quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Uma poesia simpática ao musgo



Fiz a leitura dos livros Intimidade (2016) e O Ganges represado (2019), de Daniel Francoy (1979), simultaneamente com a Autobiografia intelectual, de Karl Popper. Assim, as minhas primeiras indagações sobre a poesia do autor de Ribeiro Preto (SP) se apegam a questões relacionadas à necessidade de conhecimento para a prática literária e de interferência da experiência biográfica no processo de composição. Considerando que, na visão de Popper, a Arte não é puramente expressão, mas o desenvolvimento de “habilidade artesanal e outras capacidades” para produzir com ambição, vale indagar se − para tornar-se arte − a poesia de Daniel Francoy é “a expressão de um estado íntimo, de emoção e de uma personalidade”, que revistam a sua obra com completude?
Sem intimidade com as questões da vida cotidiana de Daniel Francoy, torna-se difícil aprofundar-se na análise da interferência das questões biográficas imprimidas em seus poemas, apesar de ele ter escrito um livro sobre as experiências urbanas com a cidade de Ribeirão Preto (A invenção dos subúrbios, 2018), onde o poeta se comporta como “uma espécie nova de flaneur pós-drummondiano”, conforme descrito no portfólio do livro. E, certamente, conhecimento é fator preponderante em sua formação, pois a Advocacia inclui estudos de Ciências Humanas tal como a Filosofia. Sem desconhecer que ele declara que pratica poesia desde os 17 anos, com influências de autores canônicos irrefutáveis (Eliot, Kaváfis, Bandeira, Drummond), cabendo pressupor que é vasta a experiência adquirida através do contato com a obra de outros poetas.




Optar-se pela temática da cidade já é uma decisão, considerando que o poeta do início do Século XXI lida com uma série de dificuldades para definição de uma linguagem diferenciada. Há travas para escolha da temática e da forma. Qualquer caminho pelo qual o escritor se enverede, fica a impressão de que a chegada, como nas corridas de obstáculos ou de Fórmula 1, vai se dar na mesma demarcação. Dentro dessa experiência com a realidade, é necessário conformar-se ao percurso.

Alguma beleza retorna (...)
com os jovens ao redor das piscinas

Faço-me acreditar que ainda é tempo
de replantar e entregar a terra
à ingovernável resistência dos roseirais (...).

