Possivelmente, Salomão Sousa se inscreve no rol de escritores para os quais a palavra soa desconfiar de sua primeira aparência. Sua poética requer demora. O verso não se oferece como objeto decorativo; provoca, desloca, solicita releitura. Há uma consciência aguda da linguagem e de suas insuficiências, como se escrever fosse também perscrutar aquilo que escapa enquanto tentamos nomeá-lo.

‘Prestigiar seu lançamento acresceu outra camada à leitura. Conhecer o escritor é uma experiência; reencontrá-lo após, dentro da página, já se trata de uma outra interação. Entre ambas, viceja uma zona instigante na qual pessoa e obra se aproximam sem jamais coincidirem por inteiro.”





25 de julho de 2026

Novamente Anitta

Duas atividades movem a minha vida: ver a floração da natureza e a proximidade da arte.  Uma volta na quadra sempre confirma que a natureza não nega florescer. E confirmar que ainda é possível ouvir algum artista que insiste em descobrir nuances e participar de seu tempo. Por mais que um artista não queira ser participativo, o seu trabalho retrata o seu tempo. Se o trabalho é um fracasso, a sociedade de seu tempo esta exigindo que a arte seja um retrato desse fracasso. E há os artistas que renegam o fracasso, que chama os valores de volta. Anitta é um exemplo disso em seu novo disco- Equilibrivm II. Composições novas e hibridizacão de clássicos antigos. Insere a música na tradição. O artista não pode ter medo e Anita encara. Um disco perfeito


21 de julho de 2026

Impressões sobre o filme Odisseia

O cinema é outra de minhas paixões desde a infância. Quando o cinema se soma à Literatura, a paixão aumenta, e a paixão ainda mais se amplia quando a música se ajusta às cenas. A Odisseia, filme de Christopher Nolan que está em cartaz nos cinemas, pode ter pecados, mas procura ajustar Homero ao nosso tempo. Perdemos a narrativa e o diretor, consciente ou inconscientemente, desmonta a ordem, sem perder tanto a similaridade com as invenções consagradas da história e das lendas gregas.

Como um amante do andamento dos filmes antigos, gostaria de menos recortes e mais introspecção nas cenas, gostaria de atores mais intensos, um Telêmaco menos apático, uma Helena que não fosse inutilizada, pois não adianta substituir a atriz branca por uma negra e deixá-la desfigurada ao lado de um Menelau que se parece com um simples lutador de MMA ou um fascista convicto de suas vitórias.

Quem são os alienígenas de uma ilha que botam os heróis para correr? Há invenções fora de lugar? Há. Nessa ilha, os lestrigões não são alienígenas como posso imaginar numa primeira leitura. Talvez robôs reaproveitados dos Transformers para encanto da ala jovem. E é nesse momento que há clareza nas imagens, talvez por essa remissão ao futuro, onde os robôs serão os grandes inimigos destruidores das frotas e lendas do passado. Os robôs apagarão a memória, levando a História à deformação?

A trilha sonora é justa. Não podemos exigir Bossa Nova para dar intensidade a uma tragédia. Tem de ser mesmo batidas minimalistas. Eu não esperava violinos, mas martelos no ferro. O canto das sereias só poderia ser oferecido por elas. O homem não pode compô-lo. O canto das sereias é o que descobrimos de descompasso em nós mesmos. Enlouquecemos quando nós nos ouvimos. Esse canto está no filme, mas só vai compreendê-lo quem está disposto a se ouvir. Cada um tem o canto das sereias dentro de si mesmo e ele é ivergente em cada um que se ouve. E vivemos numa época em que as pessoas não busca ouvir os próprios descompassos.

Portanto, atores frios ou interpretações apáticas foram previsíveis para atrair uma ala jovem do público. A velocidade das cenas também. As cores escuras, esmaecidas, dá o tom lúgubre necessário, inclusive realça o impacto do passado, quando era escassa a iluminação. Também para realçar a clausura em que vivemos. A clausura nos remete à escuridão. E também é escassa a nossa compreensão dessa história passada. Reclamemos mais luzes em nós mesmos.

Enfim, concordo com o comentarista da Folha de S. Paulo - o filme traz desconforto, pois, nele, reconhecemos que não estamos respeitando nossos adversários. Quando não respeitamos o outro, perdemos o caminho. Enlouquecemos quando não reconhecemos nossas contradições.

