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Mostrando postagens de 2009

Um haikai

Versão quase japonesa:

A mulher diante da parreira.
O sol ilumina
o cacho de duas uvas.

Versão quase goiana:

A mulher se curva
para depositar a colheita
O foco de sol
sobre o cacho de duas uvas


Versão teen:

Para sair a vinha ao fundo
a guria se curva para a foto
Ninguém liga pro sol
só pro cacho de duas uvas

Saudação 2010

Estaremos com os homens da fina civilidade,
que aplainam onde há a discórdia,
onde há a suspeita,
e a madeira é fértil. Trabalharemos
com a facilidade da ternura.
Estes homens são os que pousam
uma mão e outra mão
e os olhos e as línguas.
Estes homens somos nós,
que temos uma casa,
uma cidade, um País.
Estaremos com os homens
limpos limpos diante das câmeras,
dos lápis da História.
Estes homens somos nós,
os homens em tecnicolor.
Estaremos com os homens
que são de fogo,
da pura lenha aceita pelo sol.
Não iremos nos esconder
fora das fronteiras.
Estaremos nas praças,
nos baldrames, a esbanjar
companhia.
Não teremos tumbas
de vergonhas para tampar,
não teremos de disfarçar crimes,
de gerar artifícios para passar impunes.
Seremos os homens
que vão ao pré-sal,
ao fundo do coração.
Estaremos com os homens de mãos limpas
As mãos limpas vão tocar as obras.
As mãos limpas vão se tocar com fascínio.
Estes homens somos nós.
Seremos os homens da civilidade.
Estive com todos que vinham
sem contornos, sem coices na ravina
Tínhamos a tina e as mãos se lavavam
se tocavam com as foices do fascínio
Tapávamos as tumbas, ouvíamos os timbres

É o luto

O luto é muito mais do que a morte de uma mariposa
do que o pouso das mãos sobre o peito
Muito maior do que o vazio
do que a pele escurecida escurecida
Há mortes diárias, assaltos diários

A ausência do discurso, a ausência
dos dizeres da criança na lousa
se sarrafiaram a sala e a estrada
Por merecimento, reivindicamos
o direito de sermos os primeiros
no ranking mundo da corrupção

Reivindicamos e este é o luto maior
O luto maior é ter de aceitar o pedido de perdão
por apontar o dedo para um corrupto
A poesia às vezes queria ser palavra
— pássaro à espera da chuva e da criança
no pátio da escola —
e tem de voltar com o grito de resistência

O amigo Menezes y Morais ainda dizia na noite do tributo ao Oswaldino Marques (tributo este que não mereceu nenhuma linha nos jornais locais): merecemos, temos de reivindicfar o direito de sermos o primeiro país do ranking mundial da corrupção.

O luto maior é ver a ausência de informações nos jornais da cidade de Brasília sobre o falecimento do escritor Joanyr de Olive…
Confraternização da ANE, com a ausência do poeta Joanyr de Oliveira, que faleceu em 05.12.09 e será enterrado neste domingo (06.12.09, às 17 horas). Estão aí amigos (Ligório, Anderson Braga Horta, Sônia Ferreira, me, e o Taveira, o João Carlos Taveira). São os lados da vida, as alegrias e o luto.
Confraternização anual na Associação Nacional de Escritores (ANE, na sexta-feira, (4.12.09). Apareço com a secretária de sai. Parabens para Rebeca (E), que pasosu para concurso no Banco do Brasil, e parabens para Rosângela (D), que entra.

Jorge Tufic

Encontrei-me pessoalmente uma única vez com Jorge Tufic. Ele esteve na Câmara dos Deputados aí pelos anos 90 e eu já vivia atrás de suas obras, que chegavam quentes da Amazônia. Guardo a sua lembrança como se ele vivesse sempre aqui e eu pudesse me encontrar com ele a qualquer momento. Pois a sua poesia é um encontro. E, através de sua poesia, tive muitos outros encontros com ele. Fiquei íntimo dele.

Jorge Tufic

De Ônibus, pelo Sertão

Lá fora, o diameno.
Bloqueio de trevas,
cysne,
cântico de agulhas.

Em busca desse dia
eu parto: noutras paragens,
decerto,
há homens e bichos
que disputam vitórias,
se matam.

Mas aqui, só nuvens
rascunham fugacidades.
Paisagens, velozes,
não passam por mim.

Atravessamo-nos, apenas.

Desempenho Funcional

Em solenidade na Escola Fazendária, no dia 28/10/2009, foi concedida a premiação a funcionários do Ministério da Fazenda por tempo de serviço e por "desempenho funcional".
Na foto, aparecemos fazendo o pronunciamento em nome dos homenageados por "desempenho funcional" pelo Gabinete do Ministro da Fazenda. A seguir, a íntegra de minha fala:



Convidado a pronunciar uma pequena alocução em nome dos funcionários do quadro do Ministério da Fazenda, que neste momento são homenageados por desempenho funcional, saúdo de forma afetuosa nossos familiares, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, que, com sacrifício de seus compromissos, comparecem aqui para nos abraçar. Sem os familiares, os amigos, os colegas, este evento seria ocorrência sem brilho e nem mereceria transparência a nossa atuação no serviço público. Aos organizadores deste evento, também nossos colegas, nossos especiais agradecimentos.

