Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2008
Sempre vou me atrasando para alguns compromissos, às vezes empurrado pelo simples enfado. Até agora não desejei boas festas a nenhum amigo. Não é por desleixo ou desamizade — é um tédio de querer ficar em suspenso, sem a necessidade de ser heróico, ético ou cataplético. Ficar borboleteando sobre a flor e a lama, e continuar humanamente borboleta, amigo da lama e da flor.
Apanhei ao acaso o romance “A hora da estrela”, e Clarice Lipector que, ao escrever esse livro, é ela mesma ou outro personagem masculino que constrói, num gesto quase filosófico ou de manifestação santa, o ápice de beleza a partir de uma vida simples.
E há uma frase nesse livro que vai servir para eu saudar os meus amigos neste fim de ano: “tudo que amadurece pode apodrecer”.
Portanto, não vamos nos preocupar em ser perfeitos ou em nos realizar completamente. Mas vamos imitar Julien Sorel, do romance “O vermelho e o negro”, de Stendhal, que está preocupado em ser feliz. Talvez tenha vindo deste romance a expressão: “est…
Não podemos exorbitar do amor!

Não sei do que mais gosto no romance "A hora da estrela", de Clarice Lispector. Romance? Novela? Desespero? A dedicatória é uma trava na garganta da beleza. O final é uma confissão da autora, ao abandonar sua personagem. Uma confissão de amor à vida. Será que o filme "Gosto de cereja" não saiu da frase final de Clarice: "... por enquanto é tempo de morangos", portanto é inútil a morte. Eu não queria, mas vou registrar a frase que mais gosto neste livro-confissão, quando Macabéa está passeando com o namorado, que é torneiro ou mecânico (não me lembro, só sei que não é presidente), e ao passar diante de uma loja de material de construção com os produtos expostos, sem o que dizer, ela faz a melhor declaração de amor da literatura brasileira: "Gosto tanto de prego e parafuso".

Em alguns momentos exorbitamos inconscientemente do amor. Noutro dia, ao ler a crítica literária de uma jornalista por quem tenho grande estima…
Em confraternização com amigos das Assessorias Parlamentares.
Ilma, o ministro José Múcio Monteiro (que confessou ter muita poesia inédita), Lucinha, Vera e esposo, o ex-poeta Ronaldo Alexandre, Rose, o poeta que vos fala e muitos que estão em outras fotos.
Com a presença do presidente da República, muitas autoridades e escritores, será aberta, oficialmente, nesta quinta-feira, 11 de dezembro, a Biblioteca Nacional de Brasília. Nosso abraço ao amigo Antonio Miranda pelo belo trabalho para tornar real a presença de uma biblioteca em Brasília capaz de expressar a modernidade digital. Não será apenas +++ uma biblioteca, mas ++++ uma experiência futurística de interação do homem com a sua memória cultural.
Já pode ser conferida dentro projeto (de forma digital) a antologia Deste Planalto Central — Poetas de Brasília (basta clicar duas vezes no nome da antologia). Aqui você pode conferir na íntegra a antologia que organizamos, em formato pdf, para a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, organizada pelo Biblioteca Nacional de Brasília.
Foram muitas as justificativas para as ausências ao lançamento de nosso livro Momento Crítico. Telefonemas. Emails. Caminhadas do Senado Federal até a nossa insalubre sala num sótão da Câmara dos Deputados — Vera, foi emocionante o seu gesto.
Em nome de todos que acusaram as razões para a ausência, destaco a da poeta Gardênia Maciel em seu blog. Postou um poema de nossa autoria e concluiu em seguida: “Aproveito aqui e peço desculpas ao amigo por não ter ido prestigiar o lançamento de seu livro ontem aqui em Brasília. Contratempos amorosos…”
Já nos encontramos e ela já está com meu livro, no qual eu disse na dedicatória que os contratempos sempre geram tempestades e ausências. Justo!
Eu gostaria de encher esse blog com as fotos de todos que compareceram ao meu lançamento. Mas eu seria injusto com muitos, pois nem sempre temos o domínio de todo o lançamento para controlar que todos os convidados sejam fotografados e mesmo seria complicado incluir a presença de todos.

Agradeço a presença dos escritores, dos amigos, e dos familiares, especialmente da Francisca, companheira ali preocupada em chegarmos atrasados, dirigindo no meio do engarrafamento — já que nunca terei carta de motorista em homenagem a Carlos Drummond de Andrade, de saudosa memória, pois me escreveu bela carta há trinta anos acusando o recebimento de meu primeiro livro.