A Odisseia é um filme de difícil leitura, mas é hollywoodiano, com suas falhas, sobretudo de roteiro, mas com a coragem de um diretor, com a oportunidade de pôr na mesa temas delicados e, sobretudo, a elogiável exposição de uma obra imorredoura, que serve para lembrar que, por mais que o Homem se perca, a nossa casa, a nossa ilha, as pessoas amadas - aí se encontra o nosso grande refúgio. Perdemos a proteção dos deuses quando violamos o refúgio do outro e não zelamos pelo nosso.


1 de julho de 2026

A importância da Arte para a harmonia e a liberdade

              Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?

            Uma pedra que encontramos na natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão, ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.

            Para ser uma obra de arte, o objeto tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos que existem no mundo? Temos de criar outros?

            Devemos estar atentos a essas questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e imaginamos.  A Arte é o resultado da execução daquilo que imaginamos.

            Octávio Paz, poeta mexicano que ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões podem ser aplicadas à Arte.

 

A poesia é conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito. Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras.

 

Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens, nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos, contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet – para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)

 Com a arte, o homem aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo. 

Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas. Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro compra até as coisas que não precisamos.

Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar, podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão, mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo. Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.

Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte, identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização, descobrimo-nos iguais.

            A Arte é a melhor forma que o homem encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos. Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas, sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona, alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da Arte.

            Assim, vamos tocando o que chamamos de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das criações humanas.

            Inventemos para nossa própria alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo. No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria vida.

            A Arte e a experiência de viver se complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo. Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.

            Uma pessoa feliz, que ouve uma música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.

            Não deixemos de conhecer, de perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.

O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho, desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a que nos oprime.

Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes, integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam inibir a percepção da liberdade.

            Ampliamos nossa percepção através da Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber, criamos a nossa liberdade.

A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!

 

 

1.      PAZ, Octavio. O Arco e a lira in La casa de la presencia, Galaxia Gutenberg, Barcelona : Espanha, 1999.   


27 de junho de 2026

O trabalho de Siron Franco



Como não vivo e não vivi em Goiânia, não convivi com a obra de Siron Franco nem com o pintor enquanto pessoa física e ser social. Não é só como contemporâneo e conterrâneo que admiro Siron Franco, mas pelo espasmo de exatidão crítica ao estranho que exala de cada um de seus trabalhos.

Tenho dois livros sobre sua obra e uma reprodução de um trabalho que retrata a cabeça de um animal por ele inventado a partir de suas experiências com o estranho. Certa vez comprei um tabloide, não me lembro qual, e esse trabalho vinha como encarte. Está em minha sala. Trata-se da figura de uma cabeça de animal em desenho limpo no formato de fotografia para eliminar o sentido da invenção artística. Essa enganosa fotografia parece colada sobre desenhos rupestres. Se num tamanho A4 já assusta, imagine se ela ocupasse alguns metros de uma parede como habitualmente os trabalhos de Siron Franco ocupam.  

Estive com meus filhos ainda crianças numa montagem de Siron Franco na Caixa Econômica de Brasília. Na mesma Caixa de Brasília, assisti a uma palestra por ele proferida com espontaneidade e resistência. Ali nos cumprimentamos, mas encontro fortuito insuficiente para aprofundar qualquer discussão ou relação. Na exposição, estavam expostos grandes tanques de petróleo num ambiente escuro. Cubos menores também com petróleo formavam uma espécie de labirinto. Os meus filhos retornaram para casa cheios de manchas nas roupas, mas plenos de expressões que tentavam compreender a montagem. Não sei se era mais assustador aqueles recipientes com centenas de litros de petróleo ou a sala, em outra exposição, com centenas de litros de tinta, de Anish Kapoor. É o destino de querermos o acúmulo. Mas o acúmulo não torna ninguém mais sábio nem rico, nem é mais belo do que a beleza do que está no mínimo.

Talvez a maior exposição do Siron que eu tenha visitado seja a que foi montada na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia. Tive o privilégio de visitá-la em companhia da poeta Maria Abadia Silva, que conviveu com o pintor, é sua amiga e conhece a sua família, o ateliê e a obra. Nem essa convivência acalma a poeta da presença intimidadora da obra.

