janeiro 27, 2015

Astier Basílio



Republico aqui a resenha que Astier Basílio publicou sobre o meu livro Ruínas ao sol. Deixo-a na íntegra, pois tem uma importância enorme para mim, pela sinceridade, pela leitura consciente de meu livro. Pois esse excesso de repetição vem do mundo entediado em que vivemos, que está resultando na violência da elite em quebrar as cidades. Basta ver o romance Terroristas do milênio, de J. G. Ballard.


Jornal da Paraíba, em 28 de outubro de 2006

Uma travessia entre o inusitado e o estranho

A poesia do goiano Salomão Sousa joga com o manejo da linguagem, mas o efeito se perde coma repetição excessiva de recursos

Astier Basílio

Há poetas que apostam no pensamento, outros na fragmentação e no desmonte, por sua vez, há aqueles que investem na linguagem. É dessa família que pertence o goiano, radicado em Brasília, Salomão Sousa. Prova disso é seu livro Ruínas ao Sol (7 Letras, 86 págs., 2006). A obra foi a vencedora do Festival de Poesia de Goyaz, deste ano.
Na linha encantatória e com apelos eloqüentes aos aspectos visuais e sensitivo feitos através do uso da metáfora, que comparece em sua estrutura visionária, repleta de estranhamentos e de associações pouco usuais, a poesia de Salomão trabalha com o inusitado e o estranho.
É o que podemos ver em construções como “aceitar os escombros/ as moscas da febre/as magras pontes sem nossas sombras”, ou “Onde as sementes desejam/ voam plumas e se confundem/ com líquidas libélulas de sol”e“com os idílios dos erros nós remamos”.
O livro nos remete a uma espécie de travessia, sem lugar e em todos os lugares. A paisagem é o palco para as errâncias da linguagem que não cede aos regimentos lógicos, antes resvala pelo terreno do surrealismo. Os poemas
não têm título.
O que sugere este horizonte circular e mútuo, como se um único poema se desdobrasse em movimentos, promovendo avanços e recuos, mas sem a intenção de chegar. É o que se pode ver nestes belos versos: “Estarás em qualquer/ilegível estrela ou estrada/ irei recolhendo tuas roupas/todas em rasgos/ só eu posso te encontrar/ no instante em que fores louca”.
Era como se o poeta quisesse sinalizar que não há saída fora da linguagem, que não haveria salvação fora da palavra. Esta é a impressão que tenho ao ler versos como “ninguém terá de imaginar fugas/ mentir às brumas dos brâmanes/ ninguém ficará sem saídas/ nas curvas do labirinto/ninguém terá de terminar”. O poeta quer seguir o seu deserto de dentro. É o que vemos nesta verdadeira profissão de fé: “Não se apresenta nenhum nirvana/e talvez nada seja em vão/não reclamo da andadura/ não levo me a nenhuma caravana/sem visagens e sem cântaro”.
Ruínas ao Sol é um título extremamente significativo. Salomão ativa vários sentidos aí. Podemos lê-lo como a descontinuidade do amanhã, o tempo e seus entre-lugares, numa referência à pós-modernidade, terreno movediço de vozes. Se é no manejo da linguagem o ponto alto do goiano e neste mesmo expediente que decorrem os momentos menos felizes do livro, justamente, por conta do abuso deste recurso, que à repetição excessiva, acaba perdendo seu efeito surpreendente.

janeiro 21, 2015

TV Justiça

Concedi uma entrevista à TV Justiça, para o progtama Iluminuras. Deixo aqui as respostas para a pré-produçao da entrevista. Assim que tiver o link do vídeo, divulgarei aqui. 
Qual é sua formação? E sua ocupação atual?
Sou formado em Comunicação Social, pelo CEUB. Sou concursado do antigo DASP para a àrea de Comunicação Social, e acabei me especializando em processo legislativo, pois sempre trabalhei em relações com o Congresso Nacional. Atualmente, sou o chefe da Assessoria para Acompanhamento Parlamentar, do Ministério da Fazenda, que é o meu órgão de origem.

