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Mostrando postagens de Fevereiro, 2010

Novamente Tom Jones

Já li um quarto do romance Tom Jones, de Henry Fielding. Estou comovidíssimo com a sua atualidade: forma ousada de intercalação das interpretações autorais com andamentos romanescos, crítica de costumes, de postura política. Afinal, aquilo que se pratica com raridade na arte romanesca da modernidade. Clássico é para realmente nos fazer morrer de satisfação. Machado de Assis soube lê-lo como poucos. Mais uma pequena citaçãozinha do referido livro:

"É possível (...) que eu não perceba, de vez em quando, um ou outro verso, porque metade das letras sai apagada; mas sei muito bem que isso quer dizer que os nossos negócios não vão tão bem como deviam, por causa do suborno e da corrupção."

Leituras

Dialogando com o amigo Herondes Cezar, chegamos a novas conclusões sobre a regência do verbo "deparar", pois o mesmo admite, com a dinâmica da língua, quase todas as possibilidades: a) transitivo direto; b) transitivo indireto (com a preposição com); c) pronominal com a preposição com; d) transitivo direto e indireto; e) transitivo indireto com a preposição a; f) pronominal, usado com a preposição a.

Deduz-se,assim, que as construções usadas na tradução citada abaixo, estão corretas.

...............

Alterei a ordem proposta ao Jornal Opção para as minhas leituras em 2010. Com a proximidade do lançamento do filme baseado no livro, li Alice no país das maravilhas. Fiquei encantado, maravilhado (edição meio adaptação da Cosac Naif). Vou reler numa tradução mais fidedigna e mais fidedigno deverá ser o maravilhamento.

Cheguei a consultar a Dad Squarisi sobre o uso de dois verbos pronominais pelo tradutor de Alice no país das maravilhas, edição da Cosac Naif — deparar e secar. Logo n…

A teoria da garça

Numa ginga de fole,
a garça avança
com seus passos moles,
pescoço mole.

A garça afunda
— de um lance —
o longo bico
no tanque da Esplanada.

Num ato ilegal,
engole o peixinho
que era de enfeite.
Essa é a teoria
— a garça não vai presa.

ESCLARECIMENTOS DA EDITORA LANDMARK

A editora Landmark comentou a minha postagem sobre a edição de Mansfield Park, de Jane Austen. Transfiro para esta postagem a íntegra dos comentários para dar transparência aos esclarecimentos prestados. A tradutora do livro, Adriana Zardini, também presta os seus esclarecimentos (basta conferir na postagem seguinte). Cabe a mim apenas desejar que tanto a editora Landmark quanto a tradutora tenham sucesso nos seus empreendimentos sem novos constrangimentos. O mercado precisa de novas traduções, e de experiência em experiência — às vezes infeliz como essa — que vamos chegando a novas qualidades editoriais.


"Gostaríamos de informar a todos que o Departamento Editorial da Editora Landmark já identificou os problemas com a tradução realizada, reconhecendo que o trabalho realizado pela Sra. Adriana Zardini não foi um trabalho adequado e necessário diante da importância do texto de Jane Austen. Foram identificados diversos erros em um trabalho repleto de vícios de tradução e equívocos …

Edição de Jane Austen

Quando li o cânone de Harold Bloom, anotei alguns livros que teria de conhecer. Numa viagem a Fortaleza comprei uma edição esgotadíssima de Mansfield Park, romance de Jane Austen, que está indicado no cânone do crítico inglês. Fiquei cozinhando e nunca li o livro. Em 2009, saiu nova tradução do livro pela editora Landmark, que é especializada em edições bilíngues — certamente para uso em cursos de língua. Decidi ler pela nova edição.

Mas eu confesso: levei um susto. Trata-se de uma das únicas edições lançadas no mercado nacional que precisa de recall. A tradução é inclassificável, os erros incontáveis! Talvez eu até ignore os novos destinos de edições de livros assim — como é para uso didático, talvez contenha tantos erros para que os estudantes treinem através da correção. Mas, no meu caso, que não sou estudante, gostaria de um recall deste livro - é obrigação da editora. Precisamo aplicar o Código de Defesa do Consumidor no que respeita aos objetos culturais. Basta ver o que tem apa…

Poema de Federico Garcia Lorca

Pranto pela morte de Inácio


Que não quero vê-lo!

Dize à lua que venha,
que não quero ver o sangue
de Inácio sobre a areia.

Que não quero vê-lo!

A lua de par em par.
Cavalo de nuvens quietas,
e a praça cinza do sonho
com salgueiros nas cancelas.

Que não quero vê-lo!
Que minha lembrança inflama.
Avisa aos jasmins
com sua brancura pequena!

Que não quero vê-lo!

A vaca do velho mundo
raspava sua triste língua
sobre o nariz do mesmo sangue
derramado na areia,
e os touros de Guisando,
quase morte e quase pedra,
mugiram como dois séculos
fartos de pisar a terra.
Não.
Não quero vê-lo!

Subia Inácio pelos degraus
com sua morte nas costas.
Buscava o amanhecer,
e o amanhecer já não era.
Busca a pose segura
e o sonho o desorienta.
Buscava o formoso corpo
e encontrou-o de sangue aberto.
Não venha me dizer que o vê!
Não quero sentir o jorro
sempre com menos força;
esse jorro que ilumina
os estirados e entorna
sobre o pano e o couro
da multidão sedenta.
Quem grita que me aponte!
Não venha me dizer que o…

Carnaval a la Garcia Lorca

O bando de valentes na praça,
rondam sem espada e prudência!
A sua língua é sábia,
lambe o sangue da indigência!
Raminho de arruda,
na lapela, imprudência!

As mães nem se assustam
na praça da indecência!
Não há mãe, ninguém se assusta
com a prisão de um homem indecente!
Ainda mais se esse homem
é feito de muita gente!