dezembro 18, 2016

O que me enriquece

Quando terminamos um ciclo, seja de tempo ou de percurso entre um ponto e outro da territorialidade de existirmos, cumpre-nos avaliar o que fortalece ou empobrece a nossa existência. O que me empobrece está na minha impossibilidade de contribuir para que em todas as casas exista a ereção do espaço para que as pessoas construam a consciência do que são, através das marcas da cultura. Nunca me esqueço de uma casa de um bairro que esteve um dia em meu percurso. Atravessei-a, pois o único percurso era passar por dentro daquela casa. A família tinha apenas um banco em que sentar, e possivelmente só lhes resgatassem ficar silenciosos ao lado um do outro. Voltei neste ano a encontrar pessoas assim sentadas, sem poder contar com nenhuma compressão, de outros, de si, sem conseguir pensar por si o que está a acontecendo com elas. Mas sabem que estão amarradas a uma impossibilidade amarga. O maior desastre é não conseguir compreender a realidade que foi construída em volta de si. Deprimo-me quando colido com a realidade dessas pessoas. E tenho de colidir já que estão inscritas no meu percurso.
O que me enriquece está na amizade dos homens e dos livros. Neste ano, foi importante para a minha alegria que o amigo Wil Prado, enfim, publicasse o seu primeiro romance, e que tenha o autor me cedido a honra de apresentá-lo. Romance esse que mereceu um e-mail generoso de Raduan Nassar. Pude ainda ler as duas grandes sagas de Homero. Sai assustadoramente enriquecido. Não serei mais o mesmo e muito menos a minha poesia. Dos muitos livros de poesia lançados no Brasil, e nem tive acesso a todos, foi maravilhoso conhecer a poesia de José Inácio Vieira de Melo, de contatá-lo corpo a corpo. E, enfim, o susto de encontrar a perfeição no livro Zut, de Djami Sezostre, pseudônimo de Wlilmar Silva. O poeta alcançou se descolar da impossibilidade da linguagem. Tudo é possível, nele, com naturalidade. Ainda, entre tantos encontros que me tornaram um pouco mais completo, está conhecer, não in loco, mas em livro, a escultura L'impossible, de Maria Martins. Não tenho nenho intenção de ir aos EUA, mas essa peça está em Nova York, mas possivelmente não irei lá. Vale a fotografia da peça. Aqui vemos a antropofagia de sermos homens, esse  destino de nos sugarmos com a nossa agressividade, com a nossa incompletude, com a nossa fome do outro. Ela estará gravada sempre em mim, pontiagudamente.
Assim, vou terminando meu ano, com meus enganos, e com meus encontros com a perfeição.
Já preparo o próximo ano. Inicialmente, lerei toda a poesia de Herberto Helder. Depois, penso em reler A Montanha Mágica, e Thomas Mann. Mas qualquer outra imagem que estiver em meu percurso, seja um homem apequenado em sua casa, o jambo, a formiga pisada por uma garotinha, a chuva que voltará a se preparar numa próxima nuvem, será isso que me enriquece.
Só nos enrique aquilo que construímos com consciência. Se apossamos do que poderia enriquecer a capacidade do outro de compreender a realidade, de dela participar, ficamos, sim, prisioneiros de nossa consciência.
Não sejamos prisioneiros de nossa consciência, em 2017. Para isso, basta desempenharmos fielmente a obra, a missão que nos coube dentro da sociedade.

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