Firma-se sobre o poema “Cinzas” a crença de que “não é a podridão” que deve sobreviver. A opção de Daniel Francoy não é só pela cidade, mas, sobretudo pela esperança, na resistência dos roseirais contra a podridão. “Eu vigio a minha esperança”, intercalando gritos de denúncia contra mazelas do presente e do passado (assassinos, violência, napalm). Para essa vigília da esperança, vale-se, talvez em excesso, das raízes drummondianas.         
Ainda que não tenha resolvido todos os entraves de seu processo criativo − basta ver a obsessão drummondiana e mesmo a hierarquização excessiva na composição descritiva do cotidiano −, Daniel Francoy torna-se um dos poetas que merece ser observado e ser seguido entre os tantos que tateiam e margeiam o atual percurso da Poesia Brasileira. Ele atua com a ambição de construir, de deixar algo acabado, independentemente de o destino ser previsível, com descarte do que seria só registro e anotação. Conclui seus poemas como artefato artesanal, onde qualquer nervura excedente anularia os arranjos da habilidade aplicada com propósito de apresentação de elemento que veio da realidade e que a ela terá de retornar.
Logo no primeiro poema do livro Intimidade, que pelo título fica deliberada a decisão de não se afastar excessivamente de si e do que envolve seu percurso, os versos “os dias retornam à repetição” e “muitas raízes entre a terra revolvida”, indicam que a composição vai ocorrer a partir da tradição pré-existente no terreno a ser palmilhado (devastada?). A escavação vai se dar – e se dá – em solo ocupado. No entanto, alguns podem plantar desânimo e outros podem decidir por sementes de cânhamo. O problema, então, não é a terra que se escava, mas a forma como autor decide entrelaçar as próprias raízes para sobressair entre as demais.
Na evolução do poeta Daniel Francoy – citemos os poemas “Aurora” e “Claridade” –, o processo de criação se cristaliza em peças espontâneas, inteligentes, dando a impressão de que o tema em si é o menos relevante. O poema é o poema e não a “aurora” ou “claridade”, realizando-se dentro de choques de elementos, “leite negro derramado/sobre um início de luz, sobre/uma pétala oscilante de claridade, /que não cai e não plana (...)”. O artesanal será sempre o mesmo em qualquer produção poética: choque de elementos antagônicos (leite negro/pétala oscilante de claridade), aliterações quase óbvias em ro e ra (claro-escuro da aurora), em s/e (secas, escuras) e ainda alguma repetição (a palavra treva/a palavra sem frutos). O poema com suas respirações internas, em repetições que se alternam com sutil troca de elementos, enfim. Francoy não vem só para dar um oi − obriga-nos a respirar com a sua poesia.
Seguindo a ordem dos poetas canônicos por ele adotados, há a visibilidade de Kaváfis nos versos “os bárbaros que já aqui chegaram/e construíram família”. Discordo, às vezes, da modalidade de notação do tempo adotada por Francoy. É desnecessário, por exemplo, colocar a palavra hoje num verso como este: “Hoje as ruas estão ermas”. A expressão “já aqui” também funciona como uma expressão delimitadora de tempo, inibidora do aumento do significante e da sonoridade do verso. No poema “Cinzas”, poderia ser eliminada a expressão “no final dos dias” para desaparecimento do tom naturalista imprimido à peça poética. De qualquer forma, “hoje” “todos os dias”, “no final dos dias” e “já aqui” não serão um dia ou os dias ou um local específico. Nada se acrescenta a um poema com a datação de uma noite, deste dia, ou qualquer outro acréscimo. Nada se acrescenta ao poema com o verso “Outra noite saímos”, a não ser algo de prosaico. O que se deve destacar, como bem diz Popper, é a habilidade artesanal de tratamento para amplitude do significado daquilo que está sendo abordado ou criado. É importante a eliminação de qualquer elemento que funcione como uma placa num edifício. Mas a atualização da expressão de Kaváfis demonstra a ambição de Daniel Francoy de participar de forma crítica de seu tempo, onde os bárbaros somos nós ou estão instalados “já aqui” ao nosso lado. Se os bárbaros somos nós, nós somos a solução; se eles se instalaram em nossa realidade, eles não são um problema.
Como estamos falando de Kaváfis, importante lembrar que ele sempre reconstruía seus poemas. Mantinha uma bancada em casa, onde os poemas impressos eram mantidos em pilhas soltas. Montava reunião de poemas para distribuição de coleções deles presas por grampos. Quando refazia um poema, enviava-o a quem detinha uma dessas coleções para que fosse feita a substituição. Portanto, é natural que, com a evolução do conhecimento dos aspectos artesanais do processo criativo, o poeta possa adotar método de revisão a qualquer momento, independente de os poemas terem sido publicados.  O caso de reformulação de um poema que mais ressalta na poesia brasileira é de “Mocidade e morte”, de Castro Alves, basta ver a valiosa análise de Lêdo Ivo sobre as duas versões existentes.  Em estudo, Arnaldo Niskier trata do assunto:

Lêdo Ivo aponta como defeitos de Castro Alves as negligências e limitações, ''que só os poetas manifestamente geniais têm o direito e até o dever de ostentar''.

