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Mostrando postagens de 2014

Delirium Tremens

Para encerrar o ano, foi concluída a edição da renga Delirium Tremens (ver e-book do livro), feita a seis mãos com Poesia Iberoamericana Antonio Miranda e Zenilton Gayoso, pelo selo Poexílio, do Antonio Miranda. São edições totalmente artesanais, raríssimas. Quatro exemplares para cada autor. Logo divulgaremos o e-book do livro. São treze poemas de cada autor e as gravuras instigantes do Zenilton Miranda. Foi uma honra dividir este trabalho com dois amigos tão valiosos e talentosos. A parceria ainda renderá muitos frutos.

Mão

VI Festival de Poesía Las Lenguas de América Carlos Montemayor

Participei no dia 9 de outubro de 2014 do VI Festival de Poesía Las Lenguas de América Carlos Montemayor, que aconteceu na Sala Nezahualcóyotl, da Universidade Nacional Autônoma do México, com a presença de 3 mil expectadores. Demais poetas convidados: Natalia Toledo e Irma Pineda, que apresentaram o festival, e Hugo Jamioy (kamsá, Colombia); Sheri-D Wilson (inglés, Canadá); Adriana López (tzeltal, México); Vito Apüshana (wayúu, Colombia); Renaud Longchamps (francés, Canadá); Isaac Carrillo (maya, México); Joséphine Bacon (innu, Canadá); Liliana Ancalao (mapuche, Argentina); Ruperta Bautista (tzotzil, México); Mardonio Carballo (náhuatl, México), y Antonio del Toro (español, México). Do noticiário: “El Festival estuvo cargado de emotividad, los versos giraron en torno a diversos temas: el amor, el desamor, la injusticia, las anécdotas entre padre e hijo, las sonrisas, el erotismo, la sexualidad, así como la percepción de la realidad social actual, ejemplo de ello fue el poeta brasileñ…
temor de viver só numa fotografia articulada/crestada com artifícios não ter passado por uma bruma por um dorso/pelas arcadas da avenida por onde anda a sensatez/ser arco inflexível a atirar ao acaso o medo de um vizinho ruidoso/cheio de espuma das noites bêbadas sem a tez do suor/as mãos que saúdam que não articulam os gestos da degola o ridículo de uma representação oficial quando o diálogo não foi/não flui outra vez o temor do empacotamento dos homens todos/nas máquinas nas casas cercadas por segurança/ apartamentos a trancas/a barras/a traves outra vez o ridículo da interpretação ouvir os homens anchos/acham que não pode acontecer/o ridículo de pedir vez de entrar num shopping/na universidade outra vez o temor/outra vez o ridículo destrinchamentos/destazados estudantes  em Iguala Guerrero/na cadeira do dragão e outra vez Gelman vai estar no exílio e se alguém vai estar morto/outra vez na forca de uma cela o novo herói

VI FESTIVAL DE POESIA CARLOS MONTEMAYOR

Ao comparecer ao México neste início do mês de outubro para o VI Festival de Poesia CArlos Montemayor, da UNAM, estive nas pirâmides astecas e compareci ao lançamento do livro Telar Luminario, de Ruberta Bautista, poeta tsotsil, de Chiapas. Deixo aqui o poema que dá título ao livro. Tão logo retorno ao Brasil, farei um elaboração melhor sobre o estival.
Tear luminário
Chuva de fogo a enramar-se no ouvido das árvores. As chamas a se fiarem nos montes de cor púrpura, estendem suas artérias.
Tece canto forte No estômago da terra.
Estrela circular acesa em seu coração.
Nas veias se incrusta o tear do trovão, entidade do fogo forja-se em seu corpo. Com seus dedos fia e tece a luz que cruza o céu.