- Qual é o primeiro livro que você se lembra de ter lido e a impressão que teve dele?
É difícil remontar a história da minha primeira experiência de leitura. Fui alfabetizado em casa, começando às minhas leituras por livros de cordel, ainda criança. Talvez o primeira livro de literatura que eu tenha lido tenha sido Iracema, de José de Alencar. Mas desde o início já me encanta a própria trama dos livros. Até livros de história eu leio como algo romanesco, pois tudo, neste mundo parece fictício. Ainda recentemente, li um livro de história da Segunda Guerra Mundial e julgava, enquanto lia, que aquilo tudo, seis mil blindados no confronto de Stalingrado, só poderia ser algo de ficção científica.

- Onde você nasceu? Sua cultura lhe influenciou nas primeiras leituras?
Nasci numa pequena fazenda, sem muitos recursos, na beira do rio Calvo, no município de Silvania. Mudamos para Silvania quando eu tinha doze anos. Como eu estava alfabetizado, tive logo contato com a biblioteca pública da cidade. Onde estavam poetas brasileiros, sobretudo Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo. E também alguns parnasianos. Mas o que me ajudou muito foram as minhas próprias ações. Eu precisava de leitura para preencher minha solidão. Um comerciante assinava jornais para fazer papel de embrulho. Eu me propus a buscar os jornais na agência, e em troca lia os jornais. Assim lia jornais de São Paulo e Rio de Janeiro.

- E a paixão pelas letras, de onde veio?
Começar a escrever veio dos próprios desafios pessoais. Um andarilho lançou um jornal na cidade e eu, lendo poesia quase todos os dias, desejei publicar um poema naquele jornal. Devia estar com uns dezesseis anos. O poema foi publicado. Como fui aclamado poeta, a poesia passou a integrar as minhas atividades cotidianas. Para começar a publicar poemas em suplementos de Goiânia, foi um pulo. E nunca deixei de me relacionar com pessoas ligadas à cultura. Em Silvania, ainda jovem, conversava com os notáveis da cidade, que se preocupavam com a cultura ou escreviam poesia ou outros textos. Em Brasília, assim que cheguei, procurei me relacionar com escritores e a frequentar a Associação Nacional de Escritores. Além do mais, sempre me correspondia com autores de todo o país. É necessário ter vontade de fazer.

- O que gosta de ler? (contos, crônicas, poesias?)
Gostos de ler todos os gêneros. Principalmente os clássicos. Hoje gosto de textos inteligentes. Em cada época estamos preparados para determinada leitura. Não podemos ler Proust aos 15 anos. 

- Quais autores você mais lê?
Em poesia: Rilke, Fernando Pessoa, Kavafis. Em Ficção: tenho sempre ansiedade de reler Dostóievski, Melville, Mahfuz. E uma centena de outros.

- Fale um pouco sobre o processo de criação de seu livro?
O meu processo de criação foi evoluindo ao longo de minha vida. No início, era uma criação introspectiva, ligada às impressões pessoais aliadas á realidade. Agora, aliou-se a este processo a necessidade de infinita reescritura. Parece que o poema demora a ficar pronto.

- Tem outra obra a caminho?
Está quase pronta. É um novo livro de poemas. Um livro grande, bem maduro. Tabua da memória é seu título. Trabalha com a questão da linguagem das redes sociais e das questões da história atual, sobretudo urbanas.

- Qual tema mais te agrada tratar em sua obras e por que?
Tenho grande dificuldade com a lírica amorosa. Essa falsa lírica mata a maioria dos poetas brasileiros. A verdadeira poesia trata da realidade, da metafísica. A poesia é o formato de transgressão do cotidiano.

- Alguma peculiaridade em sua carreira?
Não vejo algo que sobressaia excessivamente na minha carreira. Ou se existe uma carreira. Ainda sou pouco lido. Apesar de a rede social vir auxiliando na melhor exposição de meu trabalho. Saí de uma poesia ligada às origens para chegar a um texto mais denso, neobarroco. E isso tem trazido mais receptividade ao meu trabalho.

- Você gostaria de acrescentar mais alguma informação/fato curioso?
A literatura é um formato de expansão da vida, sobretudo pela intensidade das amizades. O prazer de ler esta sempre aliado ao prazer da amizade, pois precisamos partilhar a experiência de viver, aí incluída a experiência da leitura.