Não posso deixar, no entanto, de agradecer a presença de Luiz Antonio de Medeiros, secretário de Relações do Trabalho; do poeta Antonio Miranda, diretor da Biblioteca Nacional de Brasília; da deputada Andréia Zito e do deputado Edinho Bez.

Representando todos todos que estiveram presentes, incluo apenas duas fotografias. A presença surpr…
Brasília quebra o bloqueio + uma vez. acha a lâmina de quebrar os muros que ilham a sua cultura.
robson correa de araujo chega com sua acha mas fuerte pela ed luminuras através do hipertexto BR INFINITA
ele anuncia que é romance. e vale o que o autor diz dizia mário de andrade e silenciam a falsa irmandade
outros diran: confession! su mission esta dicha!
felicidade para todos nós: vejam e vayan ao lançamento para ajudá-lo a nominar este texto hiper hupa hupa:
Sobre o lançamento do livro Momento Crítico, declarei a um jornalista que, para mim, representa "o momento de interagir com leituras e participar do processo da perpetuidade da civilização. Entendo que o brasileiro tem lido pouco e, com isso, tem pensado menos ainda. Nos momentos da civilização em que o homem relega o conhecimento para planos inferiores há comprometimento da ética. Sem permanente processo crítico o homem acredita que está livre para qualquer ato, podendo cobrar ética só para aquele que estiver fora do seu círculo. Portanto, penso (e este Momento Crítico é parte do meu processo de pensar) para não passar omisso pelo meu tempo. E espero que os demais venham pensar comigo através desse livro — corrigi-lo ou corrigir-me, complementá-lo ou complementar-me. Mais uma espolética: o que o outro pensa me complementa."
Motivado por algum crítico — não me lembro se por Carlos Fuentes —, incluí, tempos atrás, na prioridade de minhas leituras o romance Miguel Strogof, de Júlio Verne. Posso dizer que foi o único livro deste autor que li, pois sempre passei ao largo de suas obras. Concluí a leitura neste momento. Em êxtase. Trata-se daqueles livros cercados do domínio do narrador sobre a trama, sobre a construção dos personagens, de levantamento de mínimos detalhes para gerar situações éticas e de suspense, sobre o prazer de narrar como divertimento. Está sendo perdido esse prazer de narrar por narrar: e não pelo profisionalismo de construir! O narrador, aqui, cria situações tresloucadas, mas verossímeis, pois ocorrem através de elisões, omissões, suspenses. Ainda estou acreditando que Miguel Strogof existiu, que atravessou 5 mil e quinhentos quilômetros enfrentando agruras que nenhum mortal jamais sonha ter pela frente. Acredito que todos os encontros casuais entre os personagens verdadeiramente ocorrer…
Já está programado o lançamento de meu livro
Momento Crítico.

Data: 2 de dezembro, uma terça-feira, a partir das 18h30
Local: restaurante CARPE DIEM (104 Sul, Bl. D, lj 1 - Brasília - DF)
Informações: (61) 3344-3738 ou salomaosousa@yahoo.com.br


Texto da orelha, que esclarece o propósito do livro:
Em edição com recursos captados junto ao Fundo da Arte e da Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, MOMENTO CRÍTICO reúne parte da produção crítica de Salomão Sousa, publicada em jornais e no Chuço — zine xerocopiado que o autor manteve por mais de dois anos em Brasília. Apesar de produzidos em épocas diferentes (às vezes distantes), são textos que convergem para uma preocupação reflexiva central: o lugar da cultura num mundo em transformação, em que o homem — imerso no egocentrismo — mergulha numa funda crise de humanismo, com óbvia agressão ao outro e aos bens comuns da comunidade. Além de reunir textos híbridos de crônica e artigo, Salomão Sousa aproveita para coligir na últ…
Parece, mas não estou desligado do meu blog e de minhas atividades literárias. Estou no trabalho de finalização de meu livro MOMENTO CRÍTICO, de crônicas, artigos e de minhas espoléticas (meus aforismos espoletas éticas). Eu pensava em lançá-lo só no próximo ano, mas consegui adiantá-lo, podendo vir a fazer o lançamento daqui para a primeira quinzena de dezembro!
Já escolhi a fotografia da capa. Será nova parceria com o poeta e fotógrafo e amigo Robson Corrêa de Araújo. Trata-se de visão colhida num muro de Silvânia, que reflete a fragmentação contemporânea, construída com cacos, mas que gera uma beleza caleidoscópica extraordinária!
O blog é um local para acariciarmos o ego.
Acabo de reencontrar-me com um poema-circunstância
de José Godoy Garcia, dos tempos da edição do Chuço.
Para quem leu o Chuço e queira relê-lo
ou para quem não conheceu o meu zine,
deixo o pequeno poema aqui:


