Hoje podem me visitar com narrativas bem banais
A sobrinha Hariclia para passar a tarde
e poderá arremessar no lixo os meus livros
depois de contar a inutilidade da existência
de um talher quebrado, do fungo amarelo
que nas árvores e nos frutos enfeita as cascas
Não alegarei que tenho de visitar Hari
ou de denunciar o serralheiro a surrar chapas
sobre os telhados decadentes de uma viúva
Não usarei de subterfúgios para espantar o que chega
Quem for visita em Alexandria irá se sentar
em limpas cadeiras de veludo esfarrapado
e ouvirá os poemas Itaca e Deus abandona Antônio
Com uma visita não estarei abandonado
no frio hostil aos meus ossos, na rua com ameaças
ao voo do sanhaço assustado e faminto
A visita poderá rejeitar os feitos de Hafiz,
assumir que não há fome, que não há desejo,
o destroço numa encosta ou cajás grátis
só porque são ácidos e de entremeadas nervuras
Dourada sineta aguarda quem a acionará
A poesia é meu território, e a cada dia planto e colho grãos em seus campos. Com a poesia, eu fundo e confundo a realidade. (Linoliogravura do fundo: Beto Nascimento)
27 de julho de 2019
25 de julho de 2019
Resenha de autoria de meu amigo Wil Prado
Luiz Philippe Torelly, premiado arquiteto, faz sua estreia na literatura com o pé direito. E pé alto, como bom arquiteto que é. “MEMÓRIA E PATRIMÔNIO” está dividido em duas partes. Na primeira, o autor invoca episódios da sua infância, adolescência e juventude em crônicas um tanto líricas, que celebram encontros pessoais, como também suas opções artísticas e ideológicas. A segunda, composta de pequenos ensaios urbanísticos — mais compromissados, talvez, com a clareza das ideias do que o rigor científico — nos remete à área patrimonial arquitetônica (menina dos olhos do autor) e à sustentabilidade cultural e ambiental, reproduzindo artigos já publicados em jornais e revistas científicas, via “Arquitextos” e outras.
Vamos saber um pouco desse carioca-brasiliense aqui desembarcado aos cinco anos de idade, em 1960, anos da inauguração de Brasília, vindo da antiga capital, o Rio de Janeiro. Enquanto ele cumpria o currículo da adolescência, com festas em apartamentos, luaus etílicos-musicais em acampamentos à beira do Lago Paranoá ou nas cachoeiras dentro e no entorno do quadradinho. O pai (seu maior ídolo), Eloy Torelly, nas suas horas de ócio como assessor de senador, colaborava em jornais locais, criando a coluna do “Professor Alan Bic”, onde destilaria todo o seu humor boêmio e debochado, seguindo os passos do seu famoso parente, o humorista Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”.
Um pequeno perfil profissional do autor. Foi picado desde cedo pela mosca azul do socialismo, via leituras de grandes pensadores de esquerda, como Marx, Engels, Marcuse e Walter Benjamin. Formou-se em arquitetura na UnB, e, como arquiteto, fez carreira na Caixa Econômica, com projetos premiados, destacando-se como o Arquiteto do Ano, em 1915. Mas já antes vinha flertando com a política, ligando-se ao Sindicato dos Arquitetos, que chegou a presidir, nos anos de chumbo da ditadura. Com os novos ares democráticos, viria ascender à relevantes cargos, como o de Secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano no governo Cristóvão Buarque e, depois, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico —IPHAN.
Como não tenho formação técnica para alcançar os voos ensaísticos do autor (respeitados e premiados nacionalmente), limito-me à comentar as crônicas. “O dia D”, que abre o volume, recorda as suas primeiras impressões ao desembarcar com a mãe e os irmãos (o pai, já em Brasília, os esperava no aeroporto) no Planalto Central do país. Em “Esperando Vera”, vivemos a perspectiva um tanto excitante de dois jovens, em um badalado bar carioca, diante do aparecimento de um mito erótico da época, a atriz e modelo Vera Fischer. E desemboca em comentários de livros (“São Bernardo”) e autores prediletos (Sartre, Mario de Andrade, Drummond e Celso Furtado, entre outros).
Para fechar, não resisti à tentação de transcrever essa bela passagem, que nos traz o cheiro de terra, de chuva e de infância:
SECA
Eu gosto da seca. Do céu sempre azul. Das cores que vão gradativamente
esmaecendo. Da obliquidade da luz. Da terra vermelha que me faz lembrar da
infância e do caminho para a escola, da “japona” de flanela azul que minha
avó costurava. Das manhãs e das noites frias. Das fogueiras. Do céu estrelado
onde podemos reconhecer as constelações e sentir a amplitude do universo.
das floradas dos ipês, das sibipirunas, das sucupiras, dos guapuruvus, das
flamboyants, dos bougainvilles, das mangueiras, prenunciando os frutos da
primavera. E da primeira chuva, que sentencia seu fim e espalha um perfume
de renascimento e esperança.
Desconfiamos que o autor tem mais crônicas engavetadas (ou pela menos adormecidas na memória), e desde já esperamos que ele venha nos brindar, senão com um novo livro, ao menos com uma segunda edição ampliada deste.
Wil Prado
Autor de “Sob as sombras da agonia” (Chiado Editora) e “Um vulto dentro da noite”, em formato digital, pela Amazon.
27 de maio de 2019
Mote para tempos atuais
O debate leva o indivíduo a compreender até aqueles
posicionamentos irracionais que julgava irremovíveis de si mesmo. Por isso, as
tentativas de negar o acesso ao conhecimento – o poder (econômico e político) sabe
que, sem ele, oferecemos concordância ao que ele deseja. Sem argumentação, que
gera narrativas mitológicas e de compreensão das camadas da realidade, aceitamos
a proposta de ficar sem o filosófico, o antropológico, o histórico. No consumo
(até a literatura e a política integram os produtos do marketing), a humanidade
vai se trancafiando no ambiente depressivo. A juventude, quando descobre o processo,
se filia ao terrorismo e às milícias, pois é o que lhes resta para busca de
expressão corporal, de aventura, dor e surpresa. Enfim, a experiência fora do
virtual.
Ser livre é poder realizar junto, mas estamos abrindo
mão dessa liberdade, passando a ser vítimas, pois entregamos ao poder, sem
discussão, a capacidade de decidir nossos destinos e de nossos direitos. Somos
democratas quando a nossa argumentação compreende, questiona, acrescenta e
participa, quando permitimos a livre criatividade e a livre informação. Só
somos livres quando não somos otimizados para a aceitação da proposta, quando
participamos da construção do projeto e dele usufruímos; quando somos elementos
da comunidade e nos reconhecemos cidadãos.
