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Pela décima, sei lá quantas vezes, tomo para ler o romance À sombra do Vulcão, de Malcolm Lowry (só o nome do autor já é um poema concreto - quatro l's e os dois m's que circundam o primwiro nome). A epígrafe deste romance é um trecho da Antígona, de Sófocles. Trata-se umas das coisas mais comoventes que já li na minha vida. Deixo aqui uma tradução de forma mais clássica (a que está no romanmce da LPM é mais popular, certamente adaptada pelo poeta Leonardo Fróes). Em qualquer tradução, comovente!

Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co’ o sopro invernoso do Noto,
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
imortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.
E das aves as tribos descuidadas,
a raça das feras,
em côncavas redes
a fauna, apanha-as e prende-as
o engenho do homem.
Dos animais do monte, que no mato
habitam, com arte se apodera;
domina o cavalo
de longas crinas, o jugo lhe põe,
vence o touro indomável das alturas.
A fala e o alado pensamento,
as normas que regulam as cidades
sozinho aprendeu;
da geada do céu, da chuva inclemente
e sem refúgio, os dardos evita,
de tudo capaz.
Ao Hades somente
fugir não implora.
De doenças invencíveis os meios
de escapar já com outros meditou.
Da sua arte o engenho subtil
p’ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;
se da terra preza as leis e dos deuses
na justiça faz fé, grande é a cidade;
mas logo a perde
quem por audácia incorre no erro.
Longe do meu lar
o que assim for !
E longe esteja dos meus pensamentos
o homem que tal crime perpetrar

Antígona (333-376). Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Instituto Nacional de Estudos Clássicos, 1992. Todas as nossas citações da obra referida serão desta edição.

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Do Diabo
Vilém Flusser
Há temas que embora sempre recalcados insistem em ressurgir à tona. O diabo é um deles. Acompanha, ora como motivo principal, ora como sugestão apenas perceptível, o desenrolar da sinfonia do pensamento individual e coletivo. Aparece nas paredes das cavernas do Madaleniano. No Egito pré-dinástico domina a cena a arte figurativa. Devora incontáveis vítimas oferecidas em holocausto em todas as civilizações mesopotâmicas. Disputa com o seu parceiro e rival o governo do mundo na civilização persa. Espalha pânico entre os gregos arcaicos, confunde e tenta os santos fundadores da Igreja. Esconde-se nas torres das catedrais góticas. Interrompe as devotas conversações de Lutero. Na literatura atual aparece em várias obras extremamente representativas, no âmbito mundial ("Dr. Faustus" de Thomas Mann) e no âmbito brasileiro ("Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa). Nas duas pseudo-religiões do século vinte, fascismo e marxismo, assume a forma levemente sublimada de "judaísmo" e "capitalismo". Domina o pensamento existencial nos trajes do pseudoconceito "nada". O intelecto recomenda: "No nada. Não se pense nele". A angústia e o nojo, este húmus amorfo do qual o intelecto brota, não se dá por satisfeito.

Kafka nota: "A fé no diabo é impossível. Mais diabo do que há não pode haver". É uma frase tipicamente diabólica. Reina nela uma confusão proposital e sistemática. Mais que articulação, é ela tremor e ranger de dentes. Esconde e revela a um tempo o tema principal da nossa consciência: a dificuldade de distinguir entre diabo e o seu rival, tradicionalmente chamado "Deus". Essa distinção é automaticamente alcançada na fé em "Deus", em qualquer de suas formas, mesmo nas formas ingênuas de "nação" ou "proletariado". Aquele que tem a graça da fé, em qualquer de suas formas, comeu da árvore da sabedoria e sabe distinguir entre o Mal e o Bem. Mas quando a dúvida se instala e a fé periclita, a distinção torna-se problemática. Intelectualmente, é verdade, podem ser construídas normas de comportamento e escalas de valores. Mas falta autenticidade a tais substitutos da fé. O motivo vivencial da escolha, e do conseqüente comportamento daquele que tem fé, é a fuga do diabo. Fugir do diabo e "procurar Deus" são sinônimos no território da fé. Quando a fé desaparece, desaparece o motivo vivencial da escolha, e é substituído por um pálido motivo racional. A liberdade, que antes era escolha entre pecado e virtude, passa a ser um conceito abstrato, esvaziado de conteúdo existencial. Existencialmente, tornou-se impossível distinguir entre o Mal e o Bem. A confusão entre o Mal e o Bem representa, no entanto, a vitória do diabo. É essa a situação que Kafka articula na frase citada.