Salomão dos Cantares

Ele toca as moendas dos dias.
Solidário como as chuvas, molha de poesia
o pobre mundo. Conselheiro,
conciliador, reparte consigo as dores
em cima das feridas alheias. Ri
beijando as verdades mais simples
No entanto, parece frio e sonso.
Passa pelas mulheres mais belas
nem as vê, sacode a poeira do dia
no terno universo de seus livros.
Eis a síntese maravilhosa de seu ser:
sua família, seus amigos, seus livros.

José Godoy Garcia
DESTE PLANALTO CENTRAL — POETAS DE BRASÍLIA
antologia organizada por
Salomão Sousa
Capa: recorte de pintura da poeta
Xenïa Antunes


Nesta quarta-feira, 3, será aberta a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, sendo o pré-lançamento da antologia um dos eventos inaugurais.

A Câmara Brasileira do Livro e a Biblioteca Nacional de Brasília convida todos os poetas antologiados para estarem presentes no pré-lançamento coletivo, que acontecerá das 17 às 19 horas na área externa da Biblioteca Nacional de Brasília. Não será um lançamento formal, mas uma grande festa com os poetas da antologia e demais escritores que estiverem lançando seus livros. Todos poetas que desejarem vender livros de sua autoria, poderão levá-los. Será um momento festivo para fotografias, autógrafos dos exemplares da antologia que serão distribuídos na oportunidade.
Na quinta-feira, 4, entre as duas sessões magnas da I BIP (20h30 e 21h), será feito o lançamento oficial da antologia no Auditório do Museu da República – Tér…
Um poema construído após um diálogo com Gardênia Holanda Maciel
sobre a necessidade de montagem do poema acima da datação do real:


Está incompleta a boca.

Esqueceu o vértice de uns ombros,
da prata de uns umbrais.
Da possível palmatória na hora do crime,
das algas já em águas claras.

Não se lembrou do instante de inclinar
a palavra — a palavra que liberta o escravo.
Esqueceu de enfiar outra saliva
na travessia de uns umbrais.

Abandonou o sopro
diante do que dizer.
Se achou florida a calêndula,
deixou-se lêndea escrava nas escarpas.

Estão fundadas as ruínas de calar .
Acabo de receber um email carinhoso do amigo Donaldo Mello:

Prezado Salomão Sousa,

na mesma ocasião em que não poderia comparecer à sua palestra na ANE, felizmente que, presenteado pelo poeta A.C. Osório com o vol. 18 da Revista da Academia Brasiliense de Letras (2005), no dia da posse do Taveira, seu belo texto atemporal A perene aurora de José Godoy Garcia a mim chegou. Li-o comovido, apreciando o desvelar contínuo de um homem (amigo), de um autor e sua vasta obra, provavelmente fruto de um grande poeta e fundo pensador da vida, regido pela natureza e suas imprevisibilidades.Portanto, continuando a ser seu leitor, aprendi um pouquinho mais sobre a poesia goiana e sabedoria de um grande poeta: "perene aurora". Ele, capaz de ensinar como Sêneca propunha, que a felicidade consiste em se adaptar à natureza ( "a poesia é tudo o que pássaro pensa da chuva") para manter um equilíbrio que nos deixe a salvo das vaidades da fortuna e dos impulsos do desejo que obscurecem a…
Nesta noite, às 20 horas, farei uma palestra na sede da Associação Nacional de Escritores sobre a poesia goiana.
Enquanto isso, termino a leitura do romance "Hard Times", de Charles Dickens, na edição espanhola da editora Catedra. Este romance foi traduzido uma única vez no Brasil — tamanha é a indiferença do mercado editorial entre nós. Na Espanha, são doze traduções, quase sempre com três edições cada uma delas. No mínimo. É uma crítica ao Utilitarismo, às relações humanas, ao confronto entre patrão e empregado. São temáticas amplas, mas interligadas. Se hoje não temos o Utilitarismo, temos o Egocentrismo — que vem a dar no mesmo —, pois o indivíduo se preocupa excessivamente consigo, com o enriquecimento, solapando as relações sociais. "Tempos duros" — talvez fosse uma boa tradução — ou melhor: "Época Dura Nestes Tempos".
Quebramos o cronômetro da Sherle.
Areia, sombras e sombras e sargaços
— perdidos nalguma corrente,
éramos aves desgarradas
frente às falésias.
Quebramos a ansiedade ao ver
os marcos antigos dos descobridores.
Ouvidores do rei
e os despachos das arcas do tesouro.
Restos de uma réplica de nau
que só poderia estar sem porto.
Quebramos o medo dos monstros de lama
e das criaturas más inventadas ao Norte.
Ex-votos com mãos estendidas,
dedos longos, cabelos espremidos
no asfalto, e o mar ainda
entre as estacas.
Quebramos a rigidez das faces.
Outra cor ao corpo, rotas
de desovar. Pó de ostra
nas garrafas. Outra onda
vem — junto às crianças se desdobra,
quase sem cor —, se é puro o sol,
se é o despudorado sal.
No mangue movemos os pés
de nosso animal.
Quebramos o tormento
de repetir a mecânica de andar.
Ir é outro prazer. Ouvir
outras palavras, entre os dedos
areias, cordões coloridos, quase apanhar
as finas barbas dos tubarões e das enguias.
Narinas moles respiram água.
Quebramos — e acabam as avenidas
e as orlas. Arrastam-no…
Eu e Yuri no dia da entrevista citada abaixo
Postei no meu "segundo blog" (salomaosousa@blogspot.com), o qual destino para textos mais longos — sobretudo dedicados à minha obra —, a entrevista que concedi em em maio de 2008 a Yuri Soares Franco, estudante de História da UnB. A entrevista aborda aspectos de minha vida, da história e da poesia de Brasília.
Agradeço a Yuri a escolha de meu nome para o trabalho.

