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Mostrando postagens de 2015

A poesia em 2015

Qual o balanço dos lançamentos de livros de poesia em 2015? Há dificuldade para esse mapeamento, pois as pequenas editoras passaram a ocupar o espaço da edição dos livros de poesia, geralmente com difícil acesso às edições. Até hoje, por exemplo, não consegui o livro Corpo de festim, de Alexandre Guarnieri, que ganhou o prêmio Jabuti de 2015. Mas, pelos poemas esparsos na web, é um poeta que vem afirmar o caminho de reconhecimento das sensações do corpo na realidade. Foi editado por uma pequena editora: Confraria dos ventos. E também por uma pequena, Mondrongo, o livro A Dimensão Necessária, de João Filho, que parte de uma poética tradicional para sinalizar que está disposto a despojar as formas, se é que ainda é possível despojamento na linguagem. Este livro ganhou o prêmio da Biblioteca Nacional. Algumas edições de poesias reunidas: Orides Fontela, que está chegando ás livrarias, e Ferreira Gullar e Adélia Prado. Saiu pela Companhia das Letras a nova Reunião da poesia de Carlos Drum…

Martim Vasques da Cunha

Nos meus tours pelas livrarias, noutro dia me deparei com o livro "A poeira da Glória", de Martim Vasques da Cunha. Surpreendeu-me os poemas que apareciam no final da obra, de Alberto da Cunha Melo. Não comprei o livro de imediato. Mas sempre que me lembrava dos versos de Alberto da Cunha Melo, algo me instigava. "Um livro que cita um autor que não está canonizado na história oficial de nossa literatura, deve conter bastante crédito." Encomendei o livro por uma livraria virtual, pois assim o seu preço caia para menos da metade do preço. Mas de cara, irritei-me com a apresentação. O apresentador já faz algo pernóstico ao dizer que o livro estabelece "um diálogo íntimo com o meu", e cita o seu livro. Quem está apresentando quem? Nesse gesto já estabelecia que a crítica brasileira é egocêntrica, arrogante e pernóstica. Por isso prefiro Chesterton, pois o que torna algo atrativo é a inteligência e a sagacidade. O importante é que não consegui ir além de um q…

João Filho

A POESIA INAUGURAL DE JOÃO FILHO Assim que foi divulgado o resultado do Prêmio Biblioteca Nacional de 2015, vasculhei a web para buscar informações sobre o poeta João Filho, que levou o prêmio com o livro A dimensão necessária. Não eram muitas, sequer possui perfil no Facebook –pelo menos não localizei. Então encomendei o livro diretamente na editora Mondrongo. Logo No primeiro poema já vem algumas indicações da trajetória que João Filho deseja palmilhar. A cidade se redesenha nos sapatos velhos e gastos, mas com desejo de renovar o gesto limpo. E vai nesta afirmativa de reservar uma reverência à tradição: “porém não lave os sapatos, não porque registre tantos itinerários, andanças, mil labirintos urbanos, a fuligem aí pousada,”  Com o andamento do livro, observa-se um excesso de respeito a estes sapatos “um pouco velhos e gastos”, com sonetos referenciais a temas específicos, como locais de Salvador, a alguma amada, a terça rima para sagrar o riacho. Em outros poemas, a demonstração ao trági…

Sérgio de Castro Pinto

Esta não é uma resenha, mas uma anotação livre pelo impacto de me reencontrar com a poesia de Sérgio de Castro Pinto. Texto bem livre, talvez até com alguma inexatidão e erros, mas com legítima sinceridade. Texto livre numa tarde de descanso e prazer de saber que outros poetas nesta tarde se ofuscam em diversas paragens com os desentendimentos do homem no mundo.
Ter nascido no mesmo ano de publicação do livro Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, me deixa sempre comovido. Só poderia conhecer essa poesia de construção inquebrável muitos anos depois, e não poderia praticá-la, pois seria andar numa estrada já trilhada. E depois me comove encontrar obra daqueles que produziram poesia nos mesmos anos por mim vividos. Nesta semana, ainda me encontrei com a poesia de Adriano Espíndola, que também nasceu em 1952. E depois foi a hora de me comover com o livro Domicílio em Trânsito, de Sérgio de Castro Brito, de 1983. O meu primeiro livro, A moenda dos dias, é de 1979, sendo que o primeiro que es…