Manuel Bandeira também elogia em Itinerário de Pasárgada as alterações introduzidas no poema por Castro Alves. Portanto, “os defeitos” podem persistir nas obras dos escritores geniais. Catar feijão é uma forma de matar o tédio e buscar “defeitos” na literatura é uma forma de o leitor crítico testar a própria intolerância. O tempo e a crítica vão dizer se Daniel Francoy é um gênio, com direito a legar defeitos.
No livro de 2019, O Ganges represado, − independente de nele permanecerem momentos bem descritivos da realidade−, Daniel Francoy avança no adensamento das metáforas, na acumulação crítica de eventos históricos e detém-se na organização do espaço do poema para ebulição de alguma vida represada. Não é uma poesia simplesmente feita de leituras de Drummond, Bandeira, Eliot ou Kaváfis como ele declara em entrevista. Os “Poemas paralelos”, “O meu lugar no estado de coisas”, “Foram-se pacificamente nossos mortos”, entre muitos outros, insere Daniel Francoy entre aqueles poetas que tenho buscado pelo ordenamento do poema, por trazer dicção preocupada com o acabamento do texto, a expressão acima da banalidade virtual e de enfrentamento dos desastres impostos pela realidade. Não é suficiente o grito, mas o ordenamento do som, do muro ou da mudez. E ele se esforça e consegue transformar o existente grunhido do real em poesia.  Nota-se que além da fruição e domínio do ato de compor, há esforço em ordenar a composição, ajustá-lo à espacialidade e ao equilíbrio dos significantes.
É mais fácil saber quando um poema não se realiza, que um poeta é chato, que um poema é óbvio ou banal, do que identificar um poeta que se insere numa época, com um processo criativo que valida o que produz. Acredito que nem sempre é necessário ser áspero, mas, para enfrentamento da aspereza do tempo atual, o poeta, necessariamente, deve abolir a metáfora choromingueira, mantendo a superfície espinhenta, sem eliminar de dentro algo vivo como o porco espinho. Poetas como Ronaldo Costa Fernandes e Alberto Bresciani cumprem esse papel de construção da aspereza. Alberto Pucheu e Jamesson Buarque cumprem a construção de poemas fechados, tais como verbetes de expressiva enciclopédia. Em Daniel Francoy, há sutilidade na aspereza, tanto que o poeta chega a ser “simpático ao musgo”.

Após a leitura crítica, retornei aos livros em vários momentos e os poemas continuaram a me afetar emocionalmente. Torço para que Daniel Francoy permaneça ativo, evoluindo a técnica artesanal e sempre atento ao seu tempo. A poesia está carecendo dessa franqueza, dessa energia, sem temer absorção de problemáticas cotidianas.


sábado, 27 de julho de 2019

Hoje podem me visitar com narrativas bem banais
A sobrinha Hariclia para passar a tarde
e poderá arremessar no lixo os meus livros
depois de contar a inutilidade da existência
de um talher quebrado, do fungo amarelo
que nas árvores e nos frutos enfeita as cascas

Não alegarei que tenho de visitar Hari
ou de denunciar o serralheiro a surrar chapas
sobre os telhados decadentes de uma viúva
Não usarei de subterfúgios para espantar o que chega
Quem for visita em Alexandria irá se sentar
em limpas cadeiras de veludo esfarrapado
e ouvirá os poemas Itaca e Deus abandona Antônio

Com uma visita não estarei abandonado
no frio hostil aos meus ossos, na rua com ameaças
ao voo do sanhaço assustado e faminto
A visita poderá rejeitar os feitos de Hafiz,
assumir que não há fome, que não há desejo,
o destroço numa encosta ou cajás grátis
só porque são ácidos e de entremeadas nervuras
Dourada sineta aguarda quem a acionará

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Resenha de autoria de meu amigo Wil Prado


     Luiz Philippe Torelly, premiado arquiteto, faz sua estreia na literatura com o pé direito. E pé alto, como bom arquiteto que é. “MEMÓRIA E PATRIMÔNIO” está dividido em duas partes. Na primeira, o autor invoca episódios da sua infância, adolescência e juventude em crônicas um tanto líricas, que celebram encontros pessoais, como também suas opções artísticas e ideológicas. A segunda, composta de pequenos ensaios urbanísticos — mais compromissados, talvez, com a clareza das ideias do que o rigor científico — nos remete à área patrimonial arquitetônica (menina dos olhos do autor) e à sustentabilidade cultural e ambiental, reproduzindo artigos já publicados em jornais e revistas científicas, via “Arquitextos” e outras.
     Vamos saber um pouco desse carioca-brasiliense aqui desembarcado aos cinco anos de idade, em 1960, anos da inauguração de Brasília, vindo da antiga capital, o Rio de Janeiro. Enquanto ele cumpria o currículo da adolescência, com festas em apartamentos, luaus etílicos-musicais em acampamentos à beira do Lago Paranoá ou nas cachoeiras dentro e no entorno do quadradinho.  O pai (seu maior ídolo), Eloy Torelly, nas suas horas de ócio como assessor de senador, colaborava em jornais locais, criando a coluna do “Professor Alan Bic”, onde destilaria todo o seu humor boêmio e debochado, seguindo os passos do seu famoso parente, o humorista Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”.    
      Um pequeno perfil profissional do autor. Foi picado desde cedo pela mosca azul do socialismo, via leituras de grandes pensadores de esquerda, como Marx, Engels, Marcuse e Walter Benjamin.  Formou-se em arquitetura na UnB, e, como arquiteto, fez carreira na Caixa Econômica, com projetos premiados, destacando-se como o Arquiteto do Ano, em 1915. Mas já antes vinha flertando com a política, ligando-se ao Sindicato dos Arquitetos, que chegou a presidir, nos anos de chumbo da ditadura. Com os novos ares democráticos, viria ascender à relevantes cargos, como o de Secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano no governo Cristóvão Buarque e, depois, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico —IPHAN.                                  
      Como não tenho formação técnica para alcançar os voos ensaísticos do autor (respeitados e premiados nacionalmente), limito-me à comentar as crônicas.  “O dia D”, que abre o volume, recorda as suas primeiras impressões ao desembarcar com a mãe e os irmãos (o pai, já em Brasília, os esperava no aeroporto) no Planalto Central do país.  Em “Esperando Vera”, vivemos a perspectiva um tanto excitante de dois jovens, em um badalado bar carioca, diante do aparecimento de um mito erótico da época, a atriz e modelo Vera Fischer. E desemboca em comentários de livros (“São Bernardo”) e autores prediletos (Sartre, Mario de Andrade, Drummond e Celso Furtado, entre outros).
       Para fechar, não resisti à tentação de transcrever essa bela passagem, que nos traz o cheiro de terra, de chuva e de infância:

                                                                               SECA
                 
             Eu gosto da seca. Do céu sempre azul. Das cores que vão gradativamente
             esmaecendo. Da obliquidade da luz. Da terra vermelha que me faz lembrar da
             infância e do caminho para a escola, da “japona” de flanela azul que minha
             avó costurava. Das manhãs e das noites frias. Das fogueiras. Do céu estrelado
             onde podemos reconhecer as constelações e sentir a amplitude do universo.
             das floradas dos ipês, das sibipirunas, das sucupiras, dos guapuruvus, das
             flamboyants, dos bougainvilles, das mangueiras, prenunciando os frutos da
             primavera. E da primeira chuva, que sentencia seu fim e espalha um perfume
             de renascimento e esperança.

     Desconfiamos que o autor tem mais crônicas engavetadas (ou pela menos adormecidas na memória), e desde já esperamos que ele venha nos brindar, senão com um novo livro, ao menos com uma segunda edição ampliada deste.



 Wil Prado
Autor de “Sob as sombras da agonia” (Chiado Editora)  e “Um vulto dentro da noite”, em formato digital, pela Amazon.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

2019 Agenda Salomão Sousa



30 de maio – debate, com lançamento, na Academia Goiana de Letras (Argumentações a partir de Byang-Chul Han).

Dia 31 – debate, com lançamento, no Museu Frei Confaloni, na Estação Ferroviária de Goiânia, às 18 horas (Do processo criativo ao poema).


Dia 4 de junho – lançamento dos livros Desmanche I e Poética e Andorinhas no Beirute (109 Sul, Brasília).


Dia 14 de junho – lançamento dos livros Desmanche I e Poética e Andorinhas na Estação do Escritor como parte da programação da Feira do Livro de Brasília, que será realizada na área externa do Museu da República.


Em agosto/setembro – em datas a serem definidas: participação de jornada de escritores de municípios goianos e Distrito Federal, que será realizada em Silvânia (GO).
 
Mote para tempos atuais


O debate leva o indivíduo a compreender até aqueles posicionamentos irracionais que julgava irremovíveis em si mesmo. Por isso, as tentativas de negar o acesso ao conhecimento – o poder (econômico e político) sabe que, sem ele, oferecemos concordância ao que ele deseja. Sem argumentação, que gera narrativas mitológicas e de compreensão das camadas da realidade, aceitamos a proposta de ficar sem o filosófico, o antropológico, o histórico. No consumo (até a literatura e a política integram os produtos do marketing), a humanidade vai se trancafiando no ambiente depressivo. A juventude, quando descobre o processo, se filia ao terrorismo e às milícias, pois é o que lhes resta para busca de expressão corporal, de aventura, dor e surpresa. Enfim, a experiência fora do virtual.