Deixo aqui o email que el me mandou com o trabalho:

Salomão, finalmente terminou o semestre, e é com muito orgulho que informo que sua entrevista e minhas considerações feitas nas aulas me trouxeram uma boa nota e bons comentários da professora e dos demais alunos, além obviamente de muito conhecimento advindo tanto da metodologia e conhecimentos específicos da matéria como da história viva de Brasília e da literatura brasiliense representados na sua pessoa. Desculpe a demora, mas eu estava esperando o resultado das notas para enviar-lhe a transcrição e os comentários. Novamente muito obrigado pela sua disposição e p…
Agradeço à Leonice Jacob, conterrânea valente, que lançou recentemente o livro "Labirintos de Mim", as referências carinhosas ao me incluir entre as ilustres figuras da cultura de Silvânia:
Falei sobre o professor Edmar
Do seu “enredo e personagens”
Dos seus traços marcantes
Que perseguiram os meus
Iluminando-os com sua sabedoria.

Com Rubens Vieira
Lembrei-me do antigo cinema
Da lida diária da pequena Bonfim
Quando um "tropel de emoções"
Invadiu nossos corações.Com Antônio da Costa
Revivi a rua comprida e estreita
Que foi cúmplice das nossas brincadeiras
De infância e adolescência. Dividi a minha saudade
Com Inácio José de Paula
O vi crescer batalhador
E cheio de esperanças
E na cumplicidade da pequena rua
Que fazia-nos irmãos. Em “Memórias”
De Osvaldo Sergio Lôbo
Senti-o carente
De amor, inocente
E uma ponta de saudade
Bateu forte no peito Oh! Meu glorioso Salomão
Quando nascer de novo
Quero ser como você
Quero fazer uma “safra” de livros
E nas “horas vagas”
Deleitar-me na “moenda dos d…
O DESVIOYêda Schmaltz
A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.
E me importa muito menos
se aceitas solenemente
a nossa vida parca e torta.
Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.
A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.
E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.
Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!
A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.
E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.
Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.
O poeta Lívio Oliveira, de Natal (RN), que conheci casualmente aqui em Brasília numa loja de discos, e que acabou se revelando um amigo de imensa generosidade, acaba de publicar uma entrevista comigo. Ela pode ser conferida no seguinte endereço:
SUBSTATIVO PLURAL.
Trata-se de uma das páginas de literatura mais respeitadas do Nordeste.
À noite, a cidade, ainda que continue guardando todo seu potencial de sujeira, apresenta um colorido mais limpo. Mesmo que os carros estejam todos ali, amontoados e também absorvendo o frio em suas chapas, o silêncio — ainda que um taxi apareça para apanhar o velho que chegaremos a ser — parece uma brecha instantânea de possibilidade de diálogo.
Estive no lançamento de um livro de poemas. Ontem à noite. Um livro de poemas ou um livro de nada, de letras, de manchas de silêncio. Alegra-me estes escritores que confiam nos seus livros como se fossem as suas brechas de diálogo, já que seus livros nascem tão inúteis. Tenho dó das palavras que estão nestes livros, já que usaram tão bem a vida dos autores e os autores deram-lhes vida tão precária. As palavras também querem a sua glória.
Enquanto aguardava na porta do hotel, com o pouco silêncio rondando a portaria onde estávamos sentados, li um poema de Ronaldo Costa Fernandes para um garoto e seus pais. Era a minha maneira de esquivar-me de u…
Para o Lítero, de Selmo Vasconcellos:

