agosto 02, 2013

EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ


                           (O primeiro centenário de Vinícius de Moraes)

                                                               Fabio de Sousa Coutinho

Uma das grandes injustiças que se cometem contra Vinícius de Moraes, talvez a maior, é referir-se a ele como "poetinha". Por mais que se lhe pretenda atribuir conotação afetuosa, o tratamento fica muito aquém de refletir a dimensão intelectual, humana e cultural do formidável escritor carioca.
Nascido na Rua Lopes Quintas, no bairro da Gávea, em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro de 1913, Vinícius teve seus contatos iniciais com a poesia e com a música no seio da própria família. Seu pai, Clodoaldo, era poeta e sua mãe, Lydia, tocava piano, circunstâncias que encontraram, no primogênito dos Moraes, território fértil e inesgotável potencial.
Aluno dos jesuítas, no Colégio Santo Inácio, Vinícius de Moraes ali desenvolveu sólida amizade com seus colegas Paulo e Haroldo Tapajós. Com eles, ainda de calças curtas, compôs suas primeiras canções, executadas em festas e saraus familiares e de vizinhança.  
Em 1930, ingressou na célebre Faculdade de Direito da Rua do Catete, onde se associou ao CAJU, Centro Acadêmico de Estudos Jurídicos e Sociais, que reunia uma verdadeira plêiade de jovens futuros bacharéis, com destaque, além do próprio Vinícius, para San Tiago Dantas, Octávio de Faria, Thiers Martins Moreira e Plínio Doyle. Todos, sem exceção, viriam a ser, tempos depois, figuras de projeção nacional, nas respectivas esferas de atuação.
Data do ano da formatura de Vinícius, 1933, a edição de seu primeiro livro de poesia, O CAMINHO PARA A DISTÂNCIA. A ele sucederam o premiado FORMA E EXEGESE (1935) e ARIANA, A MULHER (1936), que também estampavam a influência do pensamento transcendental, místico e cristão na formação estética do poeta. Ao organizar sua ANTOLOGIA POÉTICA, em 1954, Vinícius de Moraes nela incluiu apenas um poema do pioneiro O CAMINHO PARA A DISTÂNCIA, o belíssimo "A uma mulher":

                                          (...)
                                          Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
                                          Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
                                          E que era preciso fugir para não perder o único instante
                                          Em que foste realmente a ausência de sofrimento
                                          Em que realmente foste a serenidade."

É de 1943, quando Vinícius completou 30 anos de idade, o livro CINCO ELEGIAS, amplamente considerado uma das mais relevantes obras da moderna poesia brasileira. Nessa época, ingressou, por concurso, na carreira diplomática, passando a viver longos períodos no exterior, em missões permanentes (Los Angeles, Paris, Montevidéu).
 Em paralelo, intensificou a produção poética e tornou-se, sobretudo, um extraordinário letrista, compositor e autor teatral. Sua consagração nesse segmento das artes veio com a peça musical ORFEU DA CONCEIÇÃO, encenada em 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, para uma atenta, entusiasmada e sempre crescente plateia.
 Com a implantação da ditadura miltar que se seguiu ao golpe de Estado de 1º de abril de 1964, Vinícius de Moraes sofreu intensa perseguição política em sua repartição funcional, culminando com truculenta expulsão do serviço público, juntamente com outros colegas diplomatas, após a decretação do famigerado AI-5, de 13 de dezembro de 1968.
Dedicou-se, a partir de então, em regime integral, à vida artística, criando algumas das mais lindas pérolas da música brasileira, a exemplo da que serve de título deste artigo. Teve vários parceiros de enorme peso, sendo o principal deles o genial Tom Jobim, autor de um depoimento sobre Vinícius que encerra síntese lapidar, datado de abril de 1959  e publicado na contracapa do disco POR TODA MINHA VIDA, de Lenita Bruno:
"Vinícius de Moraes é um grande poeta. No entanto, isto não é condição para se fazer uma bela letra. Uma palavra, além do sentido verbal, tem uma sonoridade e um ritmo. Só um indivíduo como Vinícius, que conhece a música da palavra, que poderia ter sido um músico profissional, poderia ter feito as letras que fez.
Vinícius é o poeta que sabe comungar com um crioulo de morro e bater um samba com a faca na garrafa. Educado em Oxford, diplomata em Paris, triste em Strasburgo, escrevendo "Pátria Minha" em Los Angeles, falando muitas línguas e sem deixar que se perceba isto, é sempre o homem que vê o lado humano das coisas.
A versatilidade do meu amigo é espantosa: - tanto compõe um samba de morro ("Eu e o meu amor") como uma valsa romântica e sinfônica ("Eurídice") ou ainda uma "Serenata do Adeus"; tanto escreve um soneto ("de Fidelidade" ou "de Separação") como uma "História Passional, Hollywood, California" -; faz cinema, faz teatro e escreve crônicas deliciosas. Tem o sentimento nato da forma que transcende o que possa ser ou foi aprendido.
Estas são umas poucas facetas do poliedro cujo número de faces tende para o infinito e que se chama Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes."

Na passagem do primeiro centenário de seu luminoso nascimento, Vinícius de Moraes é sobejamente merecedor da admiração generalizada de seus patrícios e de milhões de estrangeiros, de múltiplas gerações. Sua obra se incorporou definitivamente à nossa fisionomia cultural. Vinícius não passará. Será, daqui a séculos, uma expressão do Brasil.

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