O cinema é outra de minhas paixões desde a infância. Quando o cinema se soma à Literatura, a paixão aumenta, e a paixão ainda mais se amplia quando a música se ajusta às cenas. A Odisseia, filme de Christopher Nolan que está em cartaz nos cinemas, pode ter pecados, mas procura ajustar Homero ao nosso tempo. Perdemos a narrativa e o diretor, consciente ou inconscientemente, desmonta a ordem, sem perder tanto a similaridade com as invenções consagradas da história e das lendas gregas.
Como um amante
do andamento dos filmes antigos, gostaria de menos recortes e mais introspecção
nas cenas, gostaria de atores mais intensos, um Telêmaco menos apático, uma
Helena que não fosse inutilizada, pois não adianta substituir a atriz branca
por uma negra e deixá-la desfigurada ao lado de um Menelau que se parece com um
simples lutador de MMA ou um fascista convicto de suas vitórias.
Quem são os
alienígenas de uma ilha que botam os heróis para correr? Há invenções fora de
lugar? Há. Nessa ilha, os lestrigões não são alienígenas como posso imaginar
numa primeira leitura. Talvez robôs reaproveitados dos Transformers para
encanto da ala jovem. E é nesse momento que há clareza nas imagens, talvez por
essa remissão ao futuro, onde os robôs serão os grandes inimigos destruidores
das frotas e lendas do passado. Os robôs apagarão a memória, levando a História
à deformação?
A trilha
sonora é justa. Não podemos exigir Bossa Nova para dar intensidade a uma
tragédia. Tem de ser mesmo batidas minimalistas. Eu não esperava violinos, mas martelos
no ferro. O canto das sereias só poderia ser oferecido por elas. O homem não
pode compô-lo. O canto das sereias é o que descobrimos de descompasso em nós
mesmos. Enlouquecemos quando nós nos ouvimos. Esse canto está no filme, mas só
vai compreendê-lo quem está disposto a se ouvir. Cada um tem o canto das
sereias dentro de si mesmo e ele é ivergente em cada um que se ouve. E vivemos
numa época em que as pessoas não busca ouvir os próprios descompassos.
Portanto,
atores frios ou interpretações apáticas foram previsíveis para atrair uma ala
jovem do público. A velocidade das cenas também. As cores escuras, esmaecidas,
dá o tom lúgubre necessário, inclusive realça o impacto do passado, quando era
escassa a iluminação. Também para realçar a clausura em que vivemos. A clausura
nos remete à escuridão. E também é escassa a nossa compreensão dessa história
passada. Reclamemos mais luzes em nós mesmos.
Enfim,
concordo com o comentarista da Folha de S. Paulo - o filme traz
desconforto, pois, nele, reconhecemos que não estamos respeitando nossos
adversários. Quando não respeitamos o outro, perdemos o caminho. Enlouquecemos
quando não reconhecemos nossas contradições.
A Odisseia
é um filme de difícil leitura, mas é hollywoodiano, com suas falhas, sobretudo
de roteiro, mas com a coragem de um diretor, com a oportunidade de pôr na mesa
temas delicados e, sobretudo, a elogiável exposição de uma obra imorredoura,
que serve para lembrar que, por mais que o Homem se perca, a nossa casa, a
nossa ilha, as pessoas amadas - aí se encontra o nosso grande refúgio. Perdemos
a proteção dos deuses quando violamos o refúgio do outro e não zelamos pelo
nosso.
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