"Numa biblioteca estão todas as paixões e vitórias humanas. A cidade que não tem uma biblioteca deixa seus habitantes com menos possibilidades de ampliar suas paixões e suas vitórias, pois a leitura amplia a força imaginária, a resistência para a vida. A cidade que tem uma biblioteca está ao lado de todas as cidades do mundo. Ai! numa biblioteca nenhum homem está solitário!"
"Há certos dias em que acordo com uma esperança demencial, momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance de nossas mãos."Quando se fala tanto nos primeiros parágrafos dos grandes livros, lembro-me desta frase de Ernesto Sábato, do pequeno livro de ensaios A Resistência, que acaba de chegar às livrarias pela editora Cia. das Letras.
Sou uns dos admiradores de Ernesto Sábato. Estão no meu sangue aqueles autores que injetam humanismo nas suas metáforas. Não é à-toa que está ali na primeira frase do livro "a vida mais humana", pois a vida às vezes se emporcalha na mercantilismo, na frieza de coração...Já que o livro está agora em português, tomemos um pouco de humanismo, lendo-o. Talvez eu até vá relê-lo. Trata-se de um pequeno coice no egocentrismo.


Uma fidelidade veio ficar comigo
Uma fé sem bomba escondida no casaco
Vieram parar bem aqui
entre os eixos que fazem a paz
Protege a minha porta
a serenidade sem lama
Sinto-me sem fronteira
se extintos os negociantes
com os aros de impedir nossos pés
Nossas mãos já se aproximam
Os lábios não se disfarçam
com o cuspe e com o chulo. Sinto.
Sinto que não sou eu que me enche
Enchem-me uns lábios, uma idéia
um corpo vindo sem fronteiras
Sinto que chegou sadio
o homem que come comigo
o meu o pão e planta comigo o desejo
Sinto que enche de força os meus ossos
Uma fidelidade me beija
Tão perto um Tibete sob meus pés
Beijo o calor de seu cânhamo
o rastros de seus cães
Sacio-me
na fidelidade de seu cântaro

@ Salomão Sousa
Luiz Martins da Silva, poeta daqui de Brasília, nosso amigo, visitou este blog e nos remeteu email incentivador. Deixamos aqui um poema de sua autoria.

Tercetos

Luiz Martins da Silva

Por mais que se queira o oásis,
Nada irá conter o determinado,
A implacável têmpera da areia.

Quando acordamos, de imediato,
A clareza: foi tão somente sonho.
Não há sereias.

Há anos, na montanha, um monge
Acredita ter firmemente aprendido:
Vencer é não lutar.

De volta ao mundo, às ruas,
Ao calor dos sentidos, ei-lo de novo:
Ressurgente, ereto: o desejo.
Visitei ontem uma exposição de documentos
da história portuguesa.
Impressionante a peça denominada "cupa",
que os antigos deixavam dentro da tumba.
Parece um pesado aríete de Pedra,
taLVEZ para arrebentar as portas do paraíso.
Ainda pesquisam seu significado.
Enquanto isso, deixo aqui um poema
em que me valho de sua simbologia
para registrar a minha inquietação
de estar presente no Universo.
Versos, portanto, de inquietação.
Sempre que olha para as mãos
e elas se oferecem limpas
a borduna lhe apetece
e mais lhe apetece
quando o repouso de um homem
oferece-lhe o beijo na face

Pediu-me para segurá-la
Se é mansa a oração
e brilha quieta
a estrela no universo
pede-me a borduna
o inimigo ao desabrigo
de uma paz que o anime

Não pede o gesto que o aqueça
Não pede a abertura da trilha
ou o ajeito de uma telha
Pede-me a borduna
de arrancar a marca de sangue
que o satisfaça em seu abrigo

