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Revendo a poesia de alguns escritores de Brasília, notei a importância da temática de resistência dns anos da décadas de 70. Um poema pequeno de Lourdes Teodoro, com luminescência vital que lembra Montale:


ORAÇÃO DO MUTILADO

Lourdes Teodoro

o verde em mim
é um remoto ponto escuro.


Vejamos também o poema Remorso, do saudoso José Roberto de Almeida Pinto, que hoje é embaixador em Honduras:

REMORSO

José Roberto de Almeida Pinto

Nesta Brasília, calada
nesta sala assexuada
Nesta hora desgraçada
Eu sou somente remorso.

Aço preto na testa,
Acre sertão na garganta,
Resina de esgoto nos olhos,
Eu não sou mais que remorso.

Eu não sou mais que a vontade de sair correndo
estraçalhar a cara no primeiro poste, o homem
que um dia sonhou ser bom, a besta
que quer fugir e não pode
que quer berrar e não pode
que quer, meu Deus, ser perdoado.

Nesta véspera de sábado
Nesta Brasília silente
Há festas, boates, mulheres.

Roendo osso, remorso
Nesta sala indiferente.
Nesta hora desgraçada
Há somente o homem em face de si mesmo e náusea
O homem finalmente em face de si memso
O atônito covarde.

Para quem viveu, como poeta, os anos de ditadura e de resistência, a poesia não foi apenas um gesto de construção. Apesar de reconhecer a descabida terminologia para "Poesia engajada", acreditamos, no entanto, a necessida de uma 'Estética de Participação". O homem dentro de si mesmo, eternamente, acaba jogando também a arte dentro de um labirinto de inutilidade. Só a beleza é muito pouco.

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