Há urgência de ampliação dos espaços de argumentação
para inclusão do indivíduo à realidade, com seus cheiros, texturas, sabores,
nascimentos e apodrecimentos, para libertação do depressivo do ato de viver
isolado. A literatura precisa assumir a ação profanadora, narrativa, capaz de
compreender a realidade, fora das repetições fáceis das mensagens cifradas. O
poeta não pode se propor a ser o sujeito da sujeição, mas ser o da criação do
inesperado. Só o inesperado, que o conhecimento (aí a poesia) cria, livra o
homem de ser simples dado do big-data. Só com cultura e educação o indivíduo
deixa de ser incluído no algoritmo, onde somos classificados como consumidores
de produtos, sejam eles a política, a geladeira ou a máscara.
5 de maio de 2019
PRADO
Volto sempre a Harold Bloom para
ativar a forma de pensar e de ordenar as escolhas de leitura e, também, para
que a mente não adormeça no ócio. Vejo interpretação em tudo que deposito o
olhar, por isso Sinésio Dioliveira sinalizou que não fotografo, pois tiro o
olhar do objeto. Preocupo-me com o que danifica a prática poética de nosso
tempo. O homem atual só reconhece o que molda em seu desejo, e desmerece o que
o outro deseja ver. Bloom me socorre na questão com o conceito de sublime, de
Longino. O conteúdo de uma obra tem de nos provocar estranheza. Ocorre que não
é uma estranheza por ser “estranho”, mas de espanto no espírito. Um dos versos
que mais gosto é de Boris Pasternak: viver
é algo mais do que atravessar um prado. Assim vejo numa tradução. Talvez
pudéssemos simplificar a tradução: viver
não é simplesmente atravessar um prado. Mas o que tem de estranheza
nisso? Não é belo um prado em si e mais belo ainda, simplesmente, por hauri-lo?
A estranheza, pelo menos assim vejo, é ser levado a se sentir fora da travessia
do prado. Se viver fosse estar só dentro do prado, o verso não teria mais
nenhum motivo de existência. Não estamos permanentemente dentro de um prado e,
se estivéssemos, a vida seria assaltada por uma enorme pequeneza de
possibilidades. Só teria a possibilidade do prado. Deitado em minha sala, eu
diria que
Viver é estar com a
porta aberta
para entrar o vento com cheiro de vento
Mas e o cheiro do prado? Do prado
da beira do rio Calvo, de uma distante Rússia após algum degelo? A poesia não é
dizer o que está posto no verso. É pegar o real e criar algo além do
ideológico, como reconhece Bloom: o
estético demanda profunda subjetividade e está além do alcance da ideologia. Então por que ele
diz que falta à atualidade a presença de poetas como Emerson e Whitman para
interpretação do mal-estar da cultura? Tenho algumas interpretações para a
questão. Primeiramente eu concordo com a proposta de Bloom — no mundo da
complexidade moderna, foi multiplicado o campo de ação do homem e o poeta não
consegue entrar em todas as inserções da inovação. Mas, então, por que o poeta
deixa de compreender pelo menos algum ângulo do seu tempo para que possa
compreender a si mesmo, sem confusão do que é a lírica? Não sou lírico só
quando me fotografo. A lírica ocorre com sucesso quando o poeta fotografa com
um olhar pessoal e de inteligível estranheza. O poeta — na minha parca compreensão
— deixou de se submergir no prado, de interagir com
ele para que possa se expressar com essa experiência. É necessário ter um
trabalho braçal com o prado para depois ter um
trabalho corporal com o poema. Eu diria mais: teme ser ideológico — não no
sentido partidário, mas de assunção de posicionamento diante das desolações de
seu tempo — para depois estar imbuído de subjetividade expressiva. Só sou
autêntico quando penso por mim mesmo, se meu eu corporal não se referencia pelo
que encontra após o prado. Nada que expresso transportará estranheza até o
outro. A poesia exige a expressão da libido do real absorvido pela
individualidade do poeta. Com poesia, somos o cinamomo.
Viver é abrir a
porta para entrar o vento
e atravessa a sala o prado perfumado
1 de maio de 2019
Poema sem título
Não persigo a palavra exata
ou tão afiada que parta uma laranja.
Emiti-la seria extraviar o que sou,
cortante seria destruir um talo.
Eu mesmo não me compreendo,
e se rende a areia à água,
ambos preenchemos a vala.
Eu mesmo me contradigo,
eu mesmo reformulo o que sei
e a dúvida ainda me avassala.
Quanto mais a torço e distorço
a palavra não me livra de outra fala.
Os lábios não calam, perseguem-na
quanto mais se exibe entre as talas.
Repreendo-me sempre que não sei,
sempre que a definição traz outro lado.
O que surpreende a laranja
é que nada aconteça. Balcão de feira,
melaço febril, bico de pássaro.
A sacola, as mãos de uma Natália.
A laranja aguarda ser exposta,
ser surpreendida por um fungo,
por um abrigo na cesta, na taça.
Estendem-se à minha frente as conexões
e me surpreende a incerteza
de quem entrará pela sala.
Não é a escolha que me define,
se nem posso ser laranja ou fungo.
Tenho de exigir uma surpresa
que saiba de antemão colher num galho.
ou tão afiada que parta uma laranja.
Emiti-la seria extraviar o que sou,
cortante seria destruir um talo.
Eu mesmo não me compreendo,
e se rende a areia à água,
ambos preenchemos a vala.
Eu mesmo me contradigo,
eu mesmo reformulo o que sei
e a dúvida ainda me avassala.
Quanto mais a torço e distorço
a palavra não me livra de outra fala.
Os lábios não calam, perseguem-na
quanto mais se exibe entre as talas.
Repreendo-me sempre que não sei,
sempre que a definição traz outro lado.
O que surpreende a laranja
é que nada aconteça. Balcão de feira,
melaço febril, bico de pássaro.
A sacola, as mãos de uma Natália.
A laranja aguarda ser exposta,
ser surpreendida por um fungo,
por um abrigo na cesta, na taça.
Estendem-se à minha frente as conexões
e me surpreende a incerteza
de quem entrará pela sala.
Não é a escolha que me define,
se nem posso ser laranja ou fungo.
Tenho de exigir uma surpresa
que saiba de antemão colher num galho.
Jorge Luis Borges
Manuscrito encontrado num livro de Joseph Conrad
Nas trêmulas terras que exalam o verão,
o dia é invisível de puro branco. O dia
é uma estria crual numa gelosia,
um fulgor nas costas e uma febre na paisagem.
Mas a antiga noite é profunda como um jarro
de água côncava. A água se abre para infinitos rastros,
e em ociosas canoas, de cara para as estrelas,
o homem calcula o vago tempo com o cigarro.
A fumaça apaga cinzentas as constelações
remotas. Logo perde pré-história e nome.
O mundo não passa de umas quantas imprecisões.
O rio, o primeiro rio. O homem, o primeiro homem.
Tradução: Salomão Sousa
23 de abril de 2019
Ida Vitale
Estive no Instituto Cervantes para uma palestra proferida por Esther
Blanco sobre a poeta uruguaia Ida Vitale, que recebeu nesta data o Prêmio
Cervantes. Trajetória maravilhosa, com um propósito de produção escorreito e
uma poesia chocante.