Para a paz do inimigo
ofereço o sangue de animar a festa
São multidões para morrer
e para as urnas faltará madeira

No melhor recorte de pedra
já esculpida a minha cupa
Irei sem exércitos, sem armas
com as culpas que fiz e herdei
Sem água, punhos de marfim, elmos
na cúpula de silêncio
só com meu recorte de pedra
Sem guilhotina, horda de dementes,
engendro grafias para que a sabedoria
não seja só outro grão na areia

No mostruário, confundem-se os ossos
expostos com ostras e oferendas

Desconheço se é de um filho
ou de uma amada ou do inimigo
os ossos que levo por meus
No último dia não virá
a criança que sapateava
em espasmos de alegria
Saltitava sobre o tablado
sobre os entrelaces dos guerreiros
Com os ossos de outros ou meus,
terei de mover a minha cupa,
fazê-la o aríete de arrebentar
os portões da fortaleza


Na cupa não haverá outras inscrições
Na fortaleza já se apagaram os últimos frisos
Somos — eu e os guerreisos,
eu e os ossos de uma amada, e do inimigo —
só os entrelaces na tapeçaria
em que saltita a criança dos pequenos guisos

Depois de muito pesquisar em livrarias argentinas, consegui a edição dos ensaios completos de Ernesto Sabato, pela editora Seix Barral. Admiro estes escritores que resistem diante dos problemas históricos de seus paises, e buscam reversão crítica para os ações corruptas da humanidade. Sabato participou dos trabalho de Tortura Nunca Mais. E, em muitos momentos se preocupa com o processo de desumanização do indivíduo, sobretudo pela convivências com a máquina. Em um texto ele lembra, com muita justiça, que as famílias, em vez de dar um animal-máquina para as crianças cuidarem, dessem uma avó ou um avô bem velhinho.

Sempre me emociono ao ler Sabato. Nele não há guilhotina, não há tina de merda, ou a erva da idiotice. Nele há humanismo.

Em uma homenagem a Che Guevara, na Universidade de Paris, ele lembra:

" Porque a sua morte tem disso: o valor de um símbolo. E nesta sociedade racionalizada que desertou, esqueceu e menosprezou os símbolos mais valiosos que o fervor e o sacrifício, pode …

ALTIMAR PIMENTEL

Sempre que nos comovemos com a notícia de algum falecimento é sinal de que a pessoa estava inscrita entre aquelas especiais para nós. É assim com o caso de Altimar Pimentel, que faleceu agora em 21 de fevereiro de 2008. Podíamos ficar anos sem nos falarmos, principalmente em razão da distância territorial que nos separava (eu em Brasília e ele na Paraíba), mas nos sabíamos próximos na amizade.
Cursamos juntos Jornalismo no CEUB. Ainda me lembro da montagem de um texto dele como trabalho em uma das disciplinas. Tudo muito divertido — havia uma cena em que assávamos churrasquinho de mãe.
Deixo aqui o texto que o portal da Paraíba publicou no dia do seu falecimento.

"O escritor, teatrólogo, folclorista e professor aposentado da UFPB Altimar de Alencar Pimentel, aos 71 anos, morreu às 18h30 desta quinta-feira (21), no Hospital da Unimed, em João Pessoa, onde estava internado desde a última sexta-feira e morreu de complicações renais.
O corpo está sendo velado na Academia Paraibana de Le…
Revendo a poesia de alguns escritores de Brasília, notei a importância da temática de resistência dns anos da décadas de 70. Um poema pequeno de Lourdes Teodoro, com luminescência vital que lembra Montale:


ORAÇÃO DO MUTILADO

Lourdes Teodoro

o verde em mim
é um remoto ponto escuro.


Vejamos também o poema Remorso, do saudoso José Roberto de Almeida Pinto, que hoje é embaixador em Honduras:

REMORSO

José Roberto de Almeida Pinto

Nesta Brasília, calada
nesta sala assexuada
Nesta hora desgraçada
Eu sou somente remorso.

Aço preto na testa,
Acre sertão na garganta,
Resina de esgoto nos olhos,
Eu não sou mais que remorso.

Eu não sou mais que a vontade de sair correndo
estraçalhar a cara no primeiro poste, o homem
que um dia sonhou ser bom, a besta
que quer fugir e não pode
que quer berrar e não pode
que quer, meu Deus, ser perdoado.

Nesta véspera de sábado
Nesta Brasília silente
Há festas, boates, mulheres.

