Pular para o conteúdo principal

Viajei


Viajei. Vi homens no luxo
Vi crianças no lixo
e no lixo tropecei
Roupas lavadas próximas aos meus passos
e o que encobria úmida
podia ser relva, pedra ou trevo
Nas seis manhãs
as roupas estendidas nas calçadas

Viajei. Vi casais que quase se abraçavam
As sete pontes, algumas de ferro recortado
no estrangeiro
Vi mulheres a sós com os filhos
se sentindo alienígenas
Não pude ver os ausentes companheiros
Não pude ver as freiras recolhidas
e a zabumba a ensaiar o próximo frevo

Viajei. Senti este cheiro de homem
Fezes. Este cheiro ejaculado.
Vestido de passado
comi as minhas sete refeições
bebi os meus sete cálices
Não estive próximo à arma do tiro
Ao morto não levei luto nem mortalha

Viajei. Vi e apalpei
E se acreditei foi pela flor agreste
Foi pelo tremeluzir das luzes sobre as fezes

Comentários

Lara Amaral disse…
Quantas viagens, hein? =) É com a ajuda delas que contamos mais histórias. Abraços!
Anônimo disse…
Essa viagem ficará para sempre em nossas memórias e em um lugar mais que especial em nossos corações...
Qual será a próxima?!?!?!
Abraços a vc e a Francisca!
Thamara e Henri

Postagens mais visitadas deste blog

SAUDAÇÕES AO ROMANCE DE WIL PRADO

Wil Prado é uma de minhas amizades mais firmes desde que cheguei a Brasília. Desde nossos passos iniciais na literatura, foram vívidos debates e percursos juntos pela cidade. Por muros vários que atravessam a nossa vida, Wil Prado demorou a publicar seu primeiro livro. E é com alegria que vejo que figuras importantes da literatura brasileira, de cara, se manifestarem favoravelmente ao seu romance SOB AS SOMBRAS da Agonia, editado pela Chiado, de Portugal, do qual foi leitor desde as primeiras versões até o momento de escrever a apresentação. Acredito que são poucos que merecem uma manifestação eufórica de Raduan Nassar.  E, ainda, de João Almino, que acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
(...) SOB AS SOMBRAS DA AGONIA me tocou sobretudo pela linguagem, por palavras novas, metáforas bem sacadas, e os empurrões articulando o entrecho. Além disso, o romance arrola no geral gente do povo, ao lado de uns poucos salafras da elite, com caracterizações convincentes, inclusi…

ULISSES, de Tennyson

Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como e por que ler os clássicos, pois, para respeitar a métrica, acabaram cortando parte do enunciado - e isso refletiu na perda da dramaticidade. Fiz a minha adaptação livre a partir do espanhol. Auuuuuuau!!!!! Há uma tradução de Haroldo de Campos que saiu numa edição do Mais!


Fútil o ganho para um rei nada útil,
na calma do lar, à beira de penhas áridas,
unido a uma idosa esposa, a impor e dispor
iníquas leis a uma raça selvagem
que come, e amealha, e dorme, e de mim nem sabe.
A mim não resta senão viajar: beberei
a vida até o fundo. Sempre desfrutei
da fartura, e com fartura sofri, junto àqueles
que me amavam com amor ímpar; e, em terra,
arrastado pela corrente, as chuvosas Híades
agitavam o lúgubre mar: ganhei nome:
para sempre vagando com coração ávido,
vi, possuí, e muito conheci; cidades de homens
e costumes, climas, conselhos, governos,
nunca com desprezo, ma…