Ao topar com o poema abaixo, se eu fosse um animal, teria perdido um
corno. Mas como este pouco humano desnorteado, devo ter perdido uma unha, um
dente, algum destino.
(Foto: El Pais) A tradução do poema é minha.
Obstáculos lentos
de Ida Vitale
Si o poema deste entardecer
fosse a pedra mineral
que cai sobre um imã
num apoio abissal;
fosse um fruto necessário
para a fome de alguém,
e surgiram pontuais
a fome e o poema;
se fosse o pássaro que vive de sua asa,
se fosse a asa que sustenta o pássaro,
se próximo estivesse um mar
e o grito de gaivotas do crepúsculo
desse a hora esperada;
se as samambaias de hoje
- não as que guarda fósseis o tempo –
mantivesse-as verde minha palavra;
se tudo fosse natural e amável...
Mas os itinerários inseguros
se disseminam sem sentido preciso.
Nós nos tornamos nômades,
sem esplendores na travessia,
nem direção dentro do poema.
Obstáculos Lentos
de Ida Vitale
Si el poema de este atardecer
fuese la piedra mineral
que cae hacia un imán
en un resguardo hondísimo;
fuese la piedra mineral
que cae hacia un imán
en un resguardo hondísimo;
si fuese un fruto necesario
para el hambre de alguien,
y maduraran puntuales
el hambre y el poema;
para el hambre de alguien,
y maduraran puntuales
el hambre y el poema;
si fuese el pájaro que vive por su ala,
si fuese el ala que sustenta al pájaro,
si cerca hubiese un mar
y el grito de gaviotas del crepúsculo
diese la hora esperada;
si fuese el ala que sustenta al pájaro,
si cerca hubiese un mar
y el grito de gaviotas del crepúsculo
diese la hora esperada;
si a los helechos de hoy
-no los que guarda fósiles el tiempo–
los mantuviese verdes mi palabra;
si todo fuese natural y amable…
-no los que guarda fósiles el tiempo–
los mantuviese verdes mi palabra;
si todo fuese natural y amable…
Pero los itinerarios inseguros
se diseminan sin sentido preciso.
Nos hemos vuelto nómades,
sin esplendores en la travesía,
ni dirección adentro del poema.
se diseminan sin sentido preciso.
Nos hemos vuelto nómades,
sin esplendores en la travesía,
ni dirección adentro del poema.
9 de abril de 2019
Nirton Venâncio e Marcos Fabrício
![]() |
| Poema de Nirton Venâncio |
Por diversas razões, aguardo com
ansiedade os lançamentos de novos livros de poesia. Primeiramente, é
oportunidade de reencontro corporal com pessoas que trazem afinidades de
experiência e desejo. Não compareço a um lançamento para me opor, mas para me
recompor com a presença de outros iguais a mim e com a poesia, que sempre será
diferente em cada autor.
Dois
lançamentos. Eu aguardava um novo livro de Marcos Fabrício depois de conhecer o
que ele lançou em edição artesanal pela Avá. Surpreendeu-me que ele retomasse ali
o poema processo e a poesia concreta. Conseguiu bons efeitos e foi uma
experiência para compreender a forma de busca de métodos de composição, já que
vivemos um momento em que a poesia não exige tanta oralidade.
Confesso que o novo livro não
atendeu toda as possibilidades que Marcos Fabrício tem para apresentar um livro
com voz própria. Ele conseguiu definir um projeto, mas a execução ainda ficou
amarrada a questões com as quais Brasília vem se debatendo a algum tempo.
Poderíamos dizer que questões presentes desde a época do nascimento de Marcos
Fabrício. Brasília, poderíamos dizer, é um tanto egocêntrica. Tem uma excessiva
mania de ser cantada pelos seus autores. E, para isso, os poetas se aferram
demais ao poema instantâneo de Oswald de Andrade e de Manuel Bandeira do Mafuá
do Malungo. Brasília tem mania de consagrar o fácil. Fácil para compor, fácil
para fazer. Só que o fácil se perde muito fácil.
De avanço no livro de Marcos
Fabrício sobressai de positivo o andamento meio funk e hip-hop de alguns
poemas. Quem sabe isso possa inserir melhor andamento aos poemas de seus
próximos livros. Basta ver o poema “Coração na banguela”. Mas quase a
totalidade do livro não passa de aforismos, em forma de mensagem de rede social,
que nem sempre traz a carga de um hai-kai. Mas, tenho certeza, Marcos Fabrício
foi seduzido por uma linha tradicional da poesia de Brasília, sobretudo
relacionada à Poesia Marginal, e tem sabedoria para construir, com trabalho,
uma obra própria, com menos gracejo e mais poesia.
Assim como tenho um carinho
especial pelo Marcos Fabrício, que incluí recentemente no rol das pessoas de
meu afeto especial, Nirton Venâncio anda comigo há muitos anos pelos recitais
do Coletivo de Poetas. Confesso que não tinha me debruçado com melhor
intropectividade sobre sua obra. Nunca consigo entender um poema só pela oralidade.
Depois que a comunicação adotou meios para se apresentar visualmente, a poesia,
para mim – e acredito que para muitos outros – tem de ser compreendida sobretudo
pela visualidade.
Nirton Venâncio
Eu e o poeta Nirton Venâncio andamos há muitos anos pelos ambientes culturais de Brasília para participarmos dos recitais do Coletivo de Poetas. Confesso que até o lançamento do livro Poesia provisória não tinha me debruçado com melhor introspecção sobre sua obra. Nunca consigo captar todos os recursos de construção do poema só pela oralidade dos recitais. Depois que a comunicação adotou meios para se apresentá-la visualmente, a poesia, para mim – e acredito que para muitos outros – tem de ser compreendida sobretudo pela visualidade. Surpreendente a poesia do recente livro de Nirton Venâncio, desde a leitura de cada vocábulo às possibilidades das assonâncias e associações metafóricas de cada expressão. Poesia provisória foi elaborado ao correr de muitos anos e isso possibilitou cada palavra, cada gestual das metáforas estarem nos locais corretos. É uma lírica sem excesso, sem ter se prejudicado pela experiência da oralidade dos recitais, que é onde Nirton Venâncio gosta de estar. Muito pelo contrário. A poesia se impõe com introspecção limpa, questionadora de si mesma. Traz poemas que irão constar para sempre do nosso imaginário. “Bússola” trabalha com imagens antagônicas; “O morto” esclarece que o poeta é um trabalhador que pega uma madeira, uma medida de barro ou pedaço de pedra, e lamina algo com todos os contornos exatos. É isso. A poesia é muito mais que ver o lençol no varal. Tenho certeza que os admiradores dos irmãos Campos vão ficar com inveja do lençol no poema “Quimera”. Nirton Venâncio, já estou aguardando pelo anunciado próximo livro. Sei que esta nota é excessivamente econômica pelo que representa o livro Poesia provisória e a figura ativa, exemplar de Nirton Venâncio e o que o trabalho dele significa e dignifica a cultura brasiliense.
