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O Carlos Willian me pediu um pequeno texto para o Opção Cultural com indicações de leitura para 2008. É com o texto que escrevi para ele que saúdo todos os meus visitantes com meus votos de um 2008 de mais humanidade:


São diversas as justificativas para a obrigatoriedade da leitura. Uma de Harold Bloom é a que mais satisfaz. Em uma de suas obras ele diz que devemos ler para combater a “presunção”. E, para combater a presunção, o acompanhamento de todos os segmentos das artes é tarefa imprescindível. Tarefa imprescindível, igualmente, o desenvolvimento de alguma tarefa — nem que seja crítica — que leve à participação social. Não adianta a leitura, a música, o teatro, se não há alguma integração com o humano.

O que se espera, em cada início de ano, é que a participação aconteça de forma mais integradora. Aguardamos sempre que desembarque nas livrarias novos livros definidores, desintegradores — e, com eles, desintegremos a nossa cavalar desumanidade. Presumimos que temos conhecimento, presumimos que somos humanos.

Em 2008, eu continuaria lendo Rilke, Kafka, Dostoievski. No entanto, algumas edições recentes merecem o desembolso de alguns reais e de algumas horas de solitária leitura. Duas coleções me chamam a atenção, inclusive pela abordagem social divergente: O quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, pela Ediouro, em primeira tradução no Brasil, de uma poeticidade extraordinária, como se fosse um romance de viagem, mas com personagens deslocados da sociedade, por demais aristocratas; e a caixinha com os três livros de memórias de Máximo Gorki (Infância, Minhas universidades e Ganhando meu pão) pela Cosac e Naif, que continua encantando leitores mundo afora — este pertence sabidamente à corrente realista.

E depois dois livrinhos pequenos para os tempos de menos disponibilidade de leitura: O velho e o mar, da Civilização Brasileira (esse belo livro merece uma edição de bolso, acessível), de Hemingway; e Uma vida em segredo, de Autran Dourado, pela Rocco. Hemingway nos mostra a necessidade de cumprimento de nossos projetos, a necessidade de enfrentarmos nossas tarefas com honradez e determinação. Já Autran Dourado, nessa pequena obra prima da literatura brasileira, nos ensina a necessidade de respeito às diferenças culturais. E que todos não deixem de acompanhar a reedição da obra de Graciliano Ramos, toda revisada, pela Record. Ai, são tantos livros! Não gostaria de esquecer Érica e seus irmãos, de Élio Vitorini, pela Berlendis @ Vertecch. Romacinho desgraçado. Gostaria que ele acertasse o estômago de mais gente!

Estes e muitos outros livros são leituras obrigatórias, para nos livrar da presunção de que sabemos, em qualquer ano que comece.

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