Ser livre é poder realizar junto, mas estamos abrindo mão dessa liberdade, passando a ser vítimas, pois entregamos ao poder, sem discussão, a capacidade de decidir nossos destinos e de nossos direitos. Somos democratas quando a nossa argumentação compreende, questiona, acrescenta e participa, quando permitimos a livre criatividade e a livre informação. Só somos livres quando não somos otimizados para a aceitação da proposta, quando participamos da construção do projeto e dele usufruímos; quando somos elementos da comunidade e nos reconhecemos cidadãos.


Há urgência de ampliação dos espaços de argumentação para inclusão do indivíduo à realidade, com seus cheiros, texturas, sabores, nascimentos e apodrecimentos, para libertação do depressivo do ato de viver isolado. A literatura precisa assumir a ação profanadora, narrativa, capaz de compreender a realidade, fora das repetições fáceis das mensagens cifradas. O poeta não pode se propor a ser o sujeito da sujeição, mas ser o da criação do inesperado. Só o inesperado, que o conhecimento (aí a poesia) cria, livra o homem de ser simples dado do big-data. Só com cultura e educação o indivíduo deixa de ser incluído no algoritmo, onde somos classificados como consumidores de produtos, sejam eles a política, a geladeira ou a máscara.
 
Livros dos lançamentos


Como parte das comemorações dos 40 anos de seu primeiro livro, Salomão Sousa lança no Beirute, 109 Sul, os livros Desmanche I, de poemas, e Poética e andorinhas, que traz textos híbridos, em que aborda questões sobre comportamento social e dá prosseguimento à montagem de uma compreensão da atual poesia brasileira, destacando a obra de novos poetas de vários Estados, dando expressão a José Godoy Garcia e inserindo análise de comportamento social.


Na poesia de Desmanche I, Salomão Sousa desistiu de temáticas que trouxessem limites excessivos à execução do projeto. Durante a composição, quando se debruçava para coleta das palavras, usava o que interpunham a memória e o olhar ou o olhar da memória, em contundente acumula­ção despojada de moralidade. O real deixou de ser real pela atividade esfaceladora de sua ocupação. O real não é definitivo, transforma-se numa estrutura desmontável, transferível. Se há uma originalidade, esta está no percurso, no desmanche e no ato desesperado de se ver esgarçado pelo desgaste. É bom reparar que, no conceito de desman­che, tudo cheira a logro; mas há logro maior do que o que há de trân­sito na ambiência política, na ambiência social e comercial? Sobre Desmanche I, o poeta Sérgio de Castro Pinto, no jornal “Contraponto”, da Paraíba, diz que, com esse livro, o poeta “Salomão Sousa submete a desmanche a máquina do mundo a partir de uma linguagem que, para muitos pode soar como uma sintaxe invisível, mas que, na verdade, está a exigir do crítico, do ensaísta, uma exegese mais apurada, livre de postura cartesiana com que costumamos administrar a realidade. Desmanche I situa Salomão Sousa num espaço à parte no âmbito da poesia brasileira contemporânea”. Na rede Social, a poeta Sônia Elisabeth, de Goiânia, proclama que “Sempre procuro comentar a escrita de Salomão Sousa, esse poeta de Silvânia (GO), morador de Brasília (DF), que não se verga e que luta pela palavra com dinamismo, força e coragem, num sentido épico e inovador de apresenta-la e nos oferecer sempre o novo, o dialético”.


domingo, 5 de maio de 2019

PRADO


Volto sempre a Harold Bloom para ativar a forma de pensar e de ordenar as escolhas de leitura e, também, para que a mente não adormeça no ócio. Vejo interpretação em tudo que deposito o olhar, por isso Sinésio Dioliveira sinalizou que não fotografo, pois tiro o olhar do objeto. Preocupo-me com o que danifica a prática poética de nosso tempo. O homem atual só re­conhece o que molda em seu desejo, e desmerece o que o outro deseja ver. Bloom me socorre na questão com o conceito de su­blime, de Longino. O conteúdo de uma obra tem de nos provocar estranheza. Ocorre que não é uma estranheza por ser “estranho”, mas de espanto no espírito. Um dos versos que mais gosto é de Boris Pasternak: viver é algo mais do que atravessar um prado. Assim vejo numa tradução. Talvez pudéssemos simplificar a tradução: viver não é simplesmente atravessar um prado. Mas o que tem de es­tranheza nisso? Não é belo um prado em si e mais belo ainda, simplesmente, por hauri-lo? A estranheza, pelo menos assim vejo, é ser levado a se sentir fora da travessia do prado. Se viver fosse estar só dentro do prado, o verso não teria mais nenhum motivo de existência. Não estamos permanentemente dentro de um prado e, se estivéssemos, a vida seria assaltada por uma enorme pequeneza de possibilidades. Só teria a possibilidade do prado. Deitado em minha sala, eu diria que

