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Canário na Janela


Muitas abas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo

Perdi o Tributo ao Poeta, da Biblioteca Nacional de Brasília, em homenagem à bela poesia de minha amiga Lina Tamega. Imerso no mundo do excesso da comunicação e não tomei conhecimento do evento. Nem email, nem telefonema, nem fofoca de janela, nem sinal digital, nem duas frases nas vastas colunas literárias dos jornais de Brasília. E a poesia da Lina tem mais para dizer do que duas linhas.

Ai! quantos anos terei de viver para terminar a leitura de las Memorias de Ultratumba, do Chateaubriand francês?

Mas não era nada disso que eu queria dizer para vocês. Ou para mim. Ou para ninguém. Num blog a gente nunca sabe a quem diz, a quem fala. Ou a quem cala.

Só queria lembrar o lado humano, dentro de minha descrença diante de uma juventude que perdeu toda possibilidade de lidar com o humanismo.

Assisti o filme Faces, de Cassavetes, de 1968. Há muito um filme não me entristecia tanto. Há quarenta anos, talvez com consciência ou por um condão, Cassavetes teve a mágica de enxergar nossos dias. A desagregação dos valores. O fim do pudor. Só mesmo o canário para amarelar.

Ainda tem mais. Uma citação de Bertrand Russell, tirada de uma citação de Chomsky:

"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentados pela alçegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materializam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido e atrofiado pela opressão."

De quantos Bertrand Russell precisamos? E nesta geração não teremos outro e muito menos jovens para lê-lo!

A única esperança, Chomsky, é de que realmente o que vemos azul hoje possa ser visto verde amanhã.

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