24 de fevereiro de 2026

A importância da Arte para a liberdade

Para que nós escrevemos? Desenhamos? Assistimos filmes? Ouvimos música? Por que nós nos preocupamos com essas criações que sempre foram chamadas de Arte? A vida em si mesma não é suficiente para justificar a nossa presença na Terra? Não seria suficiente olharmos o rio ou ficarmos observando as mudanças que acontecem constantemente no céu? Irmos às compras nas feiras e nos shoppings? Qual a diferença da beleza da arte em comparação com a beleza de tudo que pertence à natureza? Qual a diferença de uma briga na rua de um desenho sobre a guerra ou fotos de pessoas soterradas?

            Uma pedra que encontramos na natureza, por mais que ela se pareça com um cavalo ou com a cabeça de um dragão, ela não é uma obra de arte. O desenho de uma folha de árvore numa pedra, se não tiver sido feito por uma pessoa, também não é uma obra de arte.

            Para ser uma obra de arte, o objeto tem de ter sido criado pelas mãos de uma pessoa e com a intenção de dar um significado que possa ser interpretado. Mas já não basta as formas e os objetos que existem no mundo? Temos de criar outros?

            Devemos estar atentos a essas questões. Quando fazemos e entendemos obras de Arte, nós estamos desvendando os próprios mistérios da vida. As obras de arte aumentam a nossa capacidade de perceber as pessoas e o ambiente que habitamos. A arte nos ajuda a tornar nossa casa mais bela; com a Arte, nossa roupa nos torna mais elegantes, ajusta-se melhor à forma de nosso corpo. Com a Arte, apresentamo-nos muito mais elegantes. Quem não entende as obras de arte passa a ser apenas matéria a se deteriorar no mundo, pois não consegue entender essa troca, esse ajuste de nosso corpo com elegância, beleza, felicidade, com os demais elementos que estão à nossa volta. A nossa presença não se justifica só pelo corpo, as roupas, mas, sobretudo, pelo que contribuímos, intuímos, descobrimos e imaginamos.  A Arte é o resultado da execução daquilo que imaginamos.

            Octávio Paz, poeta mexicano que ganhou o Prêmio Nobel de 1990, aponta logo na abertura de seu livro O arco e a lira as várias razões positivas para a existência da Poesia. Essas razões podem ser aplicadas à Arte.

 

A poesia é conhecimento, salvação, poder abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à Terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, esconjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história; em seu seio ficam solucionados todos os conflitos objetivos e o homem adquire, finalmente, consciência de ser algo mais que trânsito. Experiência, sentimento, emoção, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de habitar uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras(1).

 

Podemos notar que a Arte, como diz Octavio Paz, atribui identidade aos indivíduos e às Civilizações. A filosofia, a Arte, as tatuagens, nossos cortes de cabelos, as ciências, tudo que absorvemos para nos mostrarmos, contribui para formação de nossa identidade. O que é identidade? É a forma de existirmos, de nos postarmos diante do mundo, com consciência. (Postar é ficarmos num lugar onde podemos ser vistos. Por isso, postamos na internet – para que as nossas manifestações sejam vistas. E nossa presença no mundo precisa ser como as nossas postagens – sermos vistos na forma que nos postamos no mundo. Muitos nos enganam, pois se mostram (se postam) em formas que não correspondem ao que são na realidade. Tornamo-nos mentira quando nos identificamos com indivíduos que se postam disfarçados para nos traírem.)

 Com a arte, o homem aprende que precisa viver contradições e deixar sua marca, tornando sua presença permanente. Mas, uma permanência consciente, com domínio da própria existência. O indivíduo que não adquire os rudimentos para ser consciente não tem domínio sobre a própria vida, pois não se posta como desejava. Se não é consciente, engana-se na forma de se manifestar, podendo trair a si mesmo. 

Lembremos de Sócrates. Ele não escreveu nenhum livro. Ele ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas. Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, a mulher dele, fechava a casa para seus amigos não entrarem. Todos gostavam de suas conversas filosóficas, mas consumiam tudo que estivesse na casa e não pagavam nada por isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. Ele respondia que não precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro compra até as coisas que não precisamos.

Sócrates diz que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros e muito menos pode comprar no mercado. Por exemplo, se for para cozinhar, podemos pagar ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, podemos contratar o comandante para levar o navio pelos mares. Mas, se precisarmos da sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas faculdades não podem ser encomendadas nas lojas virtuais ou aos personals. Os outros não conseguem pensar por nós, amar por nós. Não podemos contratar um filósofo para pensar por nós. Outros podem até dizer que determinadas questões devem ser a nossa razão, mas só nos apresentam razões para se aproveitarem de nós. Temos de ter consciência para sabermos qual a razão é melhor para a nossa presença no mundo. Se contrato alguém para definir essa razão, certamente serei enganado, pois a razão a ser apresentada pelo Outro não será a minha, a não ser que a tenhamos procurado juntos, sem negociata que envolva pecúnia.

Outras pessoas não podem amar por nós. Nós mesmos precisamos aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos entregar os nossos pensamentos para os outros. E, quando deixamos os outros pensarem por nós, permitimos que sejamos dominados. Com a Arte, identificamo-nos uns com os outros, sentimo-nos pertencentes à Civilização, descobrimo-nos iguais.

