Pular para o conteúdo principal




Quebramos o cronômetro da Sherle.
Areia, sombras e sombras e sargaços
— perdidos nalguma corrente,
éramos aves desgarradas
frente às falésias.

Quebramos a ansiedade ao ver
os marcos antigos dos descobridores.
Ouvidores do rei
e os despachos das arcas do tesouro.
Restos de uma réplica de nau
que só poderia estar sem porto.

Quebramos o medo dos monstros de lama
e das criaturas más inventadas ao Norte.
Ex-votos com mãos estendidas,
dedos longos, cabelos espremidos
no asfalto, e o mar ainda
entre as estacas.

Quebramos a rigidez das faces.
Outra cor ao corpo, rotas
de desovar. Pó de ostra
nas garrafas. Outra onda
vem — junto às crianças se desdobra,
quase sem cor —, se é puro o sol,
se é o despudorado sal.
No mangue movemos os pés
de nosso animal.

Quebramos o tormento
de repetir a mecânica de andar.
Ir é outro prazer. Ouvir
outras palavras, entre os dedos
areias, cordões coloridos, quase apanhar
as finas barbas dos tubarões e das enguias.
Narinas moles respiram água.

Quebramos — e acabam as avenidas
e as orlas. Arrastam-nos as correntes
de volta às Antártidas.

@ Salomão Sousa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SAUDAÇÕES AO ROMANCE DE WIL PRADO

Wil Prado é uma de minhas amizades mais firmes desde que cheguei a Brasília. Desde nossos passos iniciais na literatura, foram vívidos debates e percursos juntos pela cidade. Por muros vários que atravessam a nossa vida, Wil Prado demorou a publicar seu primeiro livro. E é com alegria que vejo que figuras importantes da literatura brasileira, de cara, se manifestarem favoravelmente ao seu romance SOB AS SOMBRAS da Agonia, editado pela Chiado, de Portugal, do qual foi leitor desde as primeiras versões até o momento de escrever a apresentação. Acredito que são poucos que merecem uma manifestação eufórica de Raduan Nassar.  E, ainda, de João Almino, que acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
(...) SOB AS SOMBRAS DA AGONIA me tocou sobretudo pela linguagem, por palavras novas, metáforas bem sacadas, e os empurrões articulando o entrecho. Além disso, o romance arrola no geral gente do povo, ao lado de uns poucos salafras da elite, com caracterizações convincentes, inclusi…

Resenha sobre o filme "300"

Por Ana Paula Condessa

Todo filme tem seus méritos, seus pontos fortes, mas também tem furos e contradições. O filme 300, já em exibição, surgiu da história em quadrinhos “Os 300 de esparta” - criada e desenvolvida por Frank Miller. É impressionante a grandeza da produção do filme que chega a representação, com muita propriedade, por retratar a batalha que enfrenta o rei Leônidas -,os soldados espartanos, seus aliados contra o exército persa de Xerxes, na Batalha das Termópilas -, desfiladeiro da Grécia. Esparta - é uma sociedade que é toda voltada para a arte da guerra e todos os indivíduos, que dela fazem parte, são instruídos para tal. No filme é passado muito do que era Esparta e seu contexto, algo de muito valor para compreender a essência da Batalha das Termópilas - . A guerra é o meio de vida dos espartanos e, antes mesmo desta grande batalha que ficou para a história e, cujos métodos e estrutura de guerra foram usados por muitos anos em batalhas posteriores, eles moldaram um im…