abril 17, 2014

Roberval Pereyr

O livro "Mirantes", de Roberval Pereyr foi o vencedor do Prêmio Brasília de 2014. Não compareci à entrega do prêmio, pois faltou motivação aos autores de Brasília até mesmo para aplaudir os eventos da Segunda Bienal do Livro. Tudo feito à margem de Brasília como se fosse um evento nacional e não com dinheiro local, com necessidade e obrigação de refletir na localidade. No entanto, encomendei o livro e não posso deixar de aplaudir a poesia de Pereyr. Aparentemente, sobretudo pelos autores que saúdam Pereyr - Secchin, Ruy Espinheira Filho, Alexei Bueno - pode-se ter a impressão de uma poesia tradicional, sem grandes tentativas de novos caminhos. E é. Ligada à metafísica de Pessoa, ao andamento construtivo de Drummond, e com alguns laivos dos compositores do Nordeste. Até a utilização do soneto - mas como a poesia vai se cansando da invenção excessiva, há naturalmente retorno nietszchiano às antigas formas. Mas essa mistura em si já acaba resultado num trabalho de transparência individual, com ligação ao sentimento, não do mundo, mas da estranheza da supremacia do ego moderno. Destaco um verso maravilhoso, bem questionador do tempo presente, excelente como o caminho de Antonio Machado: "...mudo/conforme as feições da estrada". Gosto deste combate ao egocentrismo atual, que inscreve no homem a resistência à aceitação da diferença do outro. Quando eu reconheço a diferença do outro, em mim mesmo já tenho de me mudar e conciliar-me com o mundo. E, para terminar este imbróglio de admiração, deixo aqui um belo poema do livro de Roberval Pereyr. Vai o poema "Decisão" mesmo, que traz os versos anteriores:

Se me buscarem, não vou.
Se me ofertarem, não quero.

Se me disserem quem sou,
direi que não sou, e espero.

Direi que esperar é tudo;
e que o que espero é nada;

que quando viajo, mudo
conforme as feições da estrada.

E acabou minha estrada para continuar estas observações, pois foram escritas rumo ao trabalho. No ônibus.
Parabéns, Pereyr.


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