6 de novembro de 2026

O livreiro Boanerges

Envelhecemos e as lembranças afloram. Com elas à flor da pele, aflora a necessidade de expressá-las. Queremos atenção daqueles que estão na nossa proximidade para nos ouvir. Com as lembranças, esquecemos de ouvir.
Dentre os muitos livreiros que convivo ao longo desse anos em Brasília, me lembro do Boanerges. Eu saía de minha casa, quando ainda residia na Ceilândia, e ia até à Asa Norte para visitá-lo em sua livraria. Era um amigo. Não só meu amigo, mas desses amigos que amam todos que amam os livros.
Só me lembro. Não tenho a sua história pessoal nem o registro de nossos diálogos. Lembro que era quase silencioso, leve. Talvez se alimentasse só da paixão pelos livros. A livraria era pequena, mas conseguia raridades numa época em que as raridades não eram comercializadas a preços abusivos para colecionadores. Mas, naquele tempo, as primeiras edições dos grandes autores brasileiros ainda não eram raridades, mas novidades.
Eu gostaria de ter muitas histórias sobre ele para perturbar muitos interlocutores sobre a importância do trabalho que ele fez pela literatura de Brasília. Não só pela literatura, mas pela formação de leitores. Quantos livros circularam por suas mãos?
Ele escrevia também, mas me lembro apenas do livreiro. Me lembro de seu corpo frágil, de sua voz débil. Mas a cultura não exige grito ou bíceps volumosos. A leitura é o fisiculturismo da mente.
Ajuda-me a manter a memória de Boanerges, o livreiro. Ele se registrou na história da cultura de Brasília.
Eu e o Boanerges poderíamos morar em Macondo. Lá todos tem o mesmo nome. Não para fazer confusão, mas para demonstrar que todos nós somos a mesma pessoa. Se um deseja guerra, todos guerreiam. Se um busca o Amor, todos amam. Se um deseja Paz, todos vivem em Paz. 

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O livreiro Boanerges

Envelhecemos e as lembranças afloram. Com elas à flor da pele, aflora a necessidade de expressá-las. Queremos atenção daqueles que estão na ...