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Postagens

Mostrando postagens de 2016
Mas ser amado é poder ser útil ao amor.
Por exemplo, pregar pregos onde o amor não quer se fixar,
coçar onde os piolhos estragaram o amor.
Por exemplo, ser útil com o calor onde o amor se esfria,
ser belo onde o amor vai com o fluxo das rugas.

Mas ser amado sem comer o gosto de pedra.
O gosto de amora e jambo também não é o gosto
e a utilidade que o fruto leva para o beijo.
Ser útil ao amor, por exemplo, com a carnal das mãos
sobre o trabalho de aliviar a velhice do amado.

Mas ser amado não é só à espera do verniz
da bengala. Tem de esvaziar antes os ossos,
soltar dos portos tantas embarcações de outros
que não ficarão para assistir o que o beijo
gasta de jambo e carne, antes da partida.

O que me enriquece

Quando terminamos um ciclo, seja de tempo ou de percurso entre um ponto e outro da territorialidade de existirmos, cumpre-nos avaliar o que fortalece ou empobrece a nossa existência. O que me empobrece está na minha impossibilidade de contribuir para que em todas as casas exista a ereção do espaço para que as pessoas construam a consciência do que são, através das marcas da cultura. Nunca me esqueço de uma casa de um bairro que esteve um dia em meu percurso. Atravessei-a, pois o único percurso era passar por dentro daquela casa. A família tinha apenas um banco em que sentar, e possivelmente só lhes resgatassem ficar silenciosos ao lado um do outro. Voltei neste ano a encontrar pessoas assim sentadas, sem poder contar com nenhuma compressão, de outros, de si, sem conseguir pensar por si o que está a acontecendo com elas. Mas sabem que estão amarradas a uma impossibilidade amarga. O maior desastre é não conseguir compreender a realidade que foi construída em volta de si. Deprimo-me quan…

Filme de Creadle sobre Miles Davis

Assisti só agora em 02.11.2016 a cinebiografia "Miles Ahead", que ainda não estreiou no Brasil. Espero que o filme não denigra a trajetória de Miles Davis, pois Creadle preferiu fazer um filme policialesco e não jazzístico. O que aconteceu com Miles Davis, tenho certeza, não teve a a corrida policialesca suspensiva que o filme procura caracterizar. Eu gostaria de ver o Miles Davis criativo, gênio, e não a construção de um homem derrotado. Acho que a família e o cineasta estavam focando apenas a grana que poderiam ganhar. Poderiam honrar a trajetória de um gênio. Quando li sua autobiografia não enxerguei este homem estúpido e derrotado. Um homem assim não teria deixado o legado que está aí disponível a todos. Não teria contribuído para mudança dos rumos da música e para a ascensão de tantos nomes, muitos deles ainda na ativa. Em momento algum o filme não mostra se é Wayne Shorter ou Herbie Hancock que entra na história. Se Creadle deseja dar uma improvisação ao filme ela não …

O gênio dos mestres

Estou fazendo postagens demais, mas sempre está ocorrendo alguma coisa. É a chuva, é o pássaro, é o besouro atravessando a janela em busca de luz. Mas fui ao cinema assistir "O gênio dos mestres", cinebiografia de Max Perkins, um dos maiores editores norte-americanos, responsável pela edição de obras de Hemingway e Fitzgerald. O filme trata da relação dele com Thomas  Wolfe, romancista ainda não traduzido por aqui, já que traduziram apenas contos dele. Tenho dois romances em espanhol. Vou ver se leio um nas férias de novembro. (Por falar nisso, terminei "A cidade de Deus", de Santo Agostinho. Deixou a minha cabeça em barafunda.) Em resumo, o filme merece ser visto. Drama comovente, com trilha jazzística limpa e justa, não muito da época, mas belíssima, ótimas referências à poesia e ao processo de organização de um romance. Agrada muito a quem é ou deseja ser escritor, e comove o expectador amante da arte.

Júlio César Polidoro

COLETA 

A Salomão Sousa

Assina a ruga
essa rude instalação:
no corpo alquebrado
o rosto precário
e a rua
repleta de buracos.

E avenidas cortam,
novas, ao rincão
da pele, antes plana,
uma sucessão de quebra-molas.

Mil atalhos surgem
desde os cílios
e ladeiras íngremes
entornam
um rio de lágrimas
dos olhos.

Eis o tempo
e urge no meu rosto
a vital parcela do imposto
que esse mesmo tempo
agora cobra.

Edição de livro de poesia

Tenho feito muitas experiências com fontes para edição de livros de poesia. E também observado os livros de poesia editados. Muitos equívocos são cometidos. Os poemas devem ser sempre centralizados na página. Horrível quando os poemas são jogados no fundo do página. Nunca usar tipologia acima de 12 pontos para livros no formato 14x21 ou menores. Quanto menor o tamanho da letra mais elegante a página se apresenta. O tamanho da letra deve ser compatível com o tamanho do livro. E ter cuidado, pois há letras que são maiores, mesmo para paica menor. Controlar a mancha com o entrelinhado. O ideal é usar de três a quatro ponto no entrelinhado acima do tamanho da letra: 10x14, 11x15. Como a internet tem usado novos formatos de tipologia, o padrão de letra também tem mudado. Procure letras mais elegantes, com desenhos definidos. Parecidas com as usadas em blogs. São muitas as letras disponiveis graciosamente na internet. Saiba pesquisar, sobretudo as de formato slab, e certamente o projeto de …

Luci Collin

É coisa rara hoje em dia sair um artigo sobre poesia num grande jornal. ainda mais de autoria de Luiz Costa Lima, e ainda abordando um poeta ainda não consagrado. Luci Collin mereceu este feito no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo. Fui atrás dos livros da poeta curitibana. Os dois publicados em belas edições da 7Letras. Querer falar foi finalista do Prêmio Oceanos.  É surpreendente a poesia de Luci Collin! Repercute a ambiguidade da interpretação desta época de compreensão dos inomináveis, pois tudo que se diga fica valendo. Se tudo que se nomina é compreensível, nada se compreende. Só me incomoda a forma de lidar com a lírica na poesia de Luci Collin e de mais meio mundo dos poetas atuais. Aparecem expressões diretas que devem ser abolidas. Eu não engulo mais poesia que conclua o poema jogando aberta e prosaicamente a relação dos sujeitos.  Um ótimo poema sobre o coração terminar assim "se instauraram em ensaiar/algum/outro/você" é não desejar ir muito longe. Tem …

O mesmo e o frágil da poesia de Brasília em 2015

Quanto abordei minimamente a movimentação da poesia em 2015, disse que em Brasília a poesia “orbitou no mesmo e no frágil”. Alguns poderão estar se indagando se a expressão não mereceria desdobramento para uma maior claridade sobre este “mesmo” e este “frágil”.  Afinal estou no processo de construção da poesia de Brasília desde os anos 1970 e não preciso temer expressar uma abordagem crítica ao que ocorre ano a ano na produção literária da cidade.                 Há que reconhecer que alguns movimentos não foram enriquecedores para os poetas autóctones. Quando o poeta vai para a rua em movimentos como o Coletivo de Poetas e Mostra Itinerante Poesia Falada a cidade ganha, mas os poetas perdem. Os locais de leitura exigem poemas de expressividade nua e crua, enquanto a poesia exige processos internos, nos tempos atuais, que não servem para serem levados para ambientes enfumaçados e descompromissados como cafés e casas noturnas. Quando contatamos os livros dos autores que integram esses …