E cada um de nós, obviamente, manifestará com características bem individuai…
Quisera ser a grama

A luz que molhou
o vestido nos dias perdidos
Talvez o fruto pendido
de um galho
pendido sem aparecer no recorte
sem roçar as nuvens
descer ao decote
Só a estação da quimera
que não foi pensada ou partida
Só a lente sem nódulos
que não entra na química
Só a luz que vira retrato
de um corpo sem ato
de um olhar que não viu

Um instatâneo
para um único olhar
No dia 5, a partir das 13 horas, participaremos da FLIPORTO — V Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas.

DIA 5 (QUINTA-FEIRA)

CENTRO DE CONVENÇÕES 1 DO HOTEL ARMAÇÃO

12:30h – Inauguração da Fliporto Digital: Exposição, Biblioteca Virtual (1) e Sala de Conferências do Centro de Convenções (2)

13h – 1ª Vídeo-conferência – BIBLIOTECA NACIONAL DE BRASÍLIA | FLIPORTO
Palestra de Antônio Campos: “O livro: reflexões no século XXI”. Apresentação e mediação de Antonio Miranda
13:30 às 14:00h – Debate. Participantes DF: Carlos Alberto Xavier (assessor especial do Ministro da Educação) e Salomão Sousa, poeta e editor das obras da Bienal Internacional de Poesia de Brasília.

A lista não é essa

Que a revista Rolling Stones me perdoe, mas a lista das melhores músicas não condiz com a realidade nacional. Uma coisa é a intelectualidade e outra a consagração popular e internacional. Disparada em desejo nacional, as melhores músicas brasieliras são "Garota de Ipanema", "Asa Branca", "Aquarela do Brasil", "A felicidade". Depois nós podemos começar a distribuir a música da intelectualidade. "Garota de Ipanema", gravada por todo mundo em todo mundo, ser substituída pro "Águas de março". Vai tudo por água aaaaaaaaaaaaaaaaabaiiiiiixo. Só podem ter errado na editoração, a lista não era essa.

Cinen e senões!!!!

O novo mundo entra no mundo das olimpíadas.
Todo mundo agora nas pistas para quando chegar o dia
ganhar a medalha! Vai lá, Bizé!

Peço perdão àqueles mais assíduos a este blog,
como o amigo Robson Corrêa de Araújo,
por estar pensando pouco através dele!
Tenho lido (Saul Bellow, o Bellow pesado!),
e andado de ônibus com motoristas teimosos,
que acham que ninguém precisa ler.
Talvez seja a maneira dele se vingar:
por que alguém tem de viajar lendo
se ele tem de trabalhar em movimento, sem viajar!

Ah! uma proposta de lei de fomento à leitura:
quem estiver lendo no metrô ou no ônibus
tem direito à luz e também preferência de assento!
Acredito que todos vão carregar seu volumezinho para ter o assento assegurado!
Oh! Legisladores municipais! Tão aí ganhando dinheiro aí àtoa, senm pensar em lei e ainda sem ler?

E uma notícia amiga:
o amigo Cinen de Sousa, em comemoração aos 50 anos de vida,
vai publicar o livro
Breve exposição de motivos pra contemplar arco-íris.
E o charme, o meu orgulho, a minha genuflexão, …

Alaor Barbosa

O amigo Alaor Barbosa no manda o seguinte email na noite desta sexta-feira:

Comunico que foi lançado esta semana, dia 14, em Lisboa, pela Editora
Dom Quixote, meu romance EU, PETER PORFÍRIO, O MAIORAL, prêmio de
publicação do Prêmio Leya 2008.

Com todo nosso sentimento goiano, a notícia trouxe alegria à nossa porta. Já sabíamos da premiação e aguardávamos a publicação do romance premiado.

Afonso Félix de Sousa

Na próxima quarta-feira, 23 de setembro de 2009, às 19h, participaremos do Tributo que Biblioteca Nacional de Brasília prestará ao poeta Afonso Félix de Sousa (Jaraguá-GO, 1925). A poeta Astrid Cabral, viúva do homenageado, comparece à Capital para fazer a conferência sobre vida e obra do autor, e , junto com os poetas Alexandre Marino, João Carlos Taveira, participaremos do recital lendo polemas seletos do autor, além da participação da jornalista e escritora Ana Cristina Vilela no papel do famoso poema a Moça de Goiatuba.


Auto-retrato


Afonso Félix de Sousa


A maneira de andar
como quem busca
estrelas pelo chão.

A cabeça a dar contra muros.
Em cada olho, o mundo como um punhal
-- cravado.

O pensamento a abrir estradas
numa várzea distante.
Os ângulos do sonho formando orlas
povoadas de fêmeas
que a meu encontro viriam
do outro lado, em lânguidas posturas.
Diante do mar, a sede, a sede
de beber a vida em infinitas viagens.
As garras de gato ante paredes impostas.
A impaciência de que chegue a manhã e a …

Revisão de um poema ainda a ser revisto

Estou terminando o terceito livro da Trilogia do Cairo, de Nagib Mahfuz.
Onde tudo se condensa e, assim Schopenhauer, nos deixa no abismo.

Revi um poema postado aqui um dias atrás. É para deixar mesmo a respiraçaõ entrecortada.
Uma hora este poema bate o seu badalo.



