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Adônis

Neste dia em que foi divulgado o prêmio Nobel de Literatura de 2011, que coube ao sueco Tomas Transtromer, aproveito para postar um poema de Adônis, poeta sírio, que esteve cotado para receber o prêmio. A literatura árabe, sobretudo a poesia, é muito pouco traduzida. E há uma forma muito rápida de encontrar a simplicidade, com exatidão em seus textos. Ainda agora estou lendo de novo Maalouf (Leon o Africano, em espanhol, pois acredito que ainda não há tradução em português). E logo no primeiro parágrafo, este achado de incontrolável beleza:
Sou filho do caminho, caravana é minha pátria e minha vida a mais inesperada travessia.


A tradução do poema foi a partir do espanhol




CELEBRAÇÃO DO DIA E DA NOITE
Adonis (Ali Ahmad Said Asbar)

O dia encosta a cancela de seu jardim,
lava os pés e se envolve em seu manto
para acolher a sua amiga noite.

O crepúsculo avança lentamente.
Há manchas de sangue em seus ombros;
em sua mãos, à beira de murchar,
uma rosa.

Ruidosa avança a aurora.
Suas mãos abrem o livro do tempo
e o sol passa as páginas.

No umbral do ocaso
o dia rompe seus espelhos
para conciliar o sono.
 
Os momentos são ondas do tempo.
Cada corpo uma praia.

O tempo é o vento
que sopra dos lados da morte.
 
A noite veste a camisa da noite.
O dia a descobre.
 
É a alba:
na sacada as flores roçam os olhos;
na janela,
ondeiam as tranças de sol.
 
O dia vê com as mãos;
a noite vê com o corpo o corpo.

Se o dia falasse,
anunciaria a noite.
 
Suave é a mão da noite
nas tranças da melancolia.

O dia não sabe adormecer
fora do regaço da noite.
 
Concedeu-me a minha tristeza
ser uma contínua noite.

O passado,
lago para um único navegante:
a lembrança.

A luz: vestido
que às vezes tece a noite.

O crepúsculo: a única almofada
em que se abraçam o dia e a noite.

A luz só age desperta.
Só adormecida age a escuridão.
 
Com os sonhos da noite tecemos
os trajes do dia.


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