1 de março de 2015

Enquanto o engano

Continuo no ponto de espera enquanto
há o engano na duração de uma lua
com a extinção da água na cornucópia de Orfeu
Nos barris negros enquanto não foram vapor
e nem me interpor nas curvas das assinaturas
entre os acordos das coordenadas
Na fixação do rosto na podridão do assédio
e ser assaltado pelo despudor da falha dentária

To be/não me engano com a mão
empurrada para o vértice das pernas
enquanto se apresentam as moscas sicilianas
que vieram de um diálogo do filme de Losey
Não me engano pela troca da espingarda
pelos acres de terra/ficar este ser
sem onde atirar/mirar ao Norte
entre os saltos das ondas do bestiário

Não é por ludíbrio que todos se ausentam
Talvez por conhecer os estirões nos joelhos
a desnecessária vara do pau-de-arara
Talvez pelo balde vazio/pela covardia
de não se mover no engarrafamento
Acreditar-se com a riqueza enviada
pelas barreiras do câmbio suíço
e ter de balançar o berço de talas do Calvário

Curto meu ócio/minha viagem habitada por bivalves
que ofuscam as vulvas do significado
Aguardo desde o movimento boreal
Desde a constância da eliminação do adversário
A minha estrada não é aquela em ponho meus pés
em que faço mira com minha espingarda
Em bocainas de secos mirtilos/sigo para povoar
o mundo com nossa falta de ovário

27 de janeiro de 2015

Astier Basílio



Republico aqui a resenha que Astier Basílio publicou sobre o meu livro Ruínas ao sol. Deixo-a na íntegra, pois tem uma importância enorme para mim, pela sinceridade, pela leitura consciente de meu livro. Pois esse excesso de repetição vem do mundo entediado em que vivemos, que está resultando na violência da elite em quebrar as cidades. Basta ver o romance Terroristas do milênio, de J. G. Ballard.


Jornal da Paraíba, em 28 de outubro de 2006

Uma travessia entre o inusitado e o estranho

A poesia do goiano Salomão Sousa joga com o manejo da linguagem, mas o efeito se perde coma repetição excessiva de recursos

Astier Basílio

Há poetas que apostam no pensamento, outros na fragmentação e no desmonte, por sua vez, há aqueles que investem na linguagem. É dessa família que pertence o goiano, radicado em Brasília, Salomão Sousa. Prova disso é seu livro Ruínas ao Sol (7 Letras, 86 págs., 2006). A obra foi a vencedora do Festival de Poesia de Goyaz, deste ano.
Na linha encantatória e com apelos eloqüentes aos aspectos visuais e sensitivo feitos através do uso da metáfora, que comparece em sua estrutura visionária, repleta de estranhamentos e de associações pouco usuais, a poesia de Salomão trabalha com o inusitado e o estranho.
É o que podemos ver em construções como “aceitar os escombros/ as moscas da febre/as magras pontes sem nossas sombras”, ou “Onde as sementes desejam/ voam plumas e se confundem/ com líquidas libélulas de sol”e“com os idílios dos erros nós remamos”.
O livro nos remete a uma espécie de travessia, sem lugar e em todos os lugares. A paisagem é o palco para as errâncias da linguagem que não cede aos regimentos lógicos, antes resvala pelo terreno do surrealismo. Os poemas
não têm título.
O que sugere este horizonte circular e mútuo, como se um único poema se desdobrasse em movimentos, promovendo avanços e recuos, mas sem a intenção de chegar. É o que se pode ver nestes belos versos: “Estarás em qualquer/ilegível estrela ou estrada/ irei recolhendo tuas roupas/todas em rasgos/ só eu posso te encontrar/ no instante em que fores louca”.
Era como se o poeta quisesse sinalizar que não há saída fora da linguagem, que não haveria salvação fora da palavra. Esta é a impressão que tenho ao ler versos como “ninguém terá de imaginar fugas/ mentir às brumas dos brâmanes/ ninguém ficará sem saídas/ nas curvas do labirinto/ninguém terá de terminar”. O poeta quer seguir o seu deserto de dentro. É o que vemos nesta verdadeira profissão de fé: “Não se apresenta nenhum nirvana/e talvez nada seja em vão/não reclamo da andadura/ não levo me a nenhuma caravana/sem visagens e sem cântaro”.
Ruínas ao Sol é um título extremamente significativo. Salomão ativa vários sentidos aí. Podemos lê-lo como a descontinuidade do amanhã, o tempo e seus entre-lugares, numa referência à pós-modernidade, terreno movediço de vozes. Se é no manejo da linguagem o ponto alto do goiano e neste mesmo expediente que decorrem os momentos menos felizes do livro, justamente, por conta do abuso deste recurso, que à repetição excessiva, acaba perdendo seu efeito surpreendente.

