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Não podemos exorbitar do amor!

Não sei do que mais gosto no romance "A hora da estrela", de Clarice Lispector. Romance? Novela? Desespero? A dedicatória é uma trava na garganta da beleza. O final é uma confissão da autora, ao abandonar sua personagem. Uma confissão de amor à vida. Será que o filme "Gosto de cereja" não saiu da frase final de Clarice: "... por enquanto é tempo de morangos", portanto é inútil a morte. Eu não queria, mas vou registrar a frase que mais gosto neste livro-confissão, quando Macabéa está passeando com o namorado, que é torneiro ou mecânico (não me lembro, só sei que não é presidente), e ao passar diante de uma loja de material de construção com os produtos expostos, sem o que dizer, ela faz a melhor declaração de amor da literatura brasileira: "Gosto tanto de prego e parafuso".

Em alguns momentos exorbitamos inconscientemente do amor. Noutro dia, ao ler a crítica literária de uma jornalista por quem tenho grande estima, ela exorbitou do amor. Ao comentar o livro "Danúbio", de Cláudio Magris, ela soltou uma frase que exorbita o amor. Pois sei que ela gosta da e ama a literatura brasileira. Para amarmos um livro não precisamos desamar os autores que não o escreveram. Ela disse que não tivemos nenhum autor brasileiro com cultura, sei lá, suficiente para escrever livro idêntico.

Temos de nos lembrar que as culturas européias e brasileiras são completamente diferentes. Não temos um Danúbio cercado de milênios de culturas, mas um Tocantins, um São Francisco ou um caudaloso Amazonas cercados de milênios de mitos e de primitivismo, inclusive do primitivismo crítico. O nosso "Grande sertão: veredas" é o "Danúbio", pois é na periferia do São Francisco que ele acontece. "Os Sertões" também acontece na periferia de São Francisco.

Adorno, em sua "Estética", diz que nos países em que ainda existe primitivismo ainda há esperança para novas possibilidades culturais. O Brasil é rico em possibilidades e de realizações. Eu me emociono com a poesia-rio de Manoel de Barros, da poesi-rio de José Godoy Garcia, da poesia-rio de Thiago de Mello, aai-ai "Iararana" de Sosígenes Costa!!!!

Não podemos exorbitar do amor.

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