William Faulkner

Por vários anos, em repetidas vezes, refutei a leitura de O som e a fúria, de William Faulkner. Temia tocar neste autor americano em meus encontros com o amigo Euler Belém, que é admirador incondicional desse novelista, e demonstrar meu analfabetismo faulkneriano. Sempre que iniciava a leitura do romance ou do conto Cavalos malhados — que está no volume da Civilização Brasileira, que traz três novelas, entre elas O urso —, eu me atrapalhava com a forma de o autor já entrar no meio da história como se o leitor já tenha conhecimento antecipado do que vem acontecendo com o enredo. Ele já começa no fim do enredo, já que o enredo para ele não é o percurso da narrativa, mas algo que dá intensidade ao homem de uma época. Além de ter uma inteligência hábil para enriquecer a linguagem. A própria novela O urso, logo de início, traz um intrincado de difícil penetrabilidade (vou ter a paciência de datilografar):

“Havia um homem e um cachorro também, nessa ocasião.”

Impecável como abertura. E é como eu disse: a narrativa não se inicia aqui, mas “nessa ocasião”. Nenhuma narrativa, aliás, tem o primeiro dia da criação, só mesmo o Gênese, que, no entanto, não tem o The end, e as obras de Faulkner também não se concluem.

Mas vejamos a conclusão do primeiro parágrafo de O urso:

“Havia um homem e um cachorro também, nessa ocasião. Duas feras, contando Old Bem, o urso, e dois homens, contando Boon Hogganbeck, no qual corria um pouco do mesmo sangue que corria em Sam Fathers, muito embora Boon pertencesse ao lado plebeu, e apenas Sam, Old Bem e o cachorro Lion fossem idôneos e incorruptíveis.”

E o primeiro homem? Não é nomeado no primeiro parágrafo, apesar de aparecerem os nomes do urso e do cachorro. My God! Faulkner é um jogo de xadrez.

Mas voltemos a O som e a fúria, que terminei a leitura neste momento. É de uma assustadora violência, principalmente se levarmos em consideração que os personagens atingidos são crianças, um louco e, claro, a mãe. Nem mesmo a cena do cavalo em o Crime e castigo, de Dostoiévski, ou capítulo sobre o cavalo, no Germinal, de Zola. Ainda fico imaginando, se depois de descer da charrete (o veículo tem outro nome no romance), Jason, o personagem, terá encontrado paz ou continua violentando psicologicamente os demais. Duvido! Deve estar aqui na minha vizinhança ou dentro da casa de algum... deixemos para quem o conheça. Ai! ele vai ficar me atazanando por séculos. Temo que ele bata à minha porta.

Mas o tempo, a forma de narrar sempre no tempo presente e no fluxo de consciência, torna tudo muito nebuloso em Faulkner. Também não interessa: o autor quer nos tornar/nos deixar/nos fazer cúmplices da realidade. Não! realmente não é um romance para qualquer um: exige paciência, estômago e coragem para admitir que não se compreendeu tudo. Ele data os quatro capítulos: apesar de Faulkner datá-los, o último acontece na mesma semana do primeiro capítulos, mas alguns personagens desaparecem de um dia para o outro. Aí que é dominar a narrativa: o autor tem de usar num capítulo os personagens, a intensidade do real que lhe cabe naquele momento. E Faulkner não trapaceia quanto a isso: domina.

A realidade retratada em O som e a fúria é aquela que antecede a bolha de 1929, portanto tememos o que acontece neste momento no mundo: uma violência sutil dentro dos lares, pois o incômodo da derrocada financeira leva o homem a se acotovelar com o outro. Espero que as crianças não sejam as mais atingidas pelo fluxo de consciência dos adultos.

Mas isso já se alonga demais para um blog. Vou encarar outros livros de Faulkner, principalmente Luz de Agosto e Absalão! Absalão! Talvez amanhã ou daqui a alguns anos. Não sei. E, claro, tenho de dar um jeito de encarar O urso, passar pela matemática de suas frases. Ou essa matemática se encontra apenas no primeiro parágrafo (ele não usa os acentos de interrogação em O som e a fúria). Mas é esta matemática que torna um livro desafiador! Que venha Faulkner com seu O urso!.

Minha saudação à bela tradução do poeta Paulo Henriques Britto para a Companhia das Letras. Só espero que os tradutores brasileiros não usem mais a palavra "corrugado", que vem do espanhol e soa ridículo em português/brasileiro, pois para nós é "enrugado" mesmo.

Como voltei aqui para corrigir duas palavras depois de postar o texto, me deu vontade de incluir uma frase cheia de sarcasmo usada por uma personagem mais que secundária, que está sem trocar de roupa depois de uma semana de trabalho e ainda irá sem se lavar à igreja. Indagada o que pode acontecer se ela tomar chuva, ela responde: "Ainda não aprendi a parar a chuva." O goiano é mestre nestas tiradas, inclusive o amigo Euler Belém.

Comentários

Anônimo disse…
Parabéns, Poeta, por encarar a obra desse gigante norte-americano chamado Faulkner. A leitura de seus livros é uma das melhores formas de exercitar os neurônios. Especialmente os meus, tão pouco desenvolvidos...
Abraço
Herondes Cezar
Anônimo disse…
Faulkner é isto mesmo: ele conhecia a teoria e as regras do jogo. Eu o leio todos os anos. Tudo o que vem depois dele é derivativo. Não há ninguém maior do que Faulkner no Século XX. Nem Joyce. Parabéns pela acuidade dos textos.

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