22 de dezembro de 2025

A poesia invejada de Simone Bacelar

Ando sempre à procura de poetas que reforcem a galeria do túnel do tempo de nossa literatura. De repente, vejo alguns amigos saudando com euforia o livro "O idioma das sombras", de Simone Bacelar. Inicialmente, fiquei desconfiado. Poderia ser a saudação à autora, que tem atuação audaciosa e livre nas redes sociais. Mas eu não poderia deixar de conhecer o livro. Os meus amigos tinham razão: a poesia de Simone Bacelar é de uma consistência invejável, carrega identidade com os grandes poetas e com a legitimidade da lírica, num tom autoral. Não se atrela ao comum realismo atual, de descrição do cotiano amoroso dos poetas; sem lamúria, e com legitimidade. Até traz um excesso de formalismo para uma autora nova.

De cara, compreendemos a maturidade, o inusitado das metáforas. Basta tirar as frases óbvias como "O amor não precisa ser bonito " ou inúteis convicções que só limitam a expressividade como "Hoje,". Não datar os versos, não localizar a narrativa. Deixar a expressão pura, um verso entrando no outro. Mas talvez eu exija demais e não entenda que esse é um método da atualidade, já que outros poetas usem esses recursos fartamente. Talvez eu até exija demais a fragmentação excessiva dos versos, já que é outra característica encontrada fartamente até em poetas internacionais que chegam pelas redes sociais. Mas uma das características da versificação é um ordenamento interno.

Vejamos uma quadra linda, mas melhor ainda se viesse sem o verbo de ligação "é", uma vírgula no lugar:

Mudar de cidade

é dobrar a esquina do tempo,
sem mapa, sem GPS,
só a bússola do peito.

A poesia enriquece com cortes e suspensões de palavras, e termos próprios de quem escreve como "GPS", que vem da geração atual.

Parabéns à Simone Bacelar por chegar com um poemário rico, que engrandece a poesia atual. 




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