maio 31, 2008

À noite, a cidade, ainda que continue guardando todo seu potencial de sujeira, apresenta um colorido mais limpo. Mesmo que os carros estejam todos ali, amontoados e também absorvendo o frio em suas chapas, o silêncio — ainda que um taxi apareça para apanhar o velho que chegaremos a ser — parece uma brecha instantânea de possibilidade de diálogo.
Estive no lançamento de um livro de poemas. Ontem à noite. Um livro de poemas ou um livro de nada, de letras, de manchas de silêncio. Alegra-me estes escritores que confiam nos seus livros como se fossem as suas brechas de diálogo, já que seus livros nascem tão inúteis. Tenho dó das palavras que estão nestes livros, já que usaram tão bem a vida dos autores e os autores deram-lhes vida tão precária. As palavras também querem a sua glória.
Enquanto aguardava na porta do hotel, com o pouco silêncio rondando a portaria onde estávamos sentados, li um poema de Ronaldo Costa Fernandes para um garoto e seus pais. Era a minha maneira de esquivar-me de um bêbado, da sua litania gloriosa — todo bêbado eufórico é glorioso como a glória de todo livro de poemas ridículo. Era um penetra no lançamento. Ele não queria sequer a bebida fraca que era servida, pois trouxera seu conhaque de uma barraca clandestina do estacionamento. Não queria nenhum livro, saber se existe escritor, se o preço do livro no país é exorbitante, mas apenas descer de alguma torre, esbarrar em alguém com seu passado de glória. Um bêbado se lembra que foi dono de todas as terras de Brasília e que deu todas estas terras aos novos habitantes. É uma glória dar as próprias terras para o surgimento de uma nova Babilônia! E glória maior, depois ser amigo de todos os guerreiros e príncipes desta nova Babilônia.
Não. Os seguranças e organizadores da festa fazem conclave para ver se é necessário retirar o bêbado. Não. Sugiro que ele permaneça ali com a sua glória. Seria inútil arrancá-lo para o frio, pois muitos outros teriam de ser retirados do recinto. Quantos não estavam ali se jactando de suas glórias inúteis?
Mas toda essa lenga-lenga gloriosa é para reler o poema do meu amigo:

A TORRE DO ABISMO

Ronaldo Costa Fernandes

Aqui estaremos seguros da vida.
Nada nos atingirá — nem falésia
nem miséria nem a ambição dos homens.

Mais tarde subiremos à torre
e de lá olharemos os homens
e diremos que não fugimos
ao pasmo do abismo,
apenas proferimos o risco do silêncio.


E tocou-me, este poema, ainda mais do que antes. Ele nos lembra que estamos sempre fugindo, querendo subir na torre onde nada nos atingirá. Mas, sobretudo, nos lembra que — por mais que nos encastelarmos ou nos "entorremos" — o desastre ainda é maior. Se não podemos ser atingidos pelo desastre também não podemos ser atingidos pela glória. Só pode ser atingido pela glória aquele que se arrisca, nos rés do chão, ainda que só possa oferecer o desastre de um livro idiota, ou a bebedeira que engrandece todas as mentiras. Sim, é nos rés do chão que temos de nos arriscar.