Roendo osso, remorso
Nesta sala indiferente.
Nesta hora desgraçada
Há somente o homem em face de si mesmo e náusea
O…
Ao preparar o material do catalão JOAN BROSSA
para a página do amigo Antonio Miranda, dei de testa com a "Elegia a Che",
poema visual que mostra a ausência do guerrilheiro. É um poema de extremado silêncio, que nos queima as mãos quando colocamos os olhos naqueles vazios.
enquanto arrumas emprego
o louco grita próximos aos escritórios
procura por lentes de extinguir
os empórios da febre
a boca pronta para a mordida

já que o louco não é um bicho
talvez pudésseis lhe dar um prego
o louco martelaria com cabeça
afunelaria o vão na parede
por que não oferecer
os lábios em que ferrar a mordida?

em que acreditas, se não vês o louco?
talvez acredites no equilíbrio do pássaro
ou em qualquer outra insânia
veja na bifurcação da Divinéia
ou no rouco molejo da cama
da rua que tu achas que existe

a mãe do louco bate nas portas
com chocalhos de escaravelhos
leva dádivas de pães caseiros
e em seguida também enlouquece
blasfema ameaça à distância
com o muque e facões velhos

cansados da insanidade
se deixam debaixo dos oleandros
e divertem-se com o sabiá-da-terra
riem enquanto pássaro
abaixa e eleva a cauda
e espreita aquela paz de mãe e filho

se há pregos velhos
colecionam-nos esfuziantes
em montes com cabeça e sem cabeça
se há frutos colhem-nos
ofertam-nos aos transeuntes

calados os gritos do louco
enq…
Será a bandeira da pose amarela
o bem-te-vi na ponta da piteira
A sua geografia ao longe
em luares espalmados de besouros

O suicida se esquece em meus braços
A sua geografia de lutas secas
ainda que se enfureça quase dentro
em cio
exangue e em fúria
um touro ou traça

O suicida amontoa cobre nos pulmões
telas de vidro
bestas famintas de mofo cítrico
Não entende que são reais
os pulgões que o comem pelas bordas

Sem nada para compreender
não lhe resta para comer
nem besouros ou libélulas
A geografia do suicida
não assinala nenhum luar de festa

@ Salomão Sousa
Domingo com muitas crianças em casa.
Pouco tempo para raciocionar,
mas ainda assim
pude conversar com a minha visita mais assídua predileta:
o poeta João Carlos Taveira.
E também, após assistir trecho de um filme de avant-guard,
imaginar um possível título de livro de poesia:
"Treino para enlouquecer".

E também, em tempos de febre amarela, escrever um miniconto para o Robson Corrêa de Araújo.

"O pernilongop entrou no quarto com Tcheckhov."
Fiz a tradução de um poema do espanhol Pedro Salinas.
Dele são os poemas amorosos que ainda tolero ler,
sem sentir tão ridículo.

DÁ-ME TUA LIBERDADE

Pedro SalinasTradução: Salomão Sousa
Dá-me tua liberdade.Não quero tua fadiga,não, nem tuas folhas secas,teu sonho, teus olhos cerrados.Vem a mim a partir de ti,não a partir do teu cansaçode ti; quero senti-la.Tua liberdade me traz,assim igual a um vento universal,um odor de madeira.remotas de teus móveis,um monte de visõesque tu viasquando no alto de tua liberdadejá cerravas os olhos.Que bela tu livre e de pé!Se me dás tua liberdade me dás teus anosbrancos, limpos e agudos como dentes,dás-me o tempo em que a gozavas.Quero senti-la como sente a águado porto, pensativa,nas quilhas imóveisem alto mar. A turbulência sacra.Senti-la,vôo parado,assim como a quieta várzeasente a ramaonde vem a ave e pousa,o ardor de voar, a luta pertinazcontra as dimensões azuis.Dencanse-a hoje em mim: vou gozá-lacom um tremular de folha em que descemgotas do céu ao …
"Conversas demoradas e idiotas, convidados, solicitantes, os dois ou três rublos de gorjeta, os gastos com os cocheiros para visitar os doentes que não me dão nem um centavo —, enfim, uma bagunça tamanha que me dá vontade de fugir de casa. Pegam dinheiro emprestado e não devolvem, surrupiam-me livros, não dão valor ao meu tempo... Só me está falando um amor feliz."

"Há um pernilongo em meu quarto. De onde terá vindo?"