Estas considerações iluminam com luz fraca e difusa o aspecto ético do diabo. São ecos apenas audíveis da luta que se desenvolve em nosso foro íntimo, naquele núcleo do nosso Eu que Camus chama de "honestidade". Não são, portanto, a rigor, articuláveis. Não se pode, a rigor, discutir o diabo deste ponto de vista, embora as religiões tradicionais o tenham tentado fazer em milhares de tratados teológicos. O diabo, como fonte de liberdade autêntica, não é discutível, mas apenas vivível ("erlebbar"). É o aspecto ontológico do diabo, o diabo como horizonte do Ser, que pode ser discutido e formará, portanto, o tema deste artigo. Em outras palavras: o tema não é tanto o diabo como sedutor das almas, mas o diabo como príncipe das trevas e senhor do inferno.

A nomenclatura à qual estou recorrendo é propositadamente medieval, mas não pretendo chocar o leitor. Quero, isto sim, colocar a discussão no seu contexto apropriado. A especulação filosófica atual retomou o fio da conversa lá aonde escolásticos do século XV o deixaram cair, mas esta circunstância é mascarada pela nova nomenclatura. Restaurando a nomenclatura medieval, estaremos restabelecendo conscientemente a corrente da tradição.

Assim, a tradição ocidental é caracterizada por duas tendências, uma dominante frente à outra recessiva. A dominante, "ortodoxa", pode ser identificada, grosso modo, com o cristianismo. A recessiva, "herege", pode ser identificada, grosso modo, com o maniqueísmo. A história do pensamento ocidental pode ser encarada como luta intrincada entre estas duas tendências, cabendo, via de regra, aos elementos judeus e latinos a defesa da ortodoxia, e aos elementos germânicos, eslavos e orientais a defesa da heresia. Para a ortodoxia, o Ser transcende as aparências, para a heresia o Ser se resume nas aparências. Como ambas usam a nomenclatura da ortodoxia dominante, podemos dizer que a ortodoxia luta por Deus e a heresia pelo diabo.

A Idade Moderna, cujos últimos instantes presenciamos, ofusca a visão da tradição ocidental conforme aqui foi exposta. A dúvida cartesiana que inaugura a Idade Moderna resulta no espírito científico aparentemente maniqueísta, já que aparentemente preocupado exclusivamente com as aparências. Entretanto, trata-se de uma ortodoxia disfarçada, já que a ciência procura descobrir leis, isto é, o Ser que transcende as aparências. Recorrendo a um paradoxo, podemos dizer que a ciência é uma ortodoxia com métodos heréticos. É uma procura de Deus através da pesquisa do diabo. É, portanto, muito difícil e artificial querer distinguir a tendência cristã da maniqueísta no curso da Idade Moderna, embora ambas as tendências continuem ativas subterraneamente, como se torna aparente atualmente.

Do ponto de vista ontológico a procura científica pode ser considerada como concluída. Embora a ciência continue avançando com ritmo acelerado, abriu mão da pretensão de penetrar até o Ser. Já não pode, portanto, substituir a religião, como o fez nos séculos XVIII e XIX. O cientificismo morreu, e com ele morreu (ou está morrendo), a Idade Moderna. Reaparecem, metamorfoseados, o "cristianismo" e o "maniqueísmo".

A posição maniqueísta atual está resumida na frase de Nietzche: "Deus está morto". A posição ortodoxa, definida por Nietzche como "niilismo platônico", está na defensiva. Os papéis das duas tendências tradicionais se inverteram, Os elementos germânicos, eslavos e orientais triunfam (talvez provisoriamente) sobre os elementos judeus e latinos. O Império Romano, base inconsciente