Por dissolvidas células
por drenos engastados nas veias podres
por atos de drágeas moles e
uretra arrebatada por sangue
iguais a foles desgastados
ar não sugam
e o sopro entre cortado sangue
se os canais pedem agastados
leitos de anamofilina
intervalos de sopros
contínua missão de dissolver
os vasos se impulsam se emperram
nos músculos de poros com drenos
Segue pelo deserto de drogas
de corpos de drágeas
resfolega sem fôlego
Nada respira ou suga
Desertaram-se as pétalas vivas
os jatos de um caudal
de um prazer que se gesta numa uretra
Excretasse de forma ereta!
Desampara a sarna com gasturas
e o deserto e o deserto desampara
se só areia se só luz para esfregar
fadiga fadiga fatigado útero

Saul Bellow

Às vezes eu me me surpreendo perguntando sobre os grandes escritores americanos, pois quase sempre compreendemos a literatura dos EUA só em termos dos livros de livros de comunicação rápida. Mas sempre me extasio diante de Melville, de Faulkner, Salinger, Hemingway. Não podemos esquecer de Thomas Pyncho, que ridiculariza o mundo capitalista, de geração de lixo e deterioração cultural. E o encanto da literatura fragmentada e, ao mesmo tempo, tão real e necessária de Saul Bellow. À época em que ele ganhou o prêmio Nobel (1976), encataram-me O Legado de Humboldt, Henderson, O Rei da Chuva, e nunca me esqueço da última frase de O Planeta do Sr. Sammler.
— E sabemos, e sabemos, e sabemos.

Não consigo me lembrar de nada de Herzog, que é considerado sua obra prima. Terei de reler. pois aqui ele é mais questionador, indagador, bem moderno, se a narrativa, através de cartas, permite mais a introspecção do narrador ou do personagem ou ambas.

Agora estou no último volume da trilogia do Egito, de Na…

JOAQUIM CARDOZO

Antes de sair para Recife nas férias de julho, já andava atrás livro Poesia completa e prosa, de Joaquim Cardozo, editado em 2009 pela Nova Aguilar/Massangana. Estou com a edição aqui entre as mãos, cheirando a livro e poesia. Podiam ter incluído a obra teatral do autor. Nunca as coisas são tão completas tão assim.

Defrontei-me com uma espécie de bilhete de Drummond numa página. Fui ao poema citado por ele e fico pensando nas formas como nos comportamos. O poema citado por Drummond tem de estar entre os grandes da poesia brasileira, com destaque nas antologias, nos livros escolares. Antecipa as pós-vanguardas, apesar de trazer nas entrelinhas as ressonâncias regionais de sua terra. Mas só sendo um poeta com um pé numa cultura bravíssima, de fontes populares nordestinas, e outro na modernidade daqueles que construíram Brasília para aventuras de linguagem futurísticas. Ele mesmo, em três momentos, insere observações sobre essa necessidade de intercessões culturais na vontade do criador.

B…

Encontro Ano Cultural do Senado

A notícia do evento tem gerado bastante expectativa. O Brasigóis Felício acaba de me informar que virá um ônibus com 40 lugares e a esperança é que de ele venha cheio (de escritores). O Edval Lourenço já informou que sua vinda é certa. Cada um que vier que faça a sua confirmação aqui mesmo nesta postagem como comentário.

Estamos convidados como um dos escritores que participarão do evento descrito no convite. Virão de Goiás mais de 18 escritores. Não tenho em mãos a relação completa, mas sei que virão Brasigóis Felício, Aidenor Aires, Gabriel Nascente e e e. Lançamentos. Conversas. Intercâmbio.

pneumonia

E eu não podia disfarçar.
Na foto externa não aparecia
ainda a pneumonia.
Estou aqui recostado por oito dias.

Leio para gastar o tempo a primeira Clarice. A narrativa exige realmente algo convincente,
algo vivente, que sai de um fole que nem sempre todos trazem esbraseado.
O meu pequeno fole também está um tanto sem carvão, mas movemo-lo nas manivelas:



Por dissolvidas dunas
por drenos engastados nas areias podres
de drágeas moles e úteros
iguais a foles desgastados
ar não sugam
e o sopro desgastado
Na contínua missão de dissolver
os pés se movem
nos desertos de poros com drenos
Seguem pelo deserto de drogas
Nada respira ou suga ou sara
Desertaram-se as pétalas vivas
os jatos de um caudal
de um prazer que se engasta num útero
No deserto a sarna desampara
No deserto os pés de movem
e dissolvidos o meu caudal e meu útero
Ordem na foto: Miguel Ángel Fernandez, Salomão Sousa e Antonio Miranda.

Na boca da noite deste sábado, recebi a visita do amigo Antonio Miranda, diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, na companhia de Miguel Ángel Fernandez — uma das grandes expressões da poesia paraguaia. Em conversa rápida para tanta poesia, anunciaram que estão desenvolvendo projeto voltado para a publicação de textos inéditos, principalmente cartas, de escritores brasileiros — no naipe de Drummond e João Cabral — que pertencem ao acervo de Miguel Ángel Fernandez.
Conheçam a poesia de Miguel Ángel Fernandez na página do Antonio Miranda. Perdão: tentei, mas não consegui disfarçar na foto a convalescença de uma bronquite contraída na semana passada.
Neste Dia dos Pais, levei meus netos para um passeio ecológico em plena cidade, assim sem sair mais de quinhentos metros de minha casa. Ver aspectos microscópicos da natureza. O poeta e as crianças - o Homem, enfim - precisam da da natureza para criação da linguagem. A linguagem cria e consolida o Humanismo.
Veja as pequenas frutas do jenipapo, que me acompanham desde os tempos de minha avó; a pequena flor amarela, da serralha; e a pequena flor, ao sol, do boldo.