A exposição foi dividida em três espaços. O primeiro dedicado à ditadura, onde o corpo humano fica exposto à violência. Lembrou-me as minhas leituras sobre a inquisição. O quadro sobre a Guernica repressiva corrói-nos a alma, o ânus, a genitália. Há rostos apagados, recortados, rostos que não enxergam, indiferentes, omissos, outros que apresentam visões duplas ou deturpadas ou olha. Há cortes de carne humana em ágapes de repressores. Não precisamos da inteligência artificial para nos amedrontarmos, pois quem precisa de extensão para ver é aquele que não sabe e nem é confiante. Qual a nossa vesguice diante da violência repressiva e dos canais que inutilizam a nossa presença e sabedoria? Se oportunistas políticos ― querendo ampliar a própria imagem ― comparecerem prometendo mãos pesadas, Siron Franco recortará as cabeças que orientam essas mãos de carrasco e as denunciará em seu trabalho.

O segundo espaço é dedicado ao acidente do césio, que levou Goiânia ao medo e à imprensa internacional. Foi uma experiência nefasta de descaso da administração para lidar com material radioativo. Siron Franco expõe a roupa esvaziada da primeira vítima. Esvaziada, pois quem desaparece não ocupa mais espaço. Mas somos todos vítimas, pois todos estamos expostos e envergonhados numa realidade deformada. Quando imaginamos espaços civilizados não podemos ver corpos venezuelanos apodrecendo na calçada, o corpo de Lázaro sendo jogado como um saco num camburão ou valas sendo abertas para cadáveres da pandemia serem atirados em sepultamentos coletivos.

Para atravessarmos para o terreno das madonas, deparamo-nos com um vasto mar, com seu azul acolhedor que ladeia um mínimo barco, quase invisível ― é de imigrantes, que, certamente, irão morrer na praia. Nem tudo que vemos envolve áurea turística, pode muito bem ser uma fuga com destino incerto e de possíveis fatalidades. E está lá, em outra obra ― essa menor ―, a criança de borco na areia. Todos os visitantes passam, e, após a passagem, possivelmente, ninguém vá chorar ou sentir repugnância. Talvez o visitante até admire o barquinho como nódoa de beleza na imensidão do céu e do mar. O céu e o mar sempre são imaginados para acolher com beleza e não para acolher fatalidades. Mas há fatalidades, sobretudo a do barquinho da amplidão da tela de Siron Franco, que não são ocasionadas pela natureza.

Chegamos ao último espaço, com as madonas. Algumas severas. Há erotismo. Mas tudo se dilui, e se acalma em cores estreladas em fundos monocromáticos. Vamos nos apaziguar na presença dos últimos trabalhos.

Voltamos ao exterior e vemos numa estrutura de Siron Franco que braços pretos e brancos, enlaçados como formigas que se apoiam umas nas obras para formar uma corrente levadiça, se contorcem uns dentro dos outros para subirem em redenção rumo aos céus, pois não podemos ficar eternamente num universo de diluição dos corpos pela violência, seja ela de má-fé administrativa, por totalitarismos ou pelos mais diversos colonialismos. Precisamos de alcançar ascensão para escape da degradação civilizatória.

Siron Franco é nosso ser sagrado. Não se detém aos aspectos físicos do homem de sua região. As suas figurações são frias, quase como recortes de madeira, sem identificação regional das imagens. Não lhe interessa descansar numa paisagem, usufruir de um pub chic, mas apreender e expressar, incansável e ininterruptamente, em leituras duras. Mas de beleza eterna. Siron cria nosso espelho enquanto seres susceptíveis de naufragar. Mas um país que tem quem nos obriga a nos enxergarmos é passível de redenção.

A minha primeira experiência com a arte foram os bustos de cerâmica produzidos por Manoel Natal de Siqueira postos a secar na calçada em frente à sua casa, que, por coincidência, também era a minha rua, em Silvânia. Bustos esses descolados de qualquer corpo e que viriam a surgir na arte de Siron aos milhares. Dos bustos da calçada só me lembro do que retratava Pelé, que se encontrava no auge da carreira. Em Siron Franco, os bustos manifestam-se sem identidade. Não se assemelham a Pelé, ao Vivinho ou ao Pe. Januário.

Não sou um expert em arte. Mal compreendo alguns rudimentos da literatura. Por escassez de dinheiro e também por não me preocupar e me incomodar nas viagens, nunca estive em museus europeus ou no Moma de Nova Yorque. No entanto, sempre que pude e posso, busco conhecer museus e exposições. Visitei o Museu de Fernando Botero, na Colômbia, e de Oswaldo Guayasamín, no Equador. Lamento não ter ido conhecer obras de Frida Khalo quando estive no México. Procurei visitar as obras de Portinari em Lençóis (SP) quando visitei aquela cidade. Sempre que incluem uma peça de Maria Martins nalguma exposição a mim acessível não deixo de comparecer para apreciá-la.

