Enquanto aguardo que a vida me traga alguma metáfora nada diluidora, vou postar aqui um dos sonetos de Rilke, o terceiro de Os Sonetos a Orfeu, na tradução de Karlos Rischbieter, da edição da Ed. Record. Encanta-me, neste soneto, os silêncios que Rilke intercala entre as palavras. Só com estes silêncios para mostrar a ausência/presença do sopro da divindade. Talvez daqui Clarice Lispector tenha tirado o título de seu livro Um Sopro de Vida. Se eu pudesse, alinharia aqui todas as Elegias do Duíno, onde Rilke me corta a garganta. Lê a terceira elegia toda a vez que sentires a garganta seca.
Aí o soneto terceiro a Orfeu, de Rilke.

Um Deus o pode. Como, porém, poderá
um homem segui-lo na lira delgada?
Seu acordo é discorde. Na encruzilhada
dos corações, templo para Apolo não há.

Cantar, como o ensinas, não é tormento,
nem desejo de uma conquista final.
Cantar é ser. Para o Deus, coisa banal.
Mas nós: quando somos? Em que momento

ele constela Terra e Estrelas em nosso ser?
Jovem, amar é tudo e nada, embora
a voz te rasgue a boca: aprende a esquecer

que cantaste. É apenas um momento.
Cantar em verdade é outro canto agora.
Um canto por nada. Um sopro em Deus. Um vento.

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