B. Lopes

Vem em boa hora a palestra do amigo Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, na terça-feira, 11 de agosto de 2009, às 19h, na sede da Associação Nacional de Escritores, em Brasília, sobre a poesia de B. Lopes, este poeta mestiço-dândi (alcóolotra, epiléptico, escandaloso nas vestimentas exóticas), que contribuiu para a evolução da poesia brasileira para o Romantismo.
Um dos sonetos dele que alegrou a minha juventude pelo lado telúrico, por que não?, romântico na forma de ver e se integrar com a própria realidade:

Berço

Recordo: um largo verde e uma igrejinha,
um sino, um rio, um pontilhão e um carro
de três juntas bovinas, que ia e vinha,
rinchando alegre, carregando barro;

havia a escola que era azul e tinha
um mestre mau, de assustador pigarro…
(Meu Deus! que é isto? Que emoção a minha,
quando estas cousas tão singelas narro?)Seu Alexandre, um bom velhinho rico,
que hospedara a Princesa; o tico-tico,
que me acordava de manhã, e a serra…com seu nome de amor Boa Esperança,
eis tudo quanto guardo na lem…

Maneiras de ver

Onde vou
vou filmando
com minhas maneiras de ver.
O urubu na praia.
O cachorro e o urubu
na praia de Boa Viagem
entre crianças
e preservativos.
Disputam a cabeça
cheia de serrilhas.
Seguir para mais distante
para fugir das ratazanas no quintal.
E as ratazanas passeiam
no caminho das crianças em viagem.
Melhor regressar.
O varal ao lado do Palácio da Justiça.
Aguardam nus, ao lado da equipagem,
as roupas secarem ao sol,
os técnicos da filmagem.

Estrela Solitária

Realmente me apaixonei pela interpretação da música Bambino, no filme Estrela Solitária, ficção sobre a vida do Garrincha. Até meu pai João Miguel, que não era Wisnik, iria reconhecer que a rima em ar, nesta música, nos paralelismos com ir e á, apresenta um momento de rara beleza, principalmente na interpretação de Elza Soares. Wisnik, é muito mais que vã filosofia. ... seguindo seguir, só mesmo com os universos pós-vãsfilosofias. E a Taís Araújo, só brilho brilhar.
BambinoElza SoaresComposição: Ernesto Nazareth E Zé Miguel WisnikE se o ferro ferir
E se a dor perfumar
Um pé de manacá
Que eu sei existir
Em algum lugar

E se eu te machucar
Sem querer atingir
E também magoar
O seio mais lindo que há

E se a brisa soprar
E se ventar a favor
E se o fogo pegar
Quem vai se queimar
De gozo e de dor

E se for pra chorar
E se for ou não for
Vou contigo dançar
E sempre te amar amor

E se o mundo cair
E se o céu despencar
Se rolar vendaval
Temporal carnaval
E se as águas correrem
Pro bem e pro mal

Quando o sol ressurgir
Quand…
encontrei-me na Livraria Leitura com o poeta Oleg Almeida, bielo-russo há quatro anos em Brasília. conversa para mais de hora e meia sobre culturas e História de nossos países. seu recente livro de poemas pela 7 Letras — Memórias dum hiperbóreo — está aqui elegante ao meu lado, com abonação de Antonio Cicero e Marco Lucchesi. o livro é composto de XV diálogos, vivos sobre a cultura pessoal do autor.
e, em seguida, estive na Biblioteca Nacional de Brasília, para assistir o tributo à poetisa Renata Pallotini. foi vibrante as leituras dramáticas de Augusto Rodrigues e Heloísa Sousa (talvez minha parente). e André Gomes foi feliz na sua palestra, bem condizente com o calor lírico da poesia da homenageada. pçude abraçar Renata Pallotini, que eu nunca tinha encontrado corporalmente.
Mais detalhes no link da BNB.

Viajei

Viajei. Vi homens no luxo
Vi crianças no lixo
e no lixo tropecei
Roupas lavadas próximas aos meus passos
e o que encobria úmida
podia ser relva, pedra ou trevo
Nas seis manhãs
as roupas estendidas nas calçadas

Viajei. Vi casais que quase se abraçavam
As sete pontes, algumas de ferro recortado
no estrangeiro
Vi mulheres a sós com os filhos
se sentindo alienígenas
Não pude ver os ausentes companheiros
Não pude ver as freiras recolhidas
e a zabumba a ensaiar o próximo frevo

Viajei. Senti este cheiro de homem
Fezes. Este cheiro ejaculado.
Vestido de passado
comi as minhas sete refeições
bebi os meus sete cálices
Não estive próximo à arma do tiro
Ao morto não levei luto nem mortalha

Viajei. Vi e apalpei
E se acreditei foi pela flor agreste
Foi pelo tremeluzir das luzes sobre as fezes