Ler poesia é nos sentirmos decentes

Ler um poeta é uma forma, senão a única, de nos sentirmos seres humanos decentes. Não é uma expressão minha, mas eu assinaria decentemente a observação de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden. Em muitos lugares eu gostaria de estar. Gostaria de ter participado da leitura de poemas que os dois fizeram sozinhos num quarto de hotel. Mas aquele momento era só deles. Não teve gravação. São estes momentos únicos que fazem a vida ter justificativa. Temos de ter orgulho de todos os nossos atos, inclusive aqueles que fazemos reservadamente. Quando eu pratico um ato, inda que solitário, se não estiver revestido de ética, não há razão de eu ter direito à liberdade. Não posso corromper a família, o Estado, a mim mesmo. Não há dinheiro algum que valide atos corrosivos. Outro momento de que gostaria de ter participado: da prisão de Garcia Lorca. Ele não merecia ter morrido só, nas mãos de uma ditadura. Há uma tremenda alegria na literatura, mas uma enorme angústia nos seus autores. Não estive no quarto…

Carina Rissi

Estive no lançamento no último livro de Carina Rissi. Notei que há um universo paralelo na literatura. Há um universo da literatura tradicional, que se preocupa com a tradição e o real; e agora esta literatura jovem, com um frisson sensual, que busca um real de glamour. Como funciona isso? A juventude está buscando outro real? Esta literatura levará este leitor jovem depois para a literatura tradicional? Pois notei que há pessoas nesse grupo que não é mais tão jovem. O jovem de hoje demora a querer ser adulto ou demora mais a querer encarar o real? Será que a juventude de hoje avança mais para outros universos que em tempos anteriores? Acho que isso tudo daria um bom debate. Mais alguma pessoa que quiser apresentar alguma observação, seria ótimo. Como é que se poder ver essa tribalizacão entre real e glamourização do real?

Obras Completas de Machado de Assis

Recebi a nova edição das obras completas de Machado de Assis, pela editora Nova Aguilar. Eu diria que é a melhor edição de Machado editada até hoje. Um formato maior, com letras e espaçamento legíveis. O papel ainda não é o ideal. Vaza a mancha excessivamente de um lado para outro. Alguns cadernos vieram com corte fora de esquadro, além de o corte da guilhotina apresentar-se dentado, com irregularidades na edição. A gráfica não deve ser cautelosa, pois um exemplar chegou com manchas de tinta dos dedos do impressor. Mas gostei. Esperava que os contos estivessem reunidos na totalidade, mas ficou faltando mais de 10% do que já está catalogado. Mas parabéns a todos os organizadores. Valeu a aquisição. Com desconto especial, ficou por quatrocentos de um preço de lançamento de 590.

Zbigniew Herbert

Sentimento de identidade
Se tivesse algum sentimento de identidade talvez fosse com a pedra de um arenito sem muita frieza de um claro acinzentado e uma miríade de olhos de pedra de fogo (comparação absurda a pedra vê através de sua pele) de possuir um sentimento de profundo vínculo com algo seria justamente        [com a pedra
de modo algum tratava-se da ideia da imutabilidade era uma pedra de variedade preguiçosa se o sol resplandecia tomava sua luz [como a lua se se avizinhava uma tormenta se punha azul como uma nuvem para depois beber a chuva com avidez e esses seus confrontos com a água a doce aniquilação o combate de entes o choque de elementos a perda da consciência de sua própria natureza e de sua ébria compostura  eram ao mesmo tempo formosos e humilhantes
assim enfim recobrava a sobriedade o ar ressecado pelos relâmpagos envergonhado suor pequena nuvem passageira de amorosos fervores

Eucanaã Ferraz

Li o novo livro "Escuta", de Eucanaã Ferraz. Animou-me o despojamento do uso da língua, o formato adotado para desenrolar a comunicação ágil. Poesia messenger, sem perder a mensagem humana. Por exemplo no poema "Certo": "Hoje quero te falar de permanecer vivo//mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo/nesta hora em que te digo agora". Esse primeiro verso dá da Gonçalo M. Tavares escrever um de seus tópicos de seu ciclo o Bairro. Pois está difícil permanecer vivo. Em outro poema, comovente a alegria de saber que emerge o homem do mar sem ser o afogado. E também o que aborda a impossibilidade de a poesia ser lida pelos mortos. Quantos outros mortos ficaram fora do poema, pois todo morto não lê poesia. Ou quem não lê poesia é o morto. Há uma metalinguagem do risco dessa poesia que emerge do mar desse tempo. Uma poesia que zomba de si mesma, que se sabe grotesca pois emerge do e habita o grotesco. Uma poesia que dialoga com Camões e Alphonsus de Guimaraen…