Viver é estar com a porta aberta
para entrar o vento com cheiro de vento

Mas e o cheiro do prado? Do prado da beira do rio Calvo, de uma distante Rússia após algum degelo? A poesia não é dizer o que está posto no verso. É pegar o real e criar algo além do ideológico, como reconhece Bloom: o estético demanda profunda subjetividade e está além do alcance da ideologia. Então por que ele diz que falta à atualidade a presença de poetas como Emerson e Whitman para interpretação do mal-estar da cultura? Tenho algumas interpretações para a questão. Primeiramente eu con­cordo com a proposta de Bloom — no mundo da complexidade moderna, foi multiplicado o campo de ação do homem e o poeta não consegue entrar em todas as inserções da inovação. Mas, então, por que o poeta deixa de compreender pelo menos algum ângulo do seu tempo para que possa compreender a si mesmo, sem confusão do que é a lírica? Não sou lírico só quando me foto­grafo. A lírica ocorre com sucesso quando o poeta fotografa com um olhar pessoal e de inteligível estranheza. O poeta — na minha parca compreensão — deixou de se submergir no prado, de intera­gir com ele para que possa se expressar com essa experiência. É necessário ter um trabalho braçal com o prado para depois ter um trabalho corporal com o poema. Eu diria mais: teme ser ideoló­gico — não no sentido partidário, mas de assunção de posiciona­mento diante das desolações de seu tempo — para depois estar imbuído de subjetividade expressiva. Só sou autêntico quando penso por mim mesmo, se meu eu corporal não se referencia pelo que encontra após o prado. Nada que expresso transportará estranheza até o outro. A poesia exige a expressão da libido do real absorvido pela individualidade do poeta. Com poesia, somos o cinamomo.

Viver é abrir a porta para entrar o vento
e atravessa a sala o prado perfumado

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Poema sem título

Não persigo a palavra exata
ou tão afiada que parta uma laranja.
Emiti-la seria extraviar o que sou,
cortante seria destruir um talo.
Eu mesmo não me compreendo,
e se rende a areia à água,
ambos preenchemos a vala.
Eu mesmo me contradigo,
eu mesmo reformulo o que sei
e a dúvida ainda me avassala.

Quanto mais a torço e distorço
a palavra não me livra de outra fala.
Os lábios não calam, perseguem-na
quanto mais se exibe entre as talas.
Repreendo-me sempre que não sei,
sempre que a definição traz outro lado.
O que surpreende a laranja
é que nada aconteça. Balcão de feira,
melaço febril, bico de pássaro.
A sacola, as mãos de uma Natália.

A laranja aguarda ser exposta,
ser surpreendida por um fungo,
por um abrigo na cesta, na taça.
Estendem-se à minha frente as conexões
e me surpreende a incerteza
de quem entrará pela sala.
Não é a escolha que me define,
se nem posso ser laranja ou fungo.
Tenho de exigir uma surpresa
que saiba de antemão colher num galho.

Jorge Luis Borges

Manuscrito encontrado num livro de Joseph Conrad

Nas trêmulas terras que exalam o verão,
o dia é invisível de puro branco.  O dia
é uma estria crual numa gelosia,
um fulgor nas costas e uma febre na paisagem.
Mas a antiga noite é profunda como um jarro
de água côncava. A água se abre para infinitos rastros,
e em ociosas canoas, de cara para as estrelas,
o homem calcula o vago tempo com o cigarro.
A fumaça apaga cinzentas as constelações
remotas. Logo perde pré-história e nome.
O mundo não passa de umas quantas imprecisões.
O rio, o primeiro rio. O homem, o primeiro homem.

tradução: Salomão Sousa

Uma poesia simpática ao musgo

Fiz a leitura dos livros Intimidade (2016) e O Ganges represado (2019), de Daniel Francoy (1979), simultaneamente com a Autobiografia ...