Kes

Por sugestão de uma pequena nota na Folha de S. Paulo, assisti ao filme “Kes” (1969), de Ken Loach – um dos belos filmes ingleses, se é que a miséria possa gerar algo belo. Ainda que me assuste, é esta espécie de filme que me cativa – arrancam verdades com a voz mais cruenta. E a violência é tão real na direção de Ken Loach que acreditamos que ela não é fruto da arte, mas da realidade. Creio que aquela mãe não era uma atriz, mas alguém que atravessava uma crise real. Até onde somos capazes de agredir? Até onde as pessoas precisam ser agredidas? Uma vez ouvi uma chefia dizer para sua copeira: você merece sofrer! Quem merece o sofrimento? Quem tem o direito de provocar sofrimento? As nossas frustrações têm de gerar outros sofrimentos? Às vezes agredimos onde devíamos amar. Não terei coragem de rever “Kes”. Vou deixá-lo na minha reserva de obras que vão assinalando alertas sobre as ridicularias humanas. Em umas épocas, mas agressivas; noutras, pior ainda. A leitura da trilogia das Eras..…
Podemos estar em silêncio, o cio frio,
no entanto algo fleme, inflama, infuna.
No entanto, algo incomum move.
A poesia, que é incomum.
A fartura do desejo, que é incomum.
A fartura de Whitman,
que é incomum!
Que o Ronaldo Costa Fernandes me corrija,
se erro.
Que o Ronaldo Cagiano me corrija,
se me engano.
Que o Vassil Oliveira me corrija,
se vacilo!

OH! MEU CAPITÃO! MEU CAPITÃO

Walt Whitman
Versão: Salomão Sousa


I.
Oh! Meu capitão! Meu capitão! nossa fatal viagem é finda;
O barco venceu as tormentas, alcançados os prêmios que buscávamos;
O porto está próximo, ouço os sinos, o povo se exulta;
Embora os olhos sigam as firmes quilhas, a embarcação sinistra e audaz:
Mas oh! coração! coração! coração!
Não derrame nem uma mínima gota
No convés onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.

II.
Oh! Capitão! Meu capitão! Levanta e ouça os sinos;
Levanta — por ti a flâmula flana — por ti a corneta trila;
Por ti buquês e grinaldas com fitas — por ti as multidões nas margens;
Por ti eles chamam, se aglomeram, os rostos ansiosos à procura;
Oh! Capitão! querido pai!
Passo embaixo de ti este braço;
No convés é um sonho que jaz,
Onde te estirastes frio e morto.

III.
Meu capitão que não responde, os lábios pálidos e tranquilos;
Meu pai que meu braço não sente, está sem pulso e vontade;
Mas o barco, o barco ileso ancorou, a viagem feita e conclusa;
Da terrível viagem, a vitória do barco, os objet…

Sutis declarações sobre a poesia de Salomão Sousa

Sua poesia é esse jeito, esse movimento, a funda estocada no coração das emoções.
Sérgio Campos (Nova Friburgo-RJ)

Para começo de conversa, o poema “Safras” é sensacional: é lindo de morrer, enxuto, na palavra exata.
Zila Mamede (Natal-RN)

… gosto desse movimento pendular, oscilando entre o lirismo confessional e o discurso cheio de indignação; justa revolta e amor pela vida, bem dosados e temperados.
Uilcon Pereira (Araraquara-SP)

Caderno de Desapontamentos, muito belo, sensível e pungente —só lamento ter somente agora conhecido a sua poesia, que revela um poeta consciente do poder da palavra, sem o ouropel e a sacralização acadêmicos.
Assis Brasil (Teresina-PI)

...gostei do seu modo de garimpar os territórios quase inacessíveis da metáfora, sobretudo quando aliada aos aspectos da miséria social e do cotidiano nem todas as vezes abordável, poeticamente.
Jorge Tufic (Fortaleza-CE)

Já nem sei se estou conseguindo esplicar-lhe minha emoção em ler seus poemas de Criação de Lodo, suas pérolas, sua …
O alvo insólito se esconde em abril.
A sólida ferrugem nos fuzis.
Os desamparadas informes
de acolher as arestas do esquecimento.
Ou as raízes da névoa quieta
que barram a procura de alguma porta.

Alguma luta se esconde em abril.
Com a lábia livre, com a alegre
esperteza de iludir a frágil fresta.
O vencimento do tardio ódio,
a fraqueza da reza sem milagres.

Há um ventilar de madureza,
de alguém que talvez nem venha
a entrar nalguma névoa,
a pisar nos gozos de alguma nave.
Montado o palanque. A besta imolada.
A gravidez depois fictícia.
Alguém limpa a ferrugem em abril.

@ Salomão Sousa

Canário na Janela

Muitas abas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo

Perdi o Tributo ao Poeta, da Biblioteca Nacional de Brasília, em homenagem à bela poesia de minha amiga Lina Tamega. Imerso no mundo do excesso da comunicação e não tomei conhecimento do evento. Nem email, nem telefonema, nem fofoca de janela, nem sinal digital, nem duas frases nas vastas colunas literárias dos jornais de Brasília. E a poesia da Lina tem mais para dizer do que duas linhas.

Ai! quantos anos terei de viver para terminar a leitura de las Memorias de Ultratumba, do Chateaubriand francês?

Mas não era nada disso que eu queria dizer para vocês. Ou para mim. Ou para ninguém. Num blog a gente nunca sabe a quem diz, a quem fala. Ou a quem cala.

Só queria lembrar o lado humano, dentro de minha descrença diante de uma juventude que perdeu toda possibilidade de lidar com o humanismo.