21 de janeiro de 2015

TV Justiça

Concedi uma entrevista à TV Justiça, para o progtama Iluminuras. Deixo aqui as respostas para a pré-produçao da entrevista. Assim que tiver o link do vídeo, divulgarei aqui. 
Qual é sua formação? E sua ocupação atual?
Sou formado em Comunicação Social, pelo CEUB. Sou concursado do antigo DASP para a àrea de Comunicação Social, e acabei me especializando em processo legislativo, pois sempre trabalhei em relações com o Congresso Nacional. Atualmente, sou o chefe da Assessoria para Acompanhamento Parlamentar, do Ministério da Fazenda, que é o meu órgão de origem.

- Qual é o primeiro livro que você se lembra de ter lido e a impressão que teve dele?
É difícil remontar a história da minha primeira experiência de leitura. Fui alfabetizado em casa, começando às minhas leituras por livros de cordel, ainda criança. Talvez o primeira livro de literatura que eu tenha lido tenha sido Iracema, de José de Alencar. Mas desde o início já me encanta a própria trama dos livros. Até livros de história eu leio como algo romanesco, pois tudo, neste mundo parece fictício. Ainda recentemente, li um livro de história da Segunda Guerra Mundial e julgava, enquanto lia, que aquilo tudo, seis mil blindados no confronto de Stalingrado, só poderia ser algo de ficção científica.

- Onde você nasceu? Sua cultura lhe influenciou nas primeiras leituras?
Nasci numa pequena fazenda, sem muitos recursos, na beira do rio Calvo, no município de Silvania. Mudamos para Silvania quando eu tinha doze anos. Como eu estava alfabetizado, tive logo contato com a biblioteca pública da cidade. Onde estavam poetas brasileiros, sobretudo Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo. E também alguns parnasianos. Mas o que me ajudou muito foram as minhas próprias ações. Eu precisava de leitura para preencher minha solidão. Um comerciante assinava jornais para fazer papel de embrulho. Eu me propus a buscar os jornais na agência, e em troca lia os jornais. Assim lia jornais de São Paulo e Rio de Janeiro.

- E a paixão pelas letras, de onde veio?
Começar a escrever veio dos próprios desafios pessoais. Um andarilho lançou um jornal na cidade e eu, lendo poesia quase todos os dias, desejei publicar um poema naquele jornal. Devia estar com uns dezesseis anos. O poema foi publicado. Como fui aclamado poeta, a poesia passou a integrar as minhas atividades cotidianas. Para começar a publicar poemas em suplementos de Goiânia, foi um pulo. E nunca deixei de me relacionar com pessoas ligadas à cultura. Em Silvania, ainda jovem, conversava com os notáveis da cidade, que se preocupavam com a cultura ou escreviam poesia ou outros textos. Em Brasília, assim que cheguei, procurei me relacionar com escritores e a frequentar a Associação Nacional de Escritores. Além do mais, sempre me correspondia com autores de todo o país. É necessário ter vontade de fazer.

- O que gosta de ler? (contos, crônicas, poesias?)
Gostos de ler todos os gêneros. Principalmente os clássicos. Hoje gosto de textos inteligentes. Em cada época estamos preparados para determinada leitura. Não podemos ler Proust aos 15 anos. 

- Quais autores você mais lê?
Em poesia: Rilke, Fernando Pessoa, Kavafis. Em Ficção: tenho sempre ansiedade de reler Dostóievski, Melville, Mahfuz. E uma centena de outros.

- Fale um pouco sobre o processo de criação de seu livro?
O meu processo de criação foi evoluindo ao longo de minha vida. No início, era uma criação introspectiva, ligada às impressões pessoais aliadas á realidade. Agora, aliou-se a este processo a necessidade de infinita reescritura. Parece que o poema demora a ficar pronto.