Iguaba

Não se acaba em Iguaba,
talvez tenha principio a travessura
do esquecimento, sementes
que não serão levadas
para o infrutífero continente.
Não se acaba próximo à mão.
Uma cova sente o abandono
em transbordos sob a chuva,
sob o solo nenhum prenúncio de raiz
no território desconectado, desa
marrado da volúpia de gestar.
O estuário do perfume aguarda
com a performance do inodoro.
Se alguma pele se oferece
falta sarna para enfurecê-la de verniz.
As palavras se exaltam, se oferecem
e as mensagens não serão proclamadas.
Não se acaba próximo ao lábio.
Faltam as abelhas, a cera, o cismo
de recompor as tábuas de registrar
a branca memória. Esforço
de recompor o princípio, a falha
de compartilhar a fala e a solidão
que as telhas recobrem, ainda que
noite e penúria. Onde nada se acaba,
onde fortes vigílias, onde bocas de metal,
o furor das abelhas, mel e lábia,
brotos selfies em postagens,
a frutificação na paisagem.
Busco não passar pelos campos
deletar da lembrança os cogumelos
iguais a grandes chapéus
a reter a umidade da noite
e insistem em serem esmagados
ao arrojo de meus pés
Colheita de verde e névoa
Fora para não transitar
na estrada da demência, dos sátiros,
e aí está o asfalto enodoado
de óleo e cuspe para levar
estudantes/caixotes de herança e cravos
Brigo com a insensatez
e ela escava em meus nervos
Podia não existir a invenção
e selfie me mostro onde sou inexato
Era para não ser o verme
e ele come nas minhas narinas
se enxerta nas minhas palavras
Era para não ser a artimanha do cuspe
e ele enodoa os meus lábios
a cama em se que distende o homem
Não pedi o diálogo e a compreensão
e tudo fala e pula e se aclara
entre o que existe de façanha
e de estorvo nos escritórios e nos berços
Para que a vitalidade no talhe
e nos extremos de um mar
e a vida me assume e me assanha
e me acasala no esplendor
da relva e dos corpos

Pedir o fulgor e o fogo
é não saber queimar e existir

Já estou a postos para o dia.
Venha a tua vigília, a tua provocação,
o silêncio interpretativo do repouso
do caracol recolhido em sua casa,
do caminho esquecido em seu musgo....

Move-se o galho em minha sacada
para o canto do pássaro que agora voa.
Destravam-se os ferrolhos
ao que agora em si o canto se descasa.
De desperdício nem o da luz
que o corpo de um homem não antepara.

Corteja em mim a claridade,
a espera pelo que invada
a estrada de visgo em minha porta,
em minha linha do tempo.
Estou pronto para a invasão do que vive.
Vamos duvidar
Duvido que a água do rio virou lama
Duvido que a casca de banana é de vidro

Vamos duvidar
Duvido que a árvore possa ser feita de cola e papel
Duvido que alguém tenha vencido o Valfrido

Vamos duvidar
Duvido que alguém vá ficar aqui até dar flor a goiabeira
Duvido que o vento livre queira viver preso num cilindro

Vamos duvidar
Duvido que o tempo viva preso no relógio
Duvido que os reis não existam nos tempos antigos

Vamos duvidar
Duvido que o cachorro acredite na minha palavra
Quem acredita cai no buraco de vidro que eu duvido

Por mim, não será dado fim ao dia, os lilases
não se incorporarão à intriga da noite.
Por mim, as paisagens desejadas 
brilharão em montanhas de ventilados verdes,
em nuvens de todos os Himalaias.

Alguns não se importam com a condução 
de retornar às ruínas de Bizâncio,
reconstruí-la com os próprios punhos.
Não escravizar os homens das aldeias
felizes debaixo das pompas de floridas faias.

Por mim, não será dada a ordem
à tropa de cercar os açoites dos vândalos.
Sejam arrancados os retrovisores,
e falhe o corujão de levar o último trabalhador.
Os homens caem. Os homens se levantam.

Por mim, pode ser oficializado o capuz.
Não induzi à fome, escapei do pau-de-arara.
Não velejei na nau que trouxe a carga
de homens recolhidos nas aldeias.
Recortei a minha telha de cara limpa.

Por mim, não caia a hera do palácio,
do muro de retornar ao campo.
Tive a face às claras no exílio de um quarto
tomado de triponossomas e pus.
Não posiciono na esquina o aparelho.

