3 de outubro de 2017

A um olmo seco

Antonio Machado

A um olmo velho, fendido pelo raio,
e pela metade apodrecido,
com as chuvas de abril e o sol de maio,
saíram-lhe algumas folhas verdes.

O olmo centenário na colina
que beira o Douro! Um musgo amarelado
mancha a esbranquiçada casca
do tronco carcomido e empoeirado.

Não será, como os álamos em uivos
que guardam o caminho e a ribeira
habitado por pardos rouxinóis.
Exército de formigas em fileira
por ele vai subindo, em suas entranhas
urdem teias grises as aranhas.

Antes que te derrube, olmo do Douro,
com o machado o lenhador, e o carpinteiro
te converta, para o sino, em cavalete, 
canga de carro ou fueiro de carreta ;
antes que, amanhã, num lar, 
ardas vermelho nalguma mísera casa
à beira de um caminho;
antes que te destroce um torvelinho 
e te entorte o sopro das serras brancas;
antes que o rio até o mar de empurre
por vales e barrancos,
quero anotar em minha agenda
a graciosidade de tua esverdeada rama.
Meu coração espera,
em nome da luz e da vida,
outro milagre da primavera.

Tradução: Salomão Sousa

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