Por incompetência, não me atreverei a fazer associações da obra de Siron com a tradição da arte mundial. Todos esses artistas nascem do milagre de estar presente numa realidade de estranheza. Guayasamín estende as mãos numa súplica eterna, convidando-nos a estarmos próximos: oferece-te. O chamado de Botero: amplia-te e desnuda-te para ocupação do que te pertence. Siron Franco, oferecendo a ascensão, mantém aceso o alerta: cuida-te, senão serás recortado e parte de te será ofertada numa ceia nefasta.


19 de maio de 2026

16 de março de 2026

Oscar 2026

Assisti a vários filmes que concorreram ao Oscar 2026. O Agente Secreto eu vi duas vezes. É um filme introspectivo, mas excessivamente fragmentado em sua narrativa, por isso peca por gerar cansaço. No entanto, denuncia os universos dos momentos de repressão, seja ela qual for, seja fobia ou real. Mistura a jagunçagem política com a jagunçagem urbana e administrativa. Vale. Vende a imagem de um Brasil carnavalesco, mas que esconde uma fraqueza de conhecimento formal, pois somos um país onde a fuga do ensino é a normalização..
E hoje assisti ao filme Pecadores. Sem nenhuma criatividade. Levou 4 estatuetas e é um filme feio, sem gerar nenhuma empatia ou crítica. Excessivamente óbvio. Será que é necessário vampirisno para atração (ou crítica?) da camada extremada? Temos de viajar demais para montar um processo crítico com essas narrativas mirabolantes. A crítica pode ser mais objetiva e sem amontoado de cenas estúpidas e que já entupiram as telas. O cinema americano virou virulência de cenas de bizarrice.  Estou cansado disso. Melhor as narrações piegas do que as cenas de bizarrice.

24 de fevereiro de 2026

A importância da Arte para a liberdade

Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?

            Uma pedra que encontramos na natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão, ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.

            Para ser uma obra de arte, o objeto tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos que existem no mundo? Temos de criar outros?

            Devemos estar atentos a essas questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e imaginamos.  A Arte é o resultado da execução daquilo que imaginamos.

            Octávio Paz, poeta mexicano que ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões podem ser aplicadas à Arte.

 

A poesia é conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito. Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras(1).

 

Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens, nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos, contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet – para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)

 Com a arte, o homem aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo. 

Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas. Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro compra até as coisas que não precisamos.

Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar, podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão, mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo. Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.

Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte, identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização, descobrimo-nos iguais.

            A Arte é a melhor forma que o homem encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos. Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas, sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona, alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da Arte.

            Assim, vamos tocando o que chamamos de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das criações humanas.

            Inventemos para nossa própria alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo. No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria vida.

            A Arte e a experiência de viver se complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo. Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.

            Uma pessoa feliz, que ouve uma música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.

            Não deixemos de conhecer, de perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.

O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho, desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a que nos oprime.

Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes, integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam inibir a percepção da liberdade.

            Ampliamos nossa percepção através da Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber, criamos a nossa liberdade.

A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!

 1.      PAZ, Octavio. O Arco e a lira in La casa de la presencia, Galaxia Gutenberg, Barcelona : Espanha, 1999.   


6 de janeiro de 2026

Uma leitura de Robert Walser

    Comecei antes do Natal de 2025 a leitura do pequeno livro "Jakob von Gunten", do suiço Robert Walser, escritor admirado por grandes nomes como Kafka, Elias Caneti e Walter Benjamin. É o segundo romance de Walser que leio. "O Ajudante" também me cativou sobremaneira. Em "Jakob von Gunten" encontro tudo que me cativa numa obra romanesca. A poeticidade, a capacidade introspectiva de tratar os personagens e a sombra da época que paira sobre o leimotiv do livro. Cenas como a que o personagem imagina participar do exército de Napoleão é inesquecível, e quase impossível de escrever o capítulo que trata da experiência sexual do jovem personagem. Nunca vi nada igual!

    São três livros sobre instituições educacionais, onde os personagens passam por fomação, que merecem atenção. Nesse, o personagem, narrador de si mesmo, trata do eu livre, sem peias diante da sociedade; em "O jovem Torless", de Musil, há uma premonição da violência que cairia sobre a Europa na forma de nazismo e fascismo; e "O Ateneu", de nosso Raul Pompeia, que trata da situação repressiva da própria instituição de ensino. Assim temos: a violência está no próprio indivíduo, já que ele confunde liberdade com o direito de menosprezo ao outro, está no ambiente das nacionalidades e também dentro das instituições. Resta a nós atenuarmos esse ambiente de violência.