- Tem outra obra a caminho?
Está quase pronta. É um novo livro de poemas. Um livro grande, bem maduro. Tabua da memória é seu título. Trabalha com a questão da linguagem das redes sociais e das questões da história atual, sobretudo urbanas.

- Qual tema mais te agrada tratar em sua obras e por que?
Tenho grande dificuldade com a lírica amorosa. Essa falsa lírica mata a maioria dos poetas brasileiros. A verdadeira poesia trata da realidade, da metafísica. A poesia é o formato de transgressão do cotidiano.

- Alguma peculiaridade em sua carreira?
Não vejo algo que sobressaia excessivamente na minha carreira. Ou se existe uma carreira. Ainda sou pouco lido. Apesar de a rede social vir auxiliando na melhor exposição de meu trabalho. Saí de uma poesia ligada às origens para chegar a um texto mais denso, neobarroco. E isso tem trazido mais receptividade ao meu trabalho.

- Você gostaria de acrescentar mais alguma informação/fato curioso?
A literatura é um formato de expansão da vida, sobretudo pela intensidade das amizades. O prazer de ler esta sempre aliado ao prazer da amizade, pois precisamos partilhar a experiência de viver, aí incluída a experiência da leitura.

19 de dezembro de 2014

Delirium Tremens




Trata-se da edição da renga Delirium Tremens (ver e-book do livro), feita a seis mãos com Poesia Iberoamericana Antonio Miranda e Zenilton Gayoso, pelo selo Poexílio, do Antonio Miranda. São edições totalmente artesanais, raríssimas. Quatro exemplares para cada autor. Logo divulgaremos o e-book do livro. São treze poemas de cada autor e as gravuras instigantes do Zenilton Miranda. Foi uma honra dividir este trabalho com dois amigos tão valiosos e talentosos. A parceria ainda renderá muitos frutos.

7 de novembro de 2014

Mão



Se este é o desejo/a tua reclamação
dar mais lírica aos poemas e à cidade
Enchê-los de pessoas para trompaços
e uns com os outros andem pelos braços
Dar o Jesus que não exige chagas
que dá campos abertos cheios de avestruzes
e grandes ovos para as ceias
Tanta generosidade pra dar/fertilidade
tolerância/o voto/dá o calor do fogo
com a madeira/dá tua mão/beijus
qualquer graphia antiga/filiação
de qualquer transexualidade/dá
dá a luz se queres atravessar com claridade
Se tens de escavar alguma velharia
traz um sufixo antigo/filia/e se mais
antigo/philia/dá a lírica da amizade
a rima unida das casas/da vizinhança
desligando o motor/tirando a cruz das costas
Tanta lírica amiga!/rima/vamos ser generosus/
desmilitarizados/sem gênero/philia-te
Usa a mão de teu filho para teu registro
Não haverá desfibrilação se outro não apertar a tecla
Taí a minha rima/a selfie de minha mão

3 de novembro de 2014

Uagadugu



Dizes que primeiro está quem amas
e em segundo teu estrato de alumínio
de cobre para o numerário/o extermínio
mesmo que tua força não aceite a invasão
e tua flâmula não esteja alçada ao parlatório
do determinado dia/E de alguma franja
te esqueces ou metes no torneado do mapa

Cai o prepotente diante da gente de Uagadugu

Entre tu e as estações da disputa
trafega a euforia/e não veste pele
de animais ou lota vagões atingidos pela derrota
Tremula o desejo/emula o que passa
entre os estratos sociais/Não cintila
pois não é atingível tão rápido pela deposição
Entre os espelhos/as praças/que cintilas
nas preferências/o vento perpassa uma areia

Nem sempre a praça é a de Uagadugu/Fu

Não somos o vento para revolver
com a facilidade da ausência/para depositar
sem mostrar as mãos/Por mais selfie
que o rosto se dejete/a mão tem de eleger
a boca tem de aclamar/o corpo ondular
na hora de lavar o túmulo/A tua boca ausente
pode ser uma arma/Depois a esgrima
será com teus olhos na festa da lágrima

Tu e eu/a divergência/Aqui ou em Uagadugu

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Experiência e preocupação políticas

O tempo ficou curto. Será que ainda dá tempo de firmamos uma consciência sobre a ação política que precisamos? A compreensão da política exi...