            A Arte é a melhor forma que o homem encontrou de se ajustar ao mundo, de ser um elemento belo, deixar de ser um animal. Um animal simplesmente anda, come, briga e mantem-se atento para evitar ser extinto. Os indivíduos podem criar. Aquilo que criamos pertence a todos. Todos podem ouvir a mesma música, podem curar as doenças com remédios, podem fazer churrasco ou feijoada que outros inventaram. Somos humanos justamente por criarmos e inventarmos e, com nossas criações, invenções e descobertas, sentirmos alegria ao desfrutarmos desse desvendamento. A Arte nos emociona, alerta, nos ajusta ao mundo. Principalmente, intuindo, fazendo e desfrutando da Arte.

            Assim, vamos tocando o que chamamos de Civilização. A Civilização é a descoberta de maneiras para que possamos viver em ordem, bem governados e desfrutando das belezas da natureza e das criações humanas.

            Inventemos para nossa própria alegria e para criação de harmonia com tudo que está à nossa volta. A Arte articula a harmonia, torna prazerosa a forma de estarmos presentes e juntos no Universo. No entanto, para que exista a criação é preciso que possamos imaginar a partir daquilo que vivemos e sentimos aplicando as nossas próprias experiências. Não sentimos emoção diante da Arte se não temos interesse em compreender a própria vida.

            A Arte e a experiência de viver se complementam. Vivo melhor se convivo e entendo a Arte; entendo melhor e faço melhor a Arte se vivo bem e entendo as outras pessoas e tudo mais com que me envolvo. Com o vento, a água, o pote de mel sobre a mesa. Uma pessoa desajustada não tem interesse por um quadro, prefere rasgá-lo a contemplá-lo. Uma pessoa que não achou seu tempo, prefere partir os relógios para não desfrutar das horas boas, pois só conhece as ruins.

            Uma pessoa feliz, que ouve uma música, compreende que ela é bela e que a vida, independente de apresentar dificuldades, é gloriosa. Se trocamos socos não estamos fazendo uma obra de arte. Só podemos trocar socos dentro da Arte e só com a Arte nos humanizamos. Nessa troca, a Humanidade sai fortalecida. A Arte é imitação da vida. Quando vemos a Arte imitando a vida, nós questionamos se aquilo que está sendo imitado é bom ou é um ato vergonhoso, de desonra da nossa vida no mundo. A Arte ajuda as pessoas a compreenderem e a ordenarem a sua presença no mundo. A Arte nos ajuda a tornar melhor, a cada dia, a nossa casa, que é o Mundo. Inventamos as horas e belos relógios para desfrutarmos melhor do nosso tempo.

            Não deixemos de conhecer, de perguntar, de responder e de participar. Ficar quieto esperando as coisas entrarem por nossa porta é antecipar a tristeza e até mesmo permitir-se ser extinto. Nada aparece se não buscamos, se não construímos, se não inventamos.

O ovo vai deixando de ser ovo. Não sei como ele é produzido se faço a sua encomenda numa mercearia, se já surge para mim envolto no pão. Conhecer e fazer nos mantém vivos e satisfeitos uns com os outros. Se você é filho, desfrute a rua, o galinheiro, o céu, os livros, com seus pais. Se você é mãe ou pai, avó ou avô, desfrute com seu filho a rua, o céu, os livros, os caminhos. Mostre para ele o galinheiro, mostre onde são descartadas as fezes dos animais. Permanecer no caminho é a única forma de mantermos viva a esperança. Não permita que o outro cumpra o que você deseja, que outro apresente a sua razão. Não temos como pagar outra pessoa para ser feliz por nós. A razão que encontramos à venda é a que nos oprime.

Temos de cumprir as nossas tarefas para que nos sintamos partes, integrados e felizes, pois não estávamos presentes no momento da construção. Ao desempenharmos tarefas cotidianas, seja de fazer Arte ou colher ovos nos ninhos, sentimo-nos participantes, integrados e capazes de pensar ajustes nas condições de existirmos. Isso é ser revolucionário. Ser revolucionário é querer que a vida seja boa para todos ― sem subterfúgios, enganações, opressões e escravizações. Ser revolucionário envolve trabalho para que todos possam passar pelos mesmos caminhos. Por isso os opressores inibem a presença da Arte: visam inibir a percepção da liberdade.

            Ampliamos nossa percepção através da Arte. Com a Arte, habilitamo-nos a sentir e a nos harmonizarmos. Habilitamo-nos a perceber e interpretar o que está em nosso entorno. Ao conseguirmos perceber, criamos a nossa liberdade.

A nossa presença no mundo é temporária e não podemos nos perder trancados, truculentos, ultrapassados como nossos antepassados trogloditas, por não querermos mudança, não querermos nos ajustar, não conseguirmos alcançar a sabedoria. A sabedoria é uma coisa muitos simples. É só fazer o que não prejudica outra pessoa. E são muitas coisas que sobram para fazermos para que todos possam ser felizes. A nossa felicidade, então, depende da felicidade do outro. O indivíduo infeliz destrói tudo. O indivíduo ajustado ao mundo é feliz e deseja que tudo esteja em harmonia à sua volta!

 1.      PAZ, Octavio. O Arco e a lira in La casa de la presencia, Galaxia Gutenberg, Barcelona : Espanha, 1999.   


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