    Acho que comecei bem o meu ano de leituras. Uma citação do livro: Não pense que, por amor a vocês, as tempestades, os raios, os trovões e os golpes do destino foram abolidos. De jeito nenhum!. E ainda acordo ouvindo em minha própria casa que devemos punir os assassinos arrancando-lhes os olhos! É difícil humanizar o mundo!

    Julgamos sempre que é razoável invadir territórios e assassinarmos as leis internacionais. ou esta outra citação: Ainda bem pequeno, abri um buraco na cabeça do meu irmão. Mas isso foi um acontecimento, e não uma tola travessura.

    Trata-se de um livro que merece permanecer com mais disponibilidade do mercado. Só temos uma tradução pouco comercializada e cara. Merece uma edição de bolso com presso mais acessível.




30 de dezembro de 2025

Leitura para melhoria da prática e da participação política

    

    Em continuidade aos meus estudos sobre o fascismo/totalitarismo contemporâneo, li o livro O homem mais perigoso do País, do brasilianista R. S. Rose. Trata-se de uma biografia política de Felinto Müller, que foi chefe de polícia de Getúlio Vargas e depois senador da ditadura de 1964. Saiu de Mato Grosso já obstinado em entrar para a escola militar. Faleceu em 1973 num acidente de avião, ao chegar em Paris. Estava tratando, na época de sua morte, da substituição do ditador Médici pelo também ditador Geisel. Podemos dizer que todo mundo se cerca de pessoas nefastas: Juscelino Kubitschek chegou a visitá-lo em 1959 no hospital, pois eram colegas de partido.

    É assustadora a leitura, pois aí se encontra toda a gênese do ímpeto totalitário brasileiro - esse desejo de controlar tudo, de abolir pessoas, de apossar dos bens públicos. Assustadora essa mentalidade, e depois ainda nos denominamos cidadãos afáveis e cordiais. Não enxergamos que estamos sempre dispostos a abolir e a desrespeitar o outro. Não respeitamos sequer a vizinhança da porta ao lado, quanto mais o adversário político - logo enfiamos uma bucha de mostarda no sexo do adversário se não concordamos em ele. Julgamos que só nossa facção deve existir, tenha ou não razão.

O livro aborda temas pouco ou nunca aprofundados e que até falta material para tratamento mais elaborado pelos historiadores. Mas pude ver que existem teses universitárias que se preocupam com algumas questões levantadas no livro. É o caso do artigo O Tribunal de Segurança Nacional e a sua atuação no Brasil dos anos 1930 e 1940, de Júlia Kertesz Renault Pinto, que está disponível na internet.

    Por exemplo: ninguém fala abertamente do Tribunal de Segurança Nacional, que era o STM de Vargas, incumbido de julgar e sumir com adversários políticos - fosse ele policial, militar ou civil, pobre ou rico. O pobre estava e está perdido: pegavam pessoas de rua para as aulas de tortura. Estão no Arquivo Nacional todos os documentos desse TSN, que devem ser monstruosos, pois foi monstruosa a sua atuação. Podiam encaminhar presos políticos para trabalho escravo em fazendas de familiares de políticos. Assim fica perpetuada a fórmula: contratação de fantasmas pelos gabinetes de políticos. É urgente desamarrar essas práticas da politica nacional. Qualquer cabinho eleitoral acha que se tornou um coronel de sua rua, ficando acima da lei. Governadores se proclamando eliminadores do crime através da eliminação física sem a participação da Justiça. É a mesma tradição da polícia de Vargas.

    Por exemplo - o Departamento Especial de Segurança Política e Social (DESPS), que fazia e acontecia com seu aparato de tortura, daí onde nasceu o SNI. Trouxe militares franceses e alemães para ensinar práticas monstruosas à polícia brasileira. Adotaram uma cadeira americana para práticas de tortura. Sentavam o prisioneiro nessa cadeira americana e, quando a acionavam, o preso era atirado na parede com todo ímpeto. Para não mancharem a roupa de sangue, os policiais participavam sem farda das sessões de tortura.