Assisti o filme Faces, de Cassavetes, de 1968. Há muito um filme não me entristecia tanto. Há q…

Clara Ghimel

O acaso do acaso, caiu-me um disco nas mãos assim a Oriente do oriente. De Clara Ghimel — acredito que baiana. Ela reuniu poemas de portugueses, em arranjos bem percussivos, apesar de muitas guitarras acústicas leves. A voz clara que permite realce aos versos.

Apenas um comentário: ao primeiro verso do poemas "Pirata", de Sophia de Mello Brayner Andrade:

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Não é algo imensamente assustador?
Não sei se é a sabedoria do poeta ou se já é o toque do egocentrismo sobre o homem que antecede o poeta. Assusto-me quando essas sobreposições acontecem. Antes, a força da natureza intimidava e a força do homem existia para dominá-la. Agora, sem força e sem domínio, mas apenas incendido de desprezo, o homem já se julga de posse de tudo — com desprezo.

Clara, parabens!

A vida é sonho

DEIXO AQUI MINHA PRIMEIRA TENTATIVA de tradução da parte famosíssima da peça de Pedro Calderon de la Barca. Busquei manter a rima e o andamento dos versos. Não quero rivalizar com a tradução de Renata Pallotini (ver edição da Hedra), que modernizou alguns versos e furou umas duas rimas. Acredito que, para melhor compreensão da fala de Segismundo, é necessário sempre citar o fecho da fala anterior de Clotaldo, pois é deste fecho que surge todo o razoamento posterior:

Clotaldo

(...) ainda em sonhos
não se perde em fazer bem.

Segismundo

Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.
E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,
diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,
dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte
a morte: desgraça forte!
Existe quem tente …

O sempre novo Clint Eastwood! Ah razão cínica

Clint Eastwood declarou que Gran Torino, seu mais recente filme, é sobre a tolerância. Mas é bem mais do que a tolerância, pois envolve questões raciais, de violência com a juventude, da dívida americana com aqueles que foram atingidos por suas invasões. A degringolada da família. Ele vem nos dizer que alguém precisa estar pronto para morrer para ver se a coisa muda. Trata-se de um filme que tem de virar cardápio do debate em sala de aula e nos comícios públicos. Trata-se de um filme que me faz voltar a refletir sobre a importância da realidade na obra de arte. Até onde a obra de arte tem de estar associada ou dissociada da realidade? Clint Eastwood sempre está dentro da realidade, com a sua obra (de grande arte).
Como serve para mim e mais e demais, registro aqui um trecho da obra de Bertrand Russell:

"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentatos pela alegria: eles veem em sua imaginação as coisas que …
Sempre há um clássico que ainda não foi traduzido em nossa língua. Sobretudo aqueles com maiores extensões. Certamente ainda teremos de esperar muito pelas Memórias de Chateubriand, pela biografia de Samuel Johnson, por Boswell, e as próprias biografias de escritores, de Samuel Johnson. Enquanto isso, valho-me das edições espanholas. No ano passado, ou antes, não estou seguro, circulou por aqui Peregrinação, do português Fernão Mendes Pinto.O mercado editorial brasileiro se preocupa demais com obras já consagrados em nossa cultura (caso de Tolstoi, Dostoievski, Kafka etc, se é que grandes escritores são etc), e outros também relevantes não estão nas prateleiras. Nem as Confissões, de Rousseau estão nas prateleiras — e precisam de tradução nova, que correspondam, pois as frases curtas de Rachel de Queiroz, numa linguagem nordestina, não corresponde à elegância do período da obra.
E temos de baixar o preço dos livros! O privilégio das grandes editoras às grandes redes estão matando as pe…

Brasigois Felicio

Após receber a nossa tradução de FROST,
o amigo Brasigóis felício fez uma paráfrase
do poema A estrada por trilhar:


Seguir os caminhos do conhecido
é afogar no comido
fingindo ser renovo
aprender o sabido

Seguir a senda estreita
é habitar-se do inaudito
vazio-cheio do Absoluto

Se Deus é um longo intervalo,
não há música sem silêncio

No contentamento de aceitar e celebrar
viajam os que são leves de bagagem
por isto passam e esquecem

Aceitar o agora que nos veio
sem forçá-lo a nos oferecer respostas
pode fazer toda a diferença.

Volta ao médico

Retornei a médico para complementar os exames com uma colonoscopia.
Canais limpos, abertos pela injeção de ar. Apenas dois pequenos sangramentos talvez provocados pela teimosia da sonda. Duas horas de cólicas, mas a tranquilidade de seguir com um intestino saudável, colorido, redondo como uma foto de lua em torno do escuro.
Um amigo do Ronaldo Costa Fernandes pediu informações sobre a existência de livros com traduções de Robert Frost. Chegamos a localizar uma tese que identifica todas as traduções de Frost que já foram feitas para português, além de trazer traduções próprias. Dei uma mexida na tradução do poema "A estrada sem trilhar", que sempre recebeu outros títulos. Não dei preferência às rimas, mas uma certa repetição interna. Vamos ver se alguém gosta.

A ESTRADA SEM TRILHAR

Robert Frost

As estradas se abriam no bosque amarelo
e eu lamentava não seguir as duas,
por ser um viajante só, demorei-me
a olhar à distância por longo tempo
a que sumia ao dobrar-se no matagal.

Quando tomei a outra, igualmente bela,
aos seus méritos a pedir desculpas;
para o viajante oferecia relva;
ainda que por ali tenham passado
outros mais que a tomassem na viagem.