Das cartas de Tchékhov a Suvórin, seu editor e amigo
Neste dia em que acabam as minha férias,
acordo com a sensação de que falo
todas as línguas do mundo,
menos a que cresceu comigo,
que deu voz às minhas alegrias
e realidade ao universo em que sempre vivi.
Não consigo me comunicar com meus familiares,
com a realidade que me circunscreve,
com a anarquia dos meios de comunicação,
com.

A poesia é uma procura — de um lugar, de uma ordem,
de um Reino, ou mesmo de um desastre infernal
a nos comer eternamente o fígado.Todo homem está numa procura. De si mesmo, de um lugar. A procura dos limões para o olhar,
dos girassóis para o sol das manhãs. Uma frágil mão para fortalecer a nossa frágil mão.
A partir da tradução de Octavio Paz,
deixo aqui a minha versão do poema que Czeslaw Milosz
dedicou ao poeta hindu Raja Rao,
que trata desta universal procura.
Raja Rao, como gostaria de saber
a causa desta enfermidade.Anos a fio não pude aceitar
que onde estava era meu recanto.
Em outra parte estava meu lugar.A cidade, as árvores,
as vozes dos homens,
não eram, não estavam.
Vivi…
Estamos em Goiânia para rever amigores escritores e para acompanhar o lançamento dos 71 livros da Coleção Goiânia em Prosa e Verso, que aconteceu no Jóquei Clube. Depois daremos mais detalhares sobre alguns livros, principalmente da poesia de Fernanda Cruz, apresentado pelo amigo Brasígóis Felício. O Vassil Oliveira, amigo, jornalista política e escritor, foi anfitrião amoroso. Passamos uma tarde na Marcos Caiado Galeria de Artes, em conversas valisosísismas com os poetas Marcos Caiado e Carlos William, da nova geração da poesia goiana, e em companhia de obras de importantes artistas, tais Siron e Fabíola e Poteiro... E encerramos com chave de ouro: uma tarde com Brasigóis Felício na Livraria Saraiva.
Estamos seguindo para Silvânia para encontro de familiares e para uma busca de alguma trilha de nossa raiz genealógica.
Uma tarde inteira na Galeria do poeta Marcos Caiado (C), e com a a companhia de Carlos William, outra expressiva presença da nova poesia goiana
Delermando Vieira Sobrinho (D) e Valdivino Braz (C), amigos poetas, no lançamento no Jóquei Clube de Goiânia.
Brasigóis Felício, em nosso encontro na Livraria Saraiva, num longo diálogo sobre a literatura goiana e rememórias de nossa amizade
Neste início de férias, tenho aproveitado o tempo para ver alguns filmes.

Sem ler nenhum crítica antecipada, vi 'Mutum', da cineasta brasileira Sandra Kogut. Trata-se da livre adaptação de uma novela de Guimarães Rosa. Eu preferia que não fosse mencionado que se trata de uma adaptação, pois a linguagem, o tempo e mesmo o ambiente do filme não é o mesmo do escritor mineiro. Há intervenções de muitos materiais estranhos ao universo roseano. Em Guimarães não há lugar para o eucalipto no escript ou de excesso de plástico ou de roupas confeccionadas de polietileno ou sei lá que outras fibras sintéticas. Mas valeu a produção. Talvez sejamos tão íntimos daquela realidade — eu que vim do sertão goiano — que não há impacto na compreensão do processo de formação do personagem. Talvez a rigidez ainda seja maior do que aquela enfrentada pelo Tiago de Kogut. Mas é isso, acredito que tenha faltado um pouco mais de pesquisa do universo roseano. Para baratear produção acabaram atualizando dema…
O Carlos Willian me pediu um pequeno texto para o Opção Cultural com indicações de leitura para 2008. É com o texto que escrevi para ele que saúdo todos os meus visitantes com meus votos de um 2008 de mais humanidade:

São diversas as justificativas para a obrigatoriedade da leitura. Uma de Harold Bloom é a que mais satisfaz. Em uma de suas obras ele diz que devemos ler para combater a “presunção”. E, para combater a presunção, o acompanhamento de todos os segmentos das artes é tarefa imprescindível. Tarefa imprescindível, igualmente, o desenvolvimento de alguma tarefa — nem que seja crítica — que leve à participação social. Não adianta a leitura, a música, o teatro, se não há alguma integração com o humano.O que se espera, em cada início de ano, é que a participação aconteça de forma mais integradora. Aguardamos sempre que desembarque nas livrarias novos livros definidores, desintegradores — e, com eles, desintegremos a nossa cavalar desumanidade. Presumimos que temos conhecimento, pr…