Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?
Uma pedra que encontramos na
natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão,
ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não
tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.
Para ser uma obra de arte, o objeto
tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um
significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos
que existem no mundo? Temos de criar outros?
Devemos estar atentos a essas
questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os
próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de
perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa
casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se
melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais
elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se
deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de
nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que
estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as
roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e
imaginamos. A Arte é o resultado da
execução daquilo que imaginamos.
Octávio Paz, poeta mexicano que
ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e
a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões
podem ser aplicadas à Arte.
A poesia é
conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a
atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um
método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos
eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra
natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo
com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania,
epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação,
condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes.
Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e
o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito.
Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto
do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência
às regras; criação de outras(1).
Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui
identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens,
nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos,
contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de
existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é
ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet –
para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo
precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos
no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não
correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos
identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)
Com a arte, o homem
aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua
presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria
existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não
tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é
consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo.
Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele
ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas.
Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a
casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas
filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por
isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não
precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro
compra até as coisas que não precisamos.
Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros
e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar,
podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos
contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da
sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser
encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem
pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por
nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão,
mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter
consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo.
Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a
razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos
procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.
Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos
aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos
entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros
pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte,
identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização,
descobrimo-nos iguais.
A Arte é a melhor forma que o homem
encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um
animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar
ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos.
Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem
fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por
criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas,
sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona,
alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da
Arte.
Assim, vamos tocando o que chamamos
de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos
viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das
criações humanas.
Inventemos para nossa própria
alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula
a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo.
No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir
daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não
sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria
vida.
A Arte e a experiência de viver se
complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço
melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me
envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa
desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo.
Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não
desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.
Uma pessoa feliz, que ouve uma
música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar
dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de
arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa
troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a
Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom
ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as
pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda
a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e
belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.
Não deixemos de conhecer, de
perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas
entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser
extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.
O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se
faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer
e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho,
desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou
pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre
para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer
no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o
outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como
pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a
que nos oprime.
Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes,
integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao
desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos
ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas
condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer
que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e
escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar
pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam
inibir a percepção da liberdade.
Ampliamos nossa percepção através da
Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos
a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber,
criamos a nossa liberdade.
A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder
trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por
não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a
sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não
prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que
todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do
outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz
e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Salomão Sousa sente-se honrado com a visita e o comentário