21 de julho de 2026

Impressões sobre o filme o filme Odisséia

O cinema é outra de minhas paixões desde a infância. Quando o cinema se soma à Literatura, a paixão aumenta, e a paixão ainda mais se amplia quando a música se ajusta às cenas. A Odisseia, filme de Christopher Nolan que está em cartaz nos cinemas, pode ter pecados, mas procura ajustar Homero ao nosso tempo. Perdemos a narrativa e o diretor, consciente ou inconscientemente, desmonta a ordem, sem perder tanto a similaridade com as invenções consagradas da história e das lendas gregas.

Como um amante do andamento dos filmes antigos, gostaria de menos recortes e mais introspecção nas cenas, gostaria de atores mais intensos, um Telêmaco menos apático, uma Helena que não fosse inutilizada, pois não adianta substituir a atriz branca por uma negra e deixá-la desfigurada ao lado de um Menelau que se parece com um simples lutador de MMA ou um fascista convicto de suas vitórias.

Quem são os alienígenas de uma ilha que botam os heróis para correr? Há invenções fora de lugar? Há. Nessa ilha, os lestrigões não são alienígenas como posso imaginar numa primeira leitura. Talvez robôs reaproveitados dos Transformers para encanto da ala jovem. E é nesse momento que há clareza nas imagens, talvez por essa remissão ao futuro, onde os robôs serão os grandes inimigos destruidores das frotas e lendas do passado. Os robôs apagarão a memória, levando a História à deformação?

A trilha sonora é justa. Não podemos exigir Bossa Nova para dar intensidade a uma tragédia. Tem de ser mesmo batidas minimalistas. Eu não esperava violinos, mas martelos no ferro. O canto das sereias só poderia ser oferecido por elas. O homem não pode compô-lo. O canto das sereias é o que descobrimos de descompasso em nós mesmos. Enlouquecemos quando nós nos ouvimos. Esse canto está no filme, mas só vai compreendê-lo quem está disposto a se ouvir. Cada um tem o canto das sereias dentro de si mesmo e ele é ivergente em cada um que se ouve. E vivemos numa época em que as pessoas não busca ouvir os próprios descompassos.

Portanto, atores frios ou interpretações apáticas foram previsíveis para atrair uma ala jovem do público. A velocidade das cenas também. As cores escuras, esmaecidas, dá o tom lúgubre necessário, inclusive realça o impacto do passado, quando era escassa a iluminação. Também para realçar a clausura em que vivemos. A clausura nos remete à escuridão. E também é escassa a nossa compreensão dessa história passada. Reclamemos mais luzes em nós mesmos.

Enfim, concordo com o comentarista da Folha de S. Paulo - o filme traz desconforto, pois, nele, reconhecemos que não estamos respeitando nossos adversários. Quando não respeitamos o outro, perdemos o caminho. Enlouquecemos quando não reconhecemos nossas contradições.

A Odisseia é um filme de difícil leitura, mas é hollywoodiano, com suas falhas, sobretudo de roteiro, mas com a coragem de um diretor, com a oportunidade de pôr na mesa temas delicados e, sobretudo, a elogiável exposição de uma obra imorredoura, que serve para lembrar que, por mais que o Homem se perca, a nossa casa, a nossa ilha, as pessoas amadas - aí se encontra o nosso grande refúgio. Perdemos a proteção dos deuses quando violamos o refúgio do outro e não zelamos pelo nosso.


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