Logo as palavras em todas as redes.
Quantas vezes destruída Biz…
Em honra do que se perfilou
na primeira batalha, na audiência
que assistiu o último sermão,
mover-se para a Bizâncio
milenar, tantas vezes reconstruída
e renomeada. Por Constantino
das dominações perpétuas,
em cada cálice elevado nas assembleias,
turcos possantes para encher
o horizonte com altas abóbadas
distendem a tua fama pelos
territórios mutáveis dos séculos.
Subir as tuas vielas de puro manto
com ossos de ouro dos videntes.
Perpétuo orgulho do esplendor.
Na fortaleza, renovar a proteção
dos próximos acordos, isentos
de discórdia, de invasões, de guerreiros
envolvidos em areia de tormento.
Estocar a madeira de estender
a ponte, de vencer a truculência
do abismo e do gelo, desfile
das hordas das armadas.
Mover-se para calcificação
da vitória e da permanência da sombra,
em cada hora mudar o gesto,
alcançar outra aparência, de cicatrizes
que lembrarão novos gestos na paisagem.
Deixar um território sem destroços
em que outros circularão heróicos,
orgulho para a ordem da pele e da vo…
Atrasei no carregamento do dia
apenas para conhecer o taipeiro
Veio dos extremos da intimidade
das florações/do dourar fiel dos cachos
Veio de amparar a água nas taipas
de reconhecer a distância suficiente
para que as sementes não apodreçam
Veio de um pátria amparada 
sobre o ouro e a clemência
Dos arrozais da riqueza de puro branco
Quer conhecer onde pisa
onde flora/onde as dívidas
merecem resgate/Levanta-se
entre todos e oferece o assento
o taipeiro clemente com as raízes
dominador generoso das águas
Dominador da coleta dos grãos
e da memória das palavras gastas






Nilto Maciel

Recebi hoje o último livro organizado pelo amigo Nilton Maciel e, com ele, a mensagem que ele me mandou encartada no livro. Nilton Maciel faleceu na semana passada. Questiona se teria me citado no livro, que é composto de artigos, alguns sobre outros amigos comuns nossos, dois já falecidos: Sérgio Campos e Uílcon Pereira. Me citou no livro sim, umas oito vezes. E só não incluiu a última resenha sobre minha produção poética porque o livro foi organizado antes de ela ter sido publicada em seu blog e no Jornal da ANE. NIlto, emoldurarei o seu último bilhete dirigido a mim. Aguarda-me nesse paraíso das palavras em que estás. Reserva-me um lugar ao lado de Dante e Beatriz. Claro, e você e Godoy juntos para não deixarmos morrer a gaiatice deste mundo!

Getúlio (filme)

Consegui ir ao cinema assistir "Getúlio", com Toni Ramos e grande elenco. Demonstra que o cinema brasileiro pode alavancar. Bom figurino, boa direção e até mesmo o roteiro. O que foi proposto se encaixa e se realiza. Podia ter entrado um pouco mais na intriga política, pois deixa a impressão que Getúlio não agiu aguerridamento para reverter a situação. Não aparecem as reuniões, as conversas, mas um Getúlio excessivamente amorfo. Mas o filme vem preencher lacunas. O cinema brasileiro questiona pouco a nossa história. E quando questiona é um tanto carnavalesco, excesso de Macunaíma e de Policarpo. Deixo uma declaração importante de Getúlio: as pessoas quando procuram o Presidente nunca pedem pelo País. Não me agradou o final, com a demonstração do populismo. O populismo precisa se extirpado da futura política brasileira.
Recebi nesta semana vários livros que comprei por reembolso da editora Cosac Naif. Adoro as belas edições desta editora. Lamentável no entanto a tradução viciada de alguns livros. Em Oblomov, logo no primeiro parágrafo, aparece o horrível "cujo", que só serve para relatórios: é uma palavra de uso correto, mas em desuso. E o que está em desuso acaba soando fora de lugar.. Jamais Gontacharóv usuaria esta construção frasal. E, na linda edição de Contos de Lugares Distantes, do australiano Shaun Tan, aparece também na primeira frase uma construção completamente incompreensível. Eu não compreendo esta frase: jardim: "aquele que ninguém cortava a grama". Matou a minha vontade de ler livro. Eu não sei se é em que se é onde ou outra alternativa. As traduções a cada dia ficam menos literárias. Estou cansado do uso do verbo "nutrir" e do uso de "passante" para transeunte. Para desejo, amor, compreensão, comer, para tudo é nutrir.Dá enjoo.  E tantos outros…