Naquela manhã elas se estendiam
com as folhas sem manchas de pegadas.
Ah! guardei a primeira para outro dia,
ciente que uma estrada leva a outra
duvidei se ali outra vez retornaria.

Vou contando isso entre suspiros,
em distante ano num lugar distante:
duas estradas se bifurcavam, e eu —
uma estava sem trilhar e esta eu tomei
e foi o que fez toda a diferença.
Algumas informações esparsas. Estive no médico na tarde desta sexta-feira. Se eu fosse romancista ou contista, criava um personagens e construía uma narrativa com as hemorróidas luminosas em sangue. Lembro-me de meu avô fazendo, às escondidas, as suas lavagens na bacia de flandres. Estive sobre a maca em posição fetal, e agora preciso fazer menos leituras enquanto permanecer no sanitário.
Não consegui ainda iniciar a leitura da História do império, de Tobias Monteiro, na edição da Itatiaia. Fiz a encomenda pela Livraria da Rodoviária, mas os distribuidores não têm mais interesse em fazer entregas para as pequenas livrarias. São mais de vinte dias e não consigo ser atendido. Só as grandes redes conseguem atendimento rápido, pois são tratados com prioridade e com bons descontos. Precisamos de estudos para reversão deste quadro, pois as livrarias pequenas não poder ser extintas e ainda outras precisam ser motivadas a surgir.
Terminei a leitura da novela Terra sonâmbula, de Mia Couto. Não…

Quem quer ser milionário?

Já que deixou de ser necessário o conceito de verossimilhança, Quem quer ser milionário? é um bom filme. Vale-se de situações velhas — mas também não podemos considerar que a história é nova, pois Bombaim está lá há algum tempo — para entrelaçar situações sociais que nunca envelhecem. Os programas de perguntas e respostas deixaram de existir desde os idos de 70, mas outras loterias estão aí no mundo todo para enganar os indivíduos, que sempre creem capazes de sair do real através de um sorteio grande. No filme é possível sair? Talvez, pois Jamal guarda fidelidade. A fidelidade — numa época em que até a ejaculação ocorre sem nenhuma promessa — merece ser premiada. Não, não jogo este filme no limbo. Há agilidade nas cenas, profundidade na fotografia, e uma música arrebatadora, quente. Uma música que soma o jazz fusion com a música oriental ou é o próprio jazz fusion. Ou clássico fusion. Só não é mais bonito porque a miséria sempre quer ofuscar o encanto. Pela abordagem de questões soci…

Antonio Machado

Total apatia literária no transcorrer deste carnaval. Para não perder o pique,
ou o samba, no último ressoar do tambor, deixo aqui a tradução abaixo (sempre traduziram erroneamente "estelas" por "sulcos", quando são "marcas de alguém que pisa" para fazer contrapartida com o primeiro verso, pois "huellas" também não são "passos", mas os "rastros". Os "passos", se Antonio Machado tivesse ampliado o poema ou composto outro, equivaleriam à "caminhada", já que o caminho são os "rastros" no chão, na terra, sei lá. Os "passos" são o ato de caminhar, e os "rastros", de marcar a terra, isto é, abrir caminho):


Antonio Machado
Provérbios e cantares XXIX, de Campos de Castilla

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante,…

Látego

O escritor goiano Brasigóis Felicio publicou a crônica “Não terminar a carta” no jornal Vermelho, de Goiânia , e anuncia que a mesma será republicada em O Popular no próximo domingo. A crônica complementa um texto-crônica de nosso livro Momento crítico.

Terminei de ler o livro “El sueño de los héroes”, do argentino Adolfo Bioy Casares. Exemplo de narrativa matemática, onde todos os diálogos se encaixam nos episódios centrais. O livro ainda não tem tradução brasileira. Só para relembrar uma postagem anterior sobre a violência contra cavalo que postei aqui no blog, aqui neste romance ela se repete:

Cada puchão das rédeas era mais brutal que o anterior. (...) Os puchões tinham machucado a boca do animal. Rasgadas pelo freio, as comissuras da boca sangravam. Um abismo de calma incômoda parecia refletir-se na tristeza dos olhos. (...) Os olhos do cavalo pareciam desorbitar-se num frenesi de pavor. Valerga voltou a levantar o látego (...)”

Não vou traduzir as duas páginas, senão nenhum editor…

SAYAT NOVA

Belo o filme sobre o poeta armênio Sayat Nova (A cor da romã, do russo Sergei Paradjanov), que viveu entre 1712/95! Cansou-se da vida palaciana e, depois da morte da mulher, retira-se para o monastério de Haghpat, onde é aceito como monge. Quando os persas atacam o monastério, pedem a ele para renegar Cristo, mas é decapitado ao apresentar resposta negativa. Legou muitos cantos em armênio, georgiano e turco. Charles Aznavour gravou uma de suas canções. Consegui apenas alguns versos esparsos para deixar aqui, retirados de um blog argentino (os versos são de suas várias canções, odes, sei lá). Há livros dele em francês.