Basta

Basta que ocorra a visita
e talvez o sólido seja a amizade
a fervura de uma casa
quase inútil se não chega outro olhar

Basta que se interponha na paisagem
o rosto juvenil que se aninha
no linho dos desenhos
Basta o colar ao colo
e ao imaginário virão os alinhavos
na hora sexta das paixões mortas

Basta o Deus perdulário
deixar no galho o veludo do cogumelo
o desenho de um rosto de deserto
o forno com o hálito do peixe
e também o prurido de um cão

Editora Caminhos

Recebi exemplares dos três primeiros livros de poesia de autores goianos publicados pela Editora & Livraria Caminhos. Chegaram num capricho de regalar os olhos! Envoltos numa caixa timbrada da editora, com um decalque e um cartão com a logomarca. Mario Zeidler Filho, o editor, saudou o nosso blog "Literatura Goiana", que já teve em torno de 60 mil acessos.  Trata-se da reedição de Poemas e Elegias, de José Décio Filho, que, junto com José Godoy Garcia e Accioly Filho, firmaram o Modernismo em Goiás. E, os outros: Violetas Violadas, de Teresa Godoy, poeta de Pirenópolis; Últimos Sonetos, de Heitor Quilles, goiano que vive no Uruguai. Poemas destes autores, isoladamente, foram postados aqui no blog. Para conhecer a editora ou encomendar os livros, visite o site: www.livrariacaminhos.com.br

Rua da Direita

Enquanto nada acontece vamos fazer uma pergunta ou dar uma resposta
Ou dar um oi
já que hoje não temos passeio ao rio dos Bois
Para ceifar o matagal
tirar as foices da viga do paiol
Chegou a visita?
Ronda teu nariz algum mosquito?
Há a rua enorme e vazia e silenciosa
à espera das crianças com os skates
Ou só o dia enorme e indiferente
com a igreja do Senhor do Bonfim no fim da rua
Vestir a boa roupa
e ficar elegantes para pensar coisas grandes
e não surgem na rua os elefantes
Até as formigas descansam a esta hora
e vazio fica o terreiro
Quase estamos presos numa masmorra de Palmelo
Já assisti nessa paisagem de adormecida poeira e de desânimo

Publicação no Diário da Manhã

Aguardo com ansiedade meu exemplar do livro analisado abaixo. Alguns poemas aparecem junto com os bons goianos:
Sublimes linguagens:  harmonia e perfeição sob a tutela de Elizabeth Caldeira Brito
O homem, desde os primórdios de sua existência, foi impulsionado a expressar os seus sentimentos. Na sua simplicidade, entrou no mundo das artes, grifando nas rochas e elaborando esculturas, contando com o material que tinha em mãos. Mais tarde, começou a usar as palavras gravadas nas pedras e a explorar os recursos de voz para emitir sons musicais. Externar emoções é inerente ao ser humano.
As artes, a literatura e a música sempre caminharam juntas no decorrer do desenvolvimento da civilização. Gradativamente, surgiram grandes talentos, porém, a posteridade tomou conhecimento apenas do material que foi registrado. Quantas maravilhas foram apreciadas, na época em que foram produzidas, e se perderam no tempo sem deixar marca para que outras gerações pudessem desfrutar desse acervo c…

Enquanto o engano

Continuo no ponto de espera enquanto há o engano na duração de uma lua com a extinção da água na cornucópia de Orfeu Nos barris negros enquanto não foram vapor e nem me interpor nas curvas das assinaturas
entre os acordos das coordenadas
Na fixação do rosto na podridão do assédio
e ser assaltado pelo despudor da falha dentária
To be/não me engano com a mão empurrada para o vértice das pernas enquanto se apresentam as moscas sicilianas que vieram de um diálogo do filme de Losey Não me engano pela troca da espingarda pelos acres de terra/ficar este ser sem onde atirar/mirar ao Norte entre os saltos das ondas do bestiário
Não é por ludíbrio que todos se ausentam Talvez por conhecer os estirões nos joelhos a desnecessária vara do pau-de-arara Talvez pelo balde vazio/pela covardia de não se mover no engarrafamento Acreditar-se com a riqueza enviada pelas barreiras do câmbio suíço e ter de balançar o berço de talas do Calvário
Curto meu ócio/minha viagem habitada por bivalves que ofuscam as vulvas do significad…