    Por exemplo: o Quadro Móvel (um departamento policial, que não era visível na estrutura de governo, incumbido de desaparecer com presos políticos). Esse Quadro Móvel, que era uma Gestapo de Vargas, motivaria o surgimento dos esquadrões da morte que infestam o país de Norte a Sul. O Quadro Móvel executava as ordens dos governantes e nenhuma autoridade precisava responder pelas atrocidades, pois poderia alegar que não tinha conhecimento daquilo que mandou executar. Os governos sempre procuraram restabelecer essas gestapos: Bolsonaro queria criar um grupo de militares para defendê-lo na Esplanada, o governador do Distrito Federal queria criar um batalhão para cuidar da Esplanada. Desses pequenos núcleos nascem as piores gestapos. A definição para Gestapo também serve para definir o Grupo Móvel (A Gestapo foi a polícia secreta da Alemanha nazista, sendo responsável por realizar a perseguição e o silenciamento de todos os grupos que pudessem representar algum tipo de ameaça para o controle dos nazistas).

    O livro demonstra como atuam as figuras hipócritas para que existam os regimes de exceção. Nesse caso, a hipocrisia passou a grassar no Brasil após os ensinamentos de Getúlio Vargas. Ficou fácil para o golpismo, pois Vargas mostrou como montar o aparato fascista pelas portas dos fundos. Controle total da imprensa... Se existissem as redes sociais, o regime totalitário de Vargas teria inventado a fake news.

    E a hipocrisia permanece e reina na nossa elite, nos nossos quartéis, nas escolas militares. Precisamos conhecer melhor o nosso país para nos libertarmos da hipocrisia totalitária. Da hipocrisia de querermos "dançar só com generais", como diz a personagem Zina na novela O sonho do tio, de Dostoievski. A mania de escolarizar os filhos batendo continência para policiais. Esquecemos de nos educar com liberdade, mas com empatia ao outro e respeiro moral.

    Quem leu a recente orientação ideológica de formação fascista pelas escolas militares? Quem propôs homenagens a ditadores em diversas universidades e assembleias brasileiras? Quem montou a homenagem a Otávio Lage no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás - IHGG - esse governador de garantia da ditadura no Estado de Goiás? Enquanto intelectuais participarem de portfólios de figuras totalitárias não vamos amadurecer a nossa democracia. Enquanto não abolirmos as homenagens a Felinto Müller dos nomes de monumentos e de ruas, estaremos compactuando com as atrocidades que se comete em nome da política.

    Indico o livro O homem mais perigoso do país, pois precisamos ter consciência de que precisamos melhorar a nossa compreensão de prática e de participação política.




22 de dezembro de 2025

A poesia invejável de Simone Bacelar

Ando sempre à procura de poetas que reforcem a galeria do túnel do tempo de nossa literatura. De repente, vejo alguns amigos saudando com euforia o livro "O idioma das sombras", de Simone Bacelar. Inicialmente, fiquei desconfiado. Poderia ser a saudação à autora, que tem atuação audaciosa e livre nas redes sociais. Mas eu não poderia deixar de conhecer o livro. Os meus amigos tinham razão: a poesia de Simone Bacelar é de uma consistência invejável, carrega identidade com os grandes poetas e com a legitimidade da lírica, num tom autoral. Não se atrela ao comum realismo atual, de descrição do cotiano amoroso dos poetas; sem lamúria, e com legitimidade. Até traz um excesso de formalismo para uma autora nova.

De cara, compreendemos a maturidade, o inusitado das metáforas. Basta tirar as frases óbvias como "O amor não precisa ser bonito " ou inúteis convicções que só limitam a expressividade como "Hoje,". Não datar os versos, não localizar a narrativa. Deixar a expressão pura, um verso entrando no outro. Mas talvez eu exija demais e não entenda que esse é um método da atualidade, já que outros poetas usem esses recursos fartamente. Talvez eu até exija demais a fragmentação excessiva dos versos, já que é outra característica encontrada fartamente até em poetas internacionais que chegam pelas redes sociais. Mas uma das características da versificação é um ordenamento interno.

Vejamos uma quadra linda, mas melhor ainda se viesse sem o verbo de ligação "é", uma vírgula no lugar:

Mudar de cidade

é dobrar a esquina do tempo,
sem mapa, sem GPS,
só a bússola do peito.

A poesia enriquece com cortes e suspensões de palavras, e termos próprios de quem escreve como "GPS", que vem da geração atual.

Parabéns à Simone Bacelar por chegar com um poemário rico, que engrandece a poesia atual. 




https://www.blogger.com/blog/post/edit/4843398825678420679/452811239808696688

O livreiro Boanerges

Envelhecemos e as lembranças afloram. Com elas à flor da pele, aflora a necessidade de expressá-las. Queremos atenção daqueles que estão na ...