Não padecerei neste mundo,
pois para mim és vida.
És uma taça de ouro
cheia da água da imortalidade.
Antes, indica-me meu delito,
em seguida, mata-me.
Para mim tu és Sultan e Khan.
Tens o talhe de um cipreste, de um plátano.
A razão fugiu de minha cabeça,
és uma vide num novo jardim.
Um hipogrifo saído do mar de fogo.
És a flor vermelha e o branco musguet
dos vales para mim
Sou um p…

William Faulkner

Por vários anos, em repetidas vezes, refutei a leitura de O som e a fúria, de William Faulkner. Temia tocar neste autor americano em meus encontros com o amigo Euler Belém, que é admirador incondicional desse novelista, e demonstrar meu analfabetismo faulkneriano. Sempre que iniciava a leitura do romance ou do conto Cavalos malhados — que está no volume da Civilização Brasileira, que traz três novelas, entre elas O urso —, eu me atrapalhava com a forma de o autor já entrar no meio da história como se o leitor já tenha conhecimento antecipado do que vem acontecendo com o enredo. Ele já começa no fim do enredo, já que o enredo para ele não é o percurso da narrativa, mas algo que dá intensidade ao homem de uma época. Além de ter uma inteligência hábil para enriquecer a linguagem. A própria novela O urso, logo de início, traz um intrincado de difícil penetrabilidade (vou ter a paciência de datilografar):

“Havia um homem e um cachorro também, nessa ocasião.”

Impecável como abertura. E é com…
Deixamos aqui um dos slides do curso de “Ecologia Interior”, de Édisa Lopes Brito, em que foram usados três versos de um poema de nossa autoria. O curso tem apoio da Associação Humanista Crescer.

Romance de Ronaldo Costa Fernandes

Foto: Robson Corrêa de Araújo

Consultei a internet e constatei que a divulgação do resultado do Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2008, mereceu raríssimas notas em jornais e mesmo em blogs. Foram-se os tempos em que os jornais entrevistavam os vencedores! Mas eu não poderia deixar de me regozijar de ter um amigo entre os premiados. Torço para que uma editora se ofereça para editar o seu romance. Portanto, saúdo Ronaldo Costa Fernandes pela premiação na categoria romance com o inédito “O vigia”. Caso os jornais ou editoras não tenham o contato dele para entrevistas e contrato, podem me procurar. Destaque, ainda, para a categoria poesia para o livro “A outra noite”, da mineira Ana Martins Marques”; e de contos para “Contos do Norte”, de Jádson Barros Neves (Guaraí-TO).

OS HERALDOS NEGROS - de Cesar Vallejo

Há golpes na vida, tão fortes... E eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles,
o sofrimento em ressaca
se empoçasse na alma... E eu não sei!

São poucos, mas são... Abrem sanjas escuras
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Talvez sejam os potros de bárbaros átilas;
os heraldos negros que nos manda a Morte.

São as quedas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
do pão pronto na porta do forno e queima.

E o homem... Pobre... pobre! Vira os olhos, como
na hora em que a mão nos bate nos ombros e nos chama;
volta os olhos loucos, e tudo que foi vivido
se empossa no olhar, como culpa cheia de lama.

Há golpes na vida, tão fortes... E eu não sei!



Tradução de Salomão Sousa

POEMAS DOS DONS - Jorge Luis Borges

Com a preocupação de ir selecionando material para montar uma grandes antologia de exponenciais poemas da humanidade, traduzi o "Poema dos dons", de Jorge Luis Borges. Gostaria muito que as pessoas julgasssem a tradução e mesmo dessem sugestões visando aperfeiçoá-la.


Ninguém derrame a lágrima ou não acoite
esta declaração da sábia mestria
de Deus, que com magnífica ironia,
de uma só vez me deu os livros e a noite.

Deu posse a esta cidade de livros
a olhos deixados sem luz, que só podem,
nas bibliotecas dos sonhos, ler crivos
de insensatos parágrafos que cedem

as poucas alvoradas. Em vão o dia
prodigaliza livros infinitos,
árduos como os árduos manuscritos
que pereceram junto a Alexandria.

De fome e de sede (na história grega)
falece um rei entre fontes e jardins;
me fatiga e deixa sem rumo os confins
desta alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
e o Ocidente, séculos, dinastias
e símbolos, cosmos e cosmogonias
brindam os muros, mas inutilmente.

Lento em m…

Brasigóis Felício

Carinhosa a resenha de Brasigóis Felício sobre o nosso livro Momento Crítico, publicado na revista Bula, editado na ambiência cibernética a partir de Goiânia. Em outro momento, Brasigóis, certamente os meus artigos estarão mais focados na literatura goiana, tão plena de grandes poetas (lembremos a sua poesia, a de Yêda Schmaltz, do Aidenor Aires, do Delermando Vieira, do Valdivino Braz, dos novos Marcos Caiado e Edmar Guimaraens. Também me surpreendeu a poesia de Carlos Willians.). A próxima resenha que quero fazer é do livro Caderno, de Edmar Guimaraens, mas queria fazer um contato com ele antes — mas ele é muito na moita. Mas ainda “arranco ele da moita”, para usar uma expressão bem goiana. Sou amigo destes poetas e desta poesia. E certamente José Godoy Garcia, Afonso Félix de Souza, Gilberto Mendonça Teles e Cora Coralina. Obrigado pela resenha “O perfume da memória e o ocaso da crítica”.

Aproveito para agradecer a resenha de Manoel Hygino no jornal Hoje em Dia, de BH, também sobre…
A jornalista Marcela Heitor de Andrade, em sua monografia de graduação na UNB, através de entrevistas de 21 escritores de Brasília, estuda a possibilidade de escritores exercerem a profissão de Jornalista. Ela cita aspectos apresentados em nossa introdução à antologia Deste Planalto Central ― poetas de Brasília.