Pular para o conteúdo principal

Ler poesia é nos sentirmos decentes

Ler um poeta é uma forma, senão a única, de nos sentirmos seres humanos decentes. Não é uma expressão minha, mas eu assinaria decentemente a observação de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden. Em muitos lugares eu gostaria de estar. Gostaria de ter participado da leitura de poemas que os dois fizeram sozinhos num quarto de hotel. Mas aquele momento era só deles. Não teve gravação. São estes momentos únicos que fazem a vida ter justificativa. Temos de ter orgulho de todos os nossos atos, inclusive aqueles que fazemos reservadamente. Quando eu pratico um ato, inda que solitário, se não estiver revestido de ética, não há razão de eu ter direito à liberdade. Não posso corromper a família, o Estado, a mim mesmo. Não há dinheiro algum que valide atos corrosivos. Outro momento de que gostaria de ter participado: da prisão de Garcia Lorca. Ele não merecia ter morrido só, nas mãos de uma ditadura. Há uma tremenda alegria na literatura, mas uma enorme angústia nos seus autores. Não estive no quarto em que João Antônio apodreceu solitariamente, sem a presença de escritores e de familiares. Mas é bom morrer solitariamente. Só temos de viver de forma agregadora, respeitando as leis, inclusive de responsabilidade por nossos atos. Cada ato humano tem de contribuir para melhoria do mundo e não só com nossos interesses. Esquecemos de ir discutindo a ética. Se não nos lembramos disso todos os dias, admitimos que é possível ultrapassar o limite da moralidade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha sobre o filme "300"

Por Ana Paula Condessa

Todo filme tem seus méritos, seus pontos fortes, mas também tem furos e contradições. O filme 300, já em exibição, surgiu da história em quadrinhos “Os 300 de esparta” - criada e desenvolvida por Frank Miller. É impressionante a grandeza da produção do filme que chega a representação, com muita propriedade, por retratar a batalha que enfrenta o rei Leônidas -,os soldados espartanos, seus aliados contra o exército persa de Xerxes, na Batalha das Termópilas -, desfiladeiro da Grécia. Esparta - é uma sociedade que é toda voltada para a arte da guerra e todos os indivíduos, que dela fazem parte, são instruídos para tal. No filme é passado muito do que era Esparta e seu contexto, algo de muito valor para compreender a essência da Batalha das Termópilas - . A guerra é o meio de vida dos espartanos e, antes mesmo desta grande batalha que ficou para a história e, cujos métodos e estrutura de guerra foram usados por muitos anos em batalhas posteriores, eles moldaram um im…

ULISSES, de Tennyson

Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como e por que ler os clássicos, pois, para respeitar a métrica, acabaram cortando parte do enunciado - e isso refletiu na perda da dramaticidade. Fiz a minha adaptação livre a partir do espanhol. Auuuuuuau!!!!! Há uma tradução de Haroldo de Campos que saiu numa edição do Mais!


Fútil o ganho para um rei nada útil,
na calma do lar, à beira de penhas áridas,
unido a uma idosa esposa, a impor e dispor
iníquas leis a uma raça selvagem
que come, e amealha, e dorme, e de mim nem sabe.
A mim não resta senão viajar: beberei
a vida até o fundo. Sempre desfrutei
da fartura, e com fartura sofri, junto àqueles
que me amavam com amor ímpar; e, em terra,
arrastado pela corrente, as chuvosas Híades
agitavam o lúgubre mar: ganhei nome:
para sempre vagando com coração ávido,
vi, possuí, e muito conheci; cidades de homens
e costumes, climas, conselhos, governos,
nunca com desprezo, ma…