20 de dezembro de 2018
Tradução que fiz para o poema de Mário Benedetti
Rasante ao sonho
Só uma temporada provisória,
tatuagem de incontáveis tradições,
escuro mausoléu onde começa
a existir o futuro, a tornar-se pedra.
Nada aqui, nada além. São as palavras
do mago longínquo e espargido.
Não resta dúvida, a infância esperneia,
começa a fazer seus inventários,
a lançar suas amplas redes para breve.
É uma ilha limpa e sobretudo
fugaz, é um veio de primícias,
que lentamente vão se ressecando.
Deixa-se para trás como uma rápida paisagem
em que persistiram algumas nuvens,
um biombo, dois brinquedos, três ramos,
ou apenas um odor, uma cinza.
Com luzes fica para trás, na intempérie,
jacente e esquecido para sempre,
só com sua atitude irresistível,
e um pudor incorpóreo, destroçado.
Mas nunca destruída, fabulosa
infância entre suas redes extinguida.
Mas algo fica para trás. Essa entranhável
permite o fervor, o pasmo, o fruto,
ao acaso enfia os dentes noutra bruma,
somos os moribundos que nascemos
da carne, do sangue, do entusiasmo,
burlamos do sol, da penumbra,
Manipulamos a glória como um lápis
e nas virgens paredes desenhamos
o amor e seu velho ápice, o ódio,
o grito que nos traz a vingança
nas mãos bem antes do que nos lábios.
O nevoeiro se acende. Somos névoa
sob o céu compacto, insolidário,
o assombro faz as contas e não pode
manter-nos serenos, tranquilos,
somos o invasor protagonista
que destroça o tempo, que faz ruído
pueril, que cria palavras, que faz pactos,
somos tão poderosos, tão eternos,
que cerramos os punhos e o verão
começa a soluçar entre as árvores.
Vamos dizer melhor: acreditamos que soluça.
O verão é uma névoa, portanto
não tem pálpebras nem lágrimas,
em suas tardes de atmosfera mais tênue
é calor, é calor, e nas manhãs
de ar pesado, corporal, viscoso,
é calor, é calor. Com isso basta.
De todos os modos muda as garotas,
ilumina-as, ondula-as, e logo
respira-as e suspira como acordes,
envolve-as em amor, torná-as carne,
pinta-lhes os braços com veias tênues
em cores e luzes suplementares,
abre-lhes decotes para que alguém verta
qualquer olhar, esse poder possessivo.
A vida, que região esplendorosa.
Quem escruta a morte, quem a acaricia?
À forca com isso. Quem pensa nessa
impossível quietude quando é hora
de cada um morder sua fruta,
de usar seu espelho, de gritar seu grito,
de cuspir para os céus, de ir subindo
de dois em dois todas as escadas.
A morte não se apura, sem dúvida
não se apela. Tão pouco se impacienta.
Há tantas mortes como negações.
A morte que desgarra, a que expulsa,
a que embruxa, a que arde, a que esgota,
a que enluta o amor, a que excremento,
a que colhe, a que usa, a que abranda,
a morte do areal, a do pântano,
a do abismo, a da água, a da almofada.
Há tantas mortes como teologias,
mas todas se juntam na espera.
Esta que se aproxima é uma morte só.
Escarnecida, rancorosa, oca,
sua insônia enlouquecida desaba
sobre todos os sonhos, seu delírio
se parece bastante à sanidade.
Morte esbelta e rompente, que incrível
sereia para o Mar dos Suicidas.
Não canta, mas indica, marca, alude,
exibe seus vorazes argumentos,
seus cartazes turísticos, explica
porque é tão milagrosa sua iminência,
porque é tão atrativo seu desastre,
porque tão confortável seu vazio.
Não canta, mas é como se cantasse.
Sua demagogia negra usa pombas,
telegramas e rezas e suspiros,
sonatas para piano, harpas de ferrugem
vitrinas de amor mumificado,
relógios de luxúria que amontoam
segundos e segundos e outras prorrogações.
Não canta, mas é como se cantasse,
seu espanto vendaval silva na espiga,
sua pergunta repica no silêncio,
sua louca confiança exala um réquiem
que é prado e é folhagem e é ameia.
Há que se tornar surdo e mudo e cego,
surdo de amor, de amor emudecido,
cego de amor. Olfato, gosto e tato
ficam para afastar a morte e para
fundir-se na mulher, nessa onda
que é tempo e língua e braços e pulsar,
essa mulher descanso, mulher relva,
que é pranto e rosto e semeadura e apetite,
essa mulher colheita, mulher signo,
que é paz e alento e cabala e ofegante.
Há que amar com horror para salvar-se,
amanhecer quando os mansos dentes
mordendo, para salvar-se, ou pelo menos
para crer-se a salvo, que é o bastante.
Há que amar sentenciado e sem urgência,
para se salvar, para guarnecer-se
dessa morte que chove gelo e fogo.
Há o céu comum, a alba escândalo
o gozo atriz, o milagroso caos,
a pele abismo, a granada aberta,
a única unidade composta,
a derrota de todas as cautelas.
Há que amar com valor, para salvar-se.
Sem lua, sem nostalgia, sem pretextos.
Há que desperdiçar numa noite
que pode ser mil e uma - o universo
-sem augúrios, sem planos, sem tremores,
sem convênios, sem votos, com esquecimento,
nus corpo e alma, disponíveis
para ser outro e outro rasante ao sonho.
Bendita noite côncava, delícia
de encontrar um abraço à deriva
e entrar nesse enigma, sem astúcia,
e voltar pelo ar ao ar livre,
há que amar com amor, para salvar-se.
Então chegam as contradições
ou seja a razão. O mundo existe
com manchas, sem arar e não há feitiço
nem fé que o desminta ou modifique.
O manancial seca, a árvore cai,
o sangue flui, o ódio torna-se muro,
É meu irmão o verdugo? Esse assassino
e Deus padrasto todo-poderoso,
esse senhor do vômito, esse artífice
da hecatombe, pode ser meu irmão?
Fornecedor de napalm, profeta imbecil,
esse, meu próximo? esse, meu semelhante?
Síndico em todo caso da morte,
argumento e proclamação da ruína,
poder e braço executor. Esterco.
Desta vez não olharei meus passos
senão o contorno triste, calcinado.
Olho a minha sombra que está envelhecendo,
a sombra dos meus que envelhecem.
O mundo existe. Com ou sem seus manes,
com ou sem seu sinal. Existe. Ponto.
O mundo existe com meus ex iguais,
com meus amigos-inimigos,
que já esqueci porque traíram.
Estendo minha mão às vezes e está só,
e está mais só quando não a estendo,
penso nos compradores emboscados
e sinto dor e sinto raiva e sinto
uma reprovação que começa em minhas lealdades,
em minhas confianças sem o menor motivo,
em minha invenção do próximo-meu-aliado.
Nem ainda agora me resigno a crer nele.
Nem todos são assim, nem todos cedem.
Terei de repeti-lo às escondidas
e baralhar de novo o almanaque.
Meu coração acovardado segue
inventando valor, abrindo créditos,
arrancando cabos só à esquerda,
aprendendo a aprender, pobre aleluia,
e quem sabe, quem sabe se entre tanta
mentira incandescente, não fique algo
de verdade à sombra. E não é metáfora.
Nada aqui, nada além. São as palavras
do mago longínquo e espargido.
Mas por que acreditar de pés juntos?
Em que galáxia está o certificado?
Algo aqui, nada além. É tão diferente?
Proponho-o sob minhas pálpebras
e em minha boca fechada.
É tão diferente?
Já sei, há razões nítidas, famosas,
há cem teorias sobre a derrota,
há argumentos para suicidar-se.
Mas e se há um resquício?
É tão diferente,
tão néscio, tão ridículo, tão torpe,
ter um espaçoso sonho próprio
onde o homem morra mas atue
como imortal?
escuro mausoléu onde começa
a existir o futuro, a tornar-se pedra.
Nada aqui, nada além. São as palavras
do mago longínquo e espargido.
Não resta dúvida, a infância esperneia,
começa a fazer seus inventários,
a lançar suas amplas redes para breve.
É uma ilha limpa e sobretudo
fugaz, é um veio de primícias,
que lentamente vão se ressecando.
Deixa-se para trás como uma rápida paisagem
em que persistiram algumas nuvens,
um biombo, dois brinquedos, três ramos,
ou apenas um odor, uma cinza.
Com luzes fica para trás, na intempérie,
jacente e esquecido para sempre,
só com sua atitude irresistível,
e um pudor incorpóreo, destroçado.
Mas nunca destruída, fabulosa
infância entre suas redes extinguida.
Mas algo fica para trás. Essa entranhável
permite o fervor, o pasmo, o fruto,
ao acaso enfia os dentes noutra bruma,
somos os moribundos que nascemos
da carne, do sangue, do entusiasmo,
burlamos do sol, da penumbra,
Manipulamos a glória como um lápis
e nas virgens paredes desenhamos
o amor e seu velho ápice, o ódio,
o grito que nos traz a vingança
nas mãos bem antes do que nos lábios.
O nevoeiro se acende. Somos névoa
sob o céu compacto, insolidário,
o assombro faz as contas e não pode
manter-nos serenos, tranquilos,
somos o invasor protagonista
que destroça o tempo, que faz ruído
pueril, que cria palavras, que faz pactos,
somos tão poderosos, tão eternos,
que cerramos os punhos e o verão
começa a soluçar entre as árvores.
Vamos dizer melhor: acreditamos que soluça.
O verão é uma névoa, portanto
não tem pálpebras nem lágrimas,
em suas tardes de atmosfera mais tênue
é calor, é calor, e nas manhãs
de ar pesado, corporal, viscoso,
é calor, é calor. Com isso basta.
De todos os modos muda as garotas,
ilumina-as, ondula-as, e logo
respira-as e suspira como acordes,
envolve-as em amor, torná-as carne,
pinta-lhes os braços com veias tênues
em cores e luzes suplementares,
abre-lhes decotes para que alguém verta
qualquer olhar, esse poder possessivo.
A vida, que região esplendorosa.
Quem escruta a morte, quem a acaricia?
À forca com isso. Quem pensa nessa
impossível quietude quando é hora
de cada um morder sua fruta,
de usar seu espelho, de gritar seu grito,
de cuspir para os céus, de ir subindo
de dois em dois todas as escadas.
A morte não se apura, sem dúvida
não se apela. Tão pouco se impacienta.
Há tantas mortes como negações.
A morte que desgarra, a que expulsa,
a que embruxa, a que arde, a que esgota,
a que enluta o amor, a que excremento,
a que colhe, a que usa, a que abranda,
a morte do areal, a do pântano,
a do abismo, a da água, a da almofada.
Há tantas mortes como teologias,
mas todas se juntam na espera.
Esta que se aproxima é uma morte só.
Escarnecida, rancorosa, oca,
sua insônia enlouquecida desaba
sobre todos os sonhos, seu delírio
se parece bastante à sanidade.
Morte esbelta e rompente, que incrível
sereia para o Mar dos Suicidas.
Não canta, mas indica, marca, alude,
exibe seus vorazes argumentos,
seus cartazes turísticos, explica
porque é tão milagrosa sua iminência,
porque é tão atrativo seu desastre,
porque tão confortável seu vazio.
Não canta, mas é como se cantasse.
Sua demagogia negra usa pombas,
telegramas e rezas e suspiros,
sonatas para piano, harpas de ferrugem
vitrinas de amor mumificado,
relógios de luxúria que amontoam
segundos e segundos e outras prorrogações.
Não canta, mas é como se cantasse,
seu espanto vendaval silva na espiga,
sua pergunta repica no silêncio,
sua louca confiança exala um réquiem
que é prado e é folhagem e é ameia.
Há que se tornar surdo e mudo e cego,
surdo de amor, de amor emudecido,
cego de amor. Olfato, gosto e tato
ficam para afastar a morte e para
fundir-se na mulher, nessa onda
que é tempo e língua e braços e pulsar,
essa mulher descanso, mulher relva,
que é pranto e rosto e semeadura e apetite,
essa mulher colheita, mulher signo,
que é paz e alento e cabala e ofegante.
Há que amar com horror para salvar-se,
amanhecer quando os mansos dentes
mordendo, para salvar-se, ou pelo menos
para crer-se a salvo, que é o bastante.
Há que amar sentenciado e sem urgência,
para se salvar, para guarnecer-se
dessa morte que chove gelo e fogo.
Há o céu comum, a alba escândalo
o gozo atriz, o milagroso caos,
a pele abismo, a granada aberta,
a única unidade composta,
a derrota de todas as cautelas.
Há que amar com valor, para salvar-se.
Sem lua, sem nostalgia, sem pretextos.
Há que desperdiçar numa noite
que pode ser mil e uma - o universo
-sem augúrios, sem planos, sem tremores,
sem convênios, sem votos, com esquecimento,
nus corpo e alma, disponíveis
para ser outro e outro rasante ao sonho.
Bendita noite côncava, delícia
de encontrar um abraço à deriva
e entrar nesse enigma, sem astúcia,
e voltar pelo ar ao ar livre,
há que amar com amor, para salvar-se.
Então chegam as contradições
ou seja a razão. O mundo existe
com manchas, sem arar e não há feitiço
nem fé que o desminta ou modifique.
O manancial seca, a árvore cai,
o sangue flui, o ódio torna-se muro,
É meu irmão o verdugo? Esse assassino
e Deus padrasto todo-poderoso,
esse senhor do vômito, esse artífice
da hecatombe, pode ser meu irmão?
Fornecedor de napalm, profeta imbecil,
esse, meu próximo? esse, meu semelhante?
Síndico em todo caso da morte,
argumento e proclamação da ruína,
poder e braço executor. Esterco.
Desta vez não olharei meus passos
senão o contorno triste, calcinado.
Olho a minha sombra que está envelhecendo,
a sombra dos meus que envelhecem.
O mundo existe. Com ou sem seus manes,
com ou sem seu sinal. Existe. Ponto.
O mundo existe com meus ex iguais,
com meus amigos-inimigos,
que já esqueci porque traíram.
Estendo minha mão às vezes e está só,
e está mais só quando não a estendo,
penso nos compradores emboscados
e sinto dor e sinto raiva e sinto
uma reprovação que começa em minhas lealdades,
em minhas confianças sem o menor motivo,
em minha invenção do próximo-meu-aliado.
Nem ainda agora me resigno a crer nele.
Nem todos são assim, nem todos cedem.
Terei de repeti-lo às escondidas
e baralhar de novo o almanaque.
Meu coração acovardado segue
inventando valor, abrindo créditos,
arrancando cabos só à esquerda,
aprendendo a aprender, pobre aleluia,
e quem sabe, quem sabe se entre tanta
mentira incandescente, não fique algo
de verdade à sombra. E não é metáfora.
Nada aqui, nada além. São as palavras
do mago longínquo e espargido.
Mas por que acreditar de pés juntos?
Em que galáxia está o certificado?
Algo aqui, nada além. É tão diferente?
Proponho-o sob minhas pálpebras
e em minha boca fechada.
É tão diferente?
Já sei, há razões nítidas, famosas,
há cem teorias sobre a derrota,
há argumentos para suicidar-se.
Mas e se há um resquício?
É tão diferente,
tão néscio, tão ridículo, tão torpe,
ter um espaçoso sonho próprio
onde o homem morra mas atue
como imortal?
4 de novembro de 2018
Quem me ajuda a analisar esta estrofe de uma ode de Fernando Pessoa?
Quando um poema me destrona do conforto, indago-me o que ele contém para gerar um andamento de emoção. A emoção, o desconforto, a satisfação, a saciedade - sempre surgem de uma ingestão. O que uma estrofe assim carrega de carga de construção para que possa ser medida depois da leitura? O que contém para me deixar saciado após a ingestão?
Primeiramente, começa com uma evocação: VEM. Tudo que nos chama já exige uma resposta imediata. Após, utiliza-se elementos eternos da versificação para criar efeitos encantatórios de linguagem. Primeiramente, sobrecarrega-se de repetições e aliterações. São 19 “i” e 14 “n”, 9 “d” que geram rimas internas. E não pode passar despercebido o efeito que fecha a quadra: a aliteração com o “j” de lantejoulas e franjado. E ainda a intensidade dos 11 "t" criando rimas e soniridades internas.
O tema é bem comum: a noite, mas que gera algo lúgubre, por isso Rainha destronada, mas antiquíssima e idêntica. Agora, o que gera a grandiosidade do poeta é a criação desse efeito que vai criar novas possibilidades de construção poética no futuro. Quando emprega “estrelas lantejoulas” sem ser uma palavra nova com hífen ou vírgula, quer mostrar apenas algo como uma cortina, criar algo emendado pela noite. Uma vírgula seria um corte na noite, no escuro. É uma efeito da poesia atual, neobarroco, com confrontos de palavras para geração de novas possibilidades linguísticas. E Fernando Pessoa complementa essa expressão com “vestido franjado”, pois essa cortina ainda tem uma barra franjada - imagem que irá se desdobrar ao longo do poema.
Agora sei porque volto sempre a esse poema.
Quando um poema me destrona do conforto, indago-me o que ele contém para gerar um andamento de emoção. A emoção, o desconforto, a satisfação, a saciedade - sempre surgem de uma ingestão. O que uma estrofe assim carrega de carga de construção para que possa ser medida depois da leitura? O que contém para me deixar saciado após a ingestão?
Primeiramente, começa com uma evocação: VEM. Tudo que nos chama já exige uma resposta imediata. Após, utiliza-se elementos eternos da versificação para criar efeitos encantatórios de linguagem. Primeiramente, sobrecarrega-se de repetições e aliterações. São 19 “i” e 14 “n”, 9 “d” que geram rimas internas. E não pode passar despercebido o efeito que fecha a quadra: a aliteração com o “j” de lantejoulas e franjado. E ainda a intensidade dos 11 "t" criando rimas e soniridades internas.
O tema é bem comum: a noite, mas que gera algo lúgubre, por isso Rainha destronada, mas antiquíssima e idêntica. Agora, o que gera a grandiosidade do poeta é a criação desse efeito que vai criar novas possibilidades de construção poética no futuro. Quando emprega “estrelas lantejoulas” sem ser uma palavra nova com hífen ou vírgula, quer mostrar apenas algo como uma cortina, criar algo emendado pela noite. Uma vírgula seria um corte na noite, no escuro. É uma efeito da poesia atual, neobarroco, com confrontos de palavras para geração de novas possibilidades linguísticas. E Fernando Pessoa complementa essa expressão com “vestido franjado”, pois essa cortina ainda tem uma barra franjada - imagem que irá se desdobrar ao longo do poema.
Agora sei porque volto sempre a esse poema.
16 de julho de 2018
Quem se preocupa?
Só tem o grande ditador
porque tem a legião
dos pequenos ditadores.
Os pequenos ditadores dizem que querem arma
e o grande ditador providencia o arsenal.
Os pequenos ditadores exigem uma única estrada
e o grande ditador providencia
uma legião de pequenos ditadores
para cercar todas as demais estradas.
Os pequenos ditadores querem cura gay,
querem todos na mesma catedral,
querem todos mostrando só um olho,
e o grande ditador define grandes campos
para aprisionar a criança que tem dois olhos,
a mãe que tinha a velha e limpa catedral,
quem podia calçar um sapato amarelo,
usar uma fita adesiva e dançar.
E os pequenos ditadores começam
a grande denúncia. – Separa aqui
os filhos dos pais, – cura aqui a minha irmã
– atira aqui no que arrasta sua miséria,
porque os pequenos ditadores
denunciam, e quando um pequeno ditador
quiser cortar um pedaço de sua manga
também será arrastado para o aprisionamento.
O grande ditador começa a ter medo
pois já matou dez, já aprisionou mil,
e passa a andar no meio de um exército de cem,
depois com um exército de dez mil,
e depois faz seus pronunciamentos
para um exército de milhares
que só podem ouvir um único canal
que repete o mesmo pronunciamento
de dez em dez minutos.
O grande ditador para se defender de um precisa de cem;
para se defender de cem,
precisa de um exército de dez mil.
E temos o grande medo e a grande desconfiança.
E temos as pequenas cartelas
para enfrentar as filas das pequenas rações.
E passam os anos e os pequenos ditadores
que não foram chamados para ser
assalariados na guarda do ditador
tem de começar todo um trabalho
para derrubar o ditador.
E começam a morrer os pequenos guardas ditadores
e os pequenos ditadores famintos, se não
morreram de fome, serão mortos no fuzilamento,
irão definhar com o rosto na cerca de arame.
Quem já guardou um pedaço de fita
para enfeitar o seio,
que guardou um olho para usar dois olhos?
Quem se preocupa com a mãe e o filho?
Quem se preocupa?
Se agora está sendo dependurado um gancho
por aquele que não se preocupa,
quem não se preocupa poderá um dia
estar dependurado num gancho.
Quem não se preocupa já perdeu um dos olhos.
Quem zela do segundo olho tem dois olhos.
Os pequenos ditadores dizem que querem arma
e o grande ditador providencia o arsenal.
Os pequenos ditadores exigem uma única estrada
e o grande ditador providencia
uma legião de pequenos ditadores
para cercar todas as demais estradas.
Os pequenos ditadores querem cura gay,
querem todos na mesma catedral,
querem todos mostrando só um olho,
e o grande ditador define grandes campos
para aprisionar a criança que tem dois olhos,
a mãe que tinha a velha e limpa catedral,
quem podia calçar um sapato amarelo,
usar uma fita adesiva e dançar.
E os pequenos ditadores começam
a grande denúncia. – Separa aqui
os filhos dos pais, – cura aqui a minha irmã
– atira aqui no que arrasta sua miséria,
porque os pequenos ditadores
denunciam, e quando um pequeno ditador
quiser cortar um pedaço de sua manga
também será arrastado para o aprisionamento.
O grande ditador começa a ter medo
pois já matou dez, já aprisionou mil,
e passa a andar no meio de um exército de cem,
depois com um exército de dez mil,
e depois faz seus pronunciamentos
para um exército de milhares
que só podem ouvir um único canal
que repete o mesmo pronunciamento
de dez em dez minutos.
O grande ditador para se defender de um precisa de cem;
para se defender de cem,
precisa de um exército de dez mil.
E temos o grande medo e a grande desconfiança.
E temos as pequenas cartelas
para enfrentar as filas das pequenas rações.
E passam os anos e os pequenos ditadores
que não foram chamados para ser
assalariados na guarda do ditador
tem de começar todo um trabalho
para derrubar o ditador.
E começam a morrer os pequenos guardas ditadores
e os pequenos ditadores famintos, se não
morreram de fome, serão mortos no fuzilamento,
irão definhar com o rosto na cerca de arame.
Quem já guardou um pedaço de fita
para enfeitar o seio,
que guardou um olho para usar dois olhos?
Quem se preocupa com a mãe e o filho?
Quem se preocupa?
Se agora está sendo dependurado um gancho
por aquele que não se preocupa,
quem não se preocupa poderá um dia
estar dependurado num gancho.
Quem não se preocupa já perdeu um dos olhos.
Quem zela do segundo olho tem dois olhos.
Cidade visível
Na
primeira cidade encontrei pessoas sábias e ignorantes,
algumas que soltavam fogos quando chegava o descendente
de perpetuar a fidalguia da família e a habitabilidade das ruas,
que sem habitantes novos as casas ficam taperas
e depois se desmoronam pela ação dos corós nas madeiras
e da chuva a empurrar ano a ano as telhas até lançá-las podres
e em cacos ao chão.
Era uma cidade que não foi mencionada por Marco Polo
nos muitos relatos a Kublai Khan, mas que tinha joões-de-barro
que se acasalavam depois de arruaças exaltadas
e que pagou sua conta de butim após as raras invasões
das ordas dos tártaros, que ali podiam ser chamados de banqueiros.
Para que um não tivesse sossego, outro arrumava um chuço
e seguia atrás a cutucá-lo para que a inquietude fosse constante.
Não menciono o cio dos gatos e o ruivar dos cães,
que esta é a maneira que o silêncio encontra para se interromper
e os ouvidos não assoviarem internamente por nada.
Tem, no entanto, a raridade de um camelo que bebe água
na poça se há o esquecimento de um baldio na lateral de um bairro,
algumas que soltavam fogos quando chegava o descendente
de perpetuar a fidalguia da família e a habitabilidade das ruas,
que sem habitantes novos as casas ficam taperas
e depois se desmoronam pela ação dos corós nas madeiras
e da chuva a empurrar ano a ano as telhas até lançá-las podres
e em cacos ao chão.
Era uma cidade que não foi mencionada por Marco Polo
nos muitos relatos a Kublai Khan, mas que tinha joões-de-barro
que se acasalavam depois de arruaças exaltadas
e que pagou sua conta de butim após as raras invasões
das ordas dos tártaros, que ali podiam ser chamados de banqueiros.
Para que um não tivesse sossego, outro arrumava um chuço
e seguia atrás a cutucá-lo para que a inquietude fosse constante.
Não menciono o cio dos gatos e o ruivar dos cães,
que esta é a maneira que o silêncio encontra para se interromper
e os ouvidos não assoviarem internamente por nada.
Tem, no entanto, a raridade de um camelo que bebe água
na poça se há o esquecimento de um baldio na lateral de um bairro,
pois a imaginação tem de trazer outros
habitantes para a cidade,
e acabam sendo os mais úteis e
interessantes.
Depois que muitas telhas apodreceram, ratazanas se mostravam
serelepes perto das estações e das calçadas, e garotas
desejavam coletá-las em bolsas quentes e domesticá-las
Depois que muitas telhas apodreceram, ratazanas se mostravam
serelepes perto das estações e das calçadas, e garotas
desejavam coletá-las em bolsas quentes e domesticá-las
para que não passassem fome e a família já
se divertisse.
Enquanto as ratazanas se divertem junto aos pombos
e os pais impedem as filhas de recolhê-las para refúgio quente
passa um homem coxo empurrando o carrinho
com coentro jiló varas espetadas com três pés de alface cada.
E o homem das verduras vai dando bom dia a todos que estão rua
e alguns respondem e outros acham impertinente o bom dia de um coxo
e depois se refestelam com o guisado temperado com o coentro
regado com água reutilizada dos esgotos e o mijo de um coxo.
Era uma cidade que não tinha nada de estúpido.
Os casais trocavam as agendas só para confirmar
os casos extraconjugais, e haver aceitação depois dos gritos.
Assim se descobriu na cidade que os gritos limpam pigarros,
espantam pássaros e atraem o vendedor de ovos até a porta.
Os habitantes eram cordatos. Alguns fazem algazarra
até alta madrugada, acelerando os carros para recarregar as baterias
e a música não seja intermitente. Depois dormem até alta manhã
e quase viram o dia adormecidos só para que o coxo
e os velhos insones não digam que não desfrutaram do silêncio.
Enquanto as ratazanas se divertem junto aos pombos
e os pais impedem as filhas de recolhê-las para refúgio quente
passa um homem coxo empurrando o carrinho
com coentro jiló varas espetadas com três pés de alface cada.
E o homem das verduras vai dando bom dia a todos que estão rua
e alguns respondem e outros acham impertinente o bom dia de um coxo
e depois se refestelam com o guisado temperado com o coentro
regado com água reutilizada dos esgotos e o mijo de um coxo.
Era uma cidade que não tinha nada de estúpido.
Os casais trocavam as agendas só para confirmar
os casos extraconjugais, e haver aceitação depois dos gritos.
Assim se descobriu na cidade que os gritos limpam pigarros,
espantam pássaros e atraem o vendedor de ovos até a porta.
Os habitantes eram cordatos. Alguns fazem algazarra
até alta madrugada, acelerando os carros para recarregar as baterias
e a música não seja intermitente. Depois dormem até alta manhã
e quase viram o dia adormecidos só para que o coxo
e os velhos insones não digam que não desfrutaram do silêncio.
Na primeira cidade, às vezes cai uma calha
e às vezes calha de haver homens ignorantes e sábios.
e às vezes calha de haver homens ignorantes e sábios.
Delmo Montenegro
De
vez enquanto me defronto com um livro de Delmo Montenegro nos montes de queima
das livrarias (atraem-me os livros de ponta de estoque, pois geralmente sobram
aqueles de aventuras experimentais, obras que não atraem consumidores em busca por
diversão, confiantes naquilo que está aclamado pela crítica ou mesmo por temas
de fácil compreensão para o nível de formação dos leitores em causa). Manuseio o
exemplar e fico ali estupefato diante da somatória de desenhos e dispersão das
palavras em busca de junção que me esclareça ou comova algum dos meus nervos.
Ciao cadáver,
além de outras visualidades, contém diversas gravuras recortadas de partituras
musicais. A primeira dificuldade advém de meu despreparo para leitura de qualquer
notação musical. As notas abaixo ou acima na ordem das linhas não passam de
pássaros que decidiram se assentar numa determinada ordem dos fios, e não em
outra diversidade. Podemos dizer que a beleza do mundo é essa casualidade da
posição em que o pássaro ou o homem se instala na realidade. E por que não
podemos dizer o mesmo da poesia? O poema é a junção de determinados elementos
que o poeta arrancou de seu inconsciente para estruturar um arranjo que possa
ser exibido. Dois poetas jamais poderão compor um poema de forma idêntica, se
suas “tabula rasa” não se correspondem no preenchimento.
Delmo
Montenegro vem de uma corrente da poesia em que se agregam poetas
autoconfiantes na política de divulgação que estabeleceram e na poética econômica
de composição que vêm definindo, sem prática da expressão lírica, talvez de
exigência de interpretação para impor significado ou aproximação do leitor à
abertura expressiva do texto poético. Nem sempre o leitor consegue aproximar-se
do texto já que não está ou não participou do universo arqueológico do autor. Uma
corrente em linhagem direta de Sebastião Uchoa Leite e que conta com Frederico
Barbosa como expressão máxima. Delmo Montenegro desalinha o seu tanto com o
grupo em razão da inserção da visualidade e da soltura das palavras, eliminando
a necessidade da constância frasal. Tanto poderá ser uma obra que servirá de
marco como outra qualquer que apodrecerá com o monturo. A edição de Ciao cadáver é de 2005. Faço a leitura
em 2018. Um período agourento de 13 anos. Como não estou aderido ao agouro, não
posso decretar o seu falecimento, prefiro insurgência ou ressurgência.
Num
primeiro momento, por não dominar o italiano e muito menos qualquer língua,
achei que o título do livro do Dalmo Montenegro quisesse dizer “Tchau cadáver”,
mas aí não corresponderia à realidade de um tempo de derruição, de desventura,
pois estamos vivendo um momento de convivência morta, suspeita, indiferente.
Não conseguimos satisfação dentro da ordem ou desordem da cidade, do trânsito,
de nosso quarto, de nossa política, do diálogo. E muito menos da linguagem da
poesia. Dei a googuda e descobri que o título remete – com justiça – para esta
necessidade de o poeta se deparar com a sua realidade, coabitar com ela, com
ela se confundir.
“Ciao”
foi escolhida como uma luva para fazer o arranjo poético do tempo que vivemos,
pois é uma palavra que não só dá adeus ao cadáver, mas, acima de tudo, saúda o
nosso tempo, que é um cadáver que se exaure e expõe a podridão. Ei, oi, olá,
cadáver, o poeta te saúda. E saúdo a ousadia de Delmo Montenegro pela coragem
de incomodar a leitura ou a inleitura com o seu livro Ciao cadáver.
É
um livro que, se não move nenhum dos meus nervos, empurra-me para outro espaço
da habitação da poesia. Sinto, com esse livro, que muita poesia que se faz,
atualmente, não chegou nem à infância do que é preciso ser feito da linguagem
poética num tempo de exaustão. Sou um G. H., pois se não consegui engolir a
barata, pelo menos a deixei na boca para aumentar a salivação. Quem não se
permite salivar com a estranheza não compreende a sobrevivência. A
sobrevivência da poesia depende da experiência e de novos arranjos dos
elementos que vão entrando no insciente dos poetas.
Leiamos
Byung-Chul Han e vamos ver que a realidade não está fácil e, no entanto, pode
ser compreendida e vivida. Toda realidade, enfim, é vivenciada. Não há fuga. O
niilismo tentou tirar o real ou o homem da real, mas tudo continua aí. Falta
cair na real e se ordenar dentro de um novo arranjo, inclusive num novo arranjo
da dicção, da expressão de si mesmo. O que me expresso não me interessa mais e
muito menos interessa ao outro. Vamos em frente então com a possível ou
implausível linguagem, ou não-vida. Olá, cadáver. Para haver um cadáver, o
homem é o assassino. O homem assassina a realidade e, dentro dela, assassina a
linguagem.
Não
precisamos nos desiludir nem como críticos nem como assassino. Só com o
assassínio há inversão ou reinvenção. Por que a guilhotina sobreviveu até 1977?
Produzimos para o monturo, para picotar e reciclar. Reproduzimos para
aprisionar e decapitar.
Assinar:
Postagens (Atom)
https://www.blogger.com/blog/post/edit/4843398825678420679/452811239808696688
Novamente Anitta
Duas atividades movem a minha vida: ver a floração da natureza e a proximidade da arte. Uma volta na quadra sempre confirma que a natureza ...
-
Para Mariza Buslik Sou aficionado pela origem das palavras e pelos diversos significados que elas vão ganhando durante os desdobramentos dos...
-
Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como ...
-
Sempre desejei presenciar a peça "O impossivel", de Maria Martins, a única artista surrealista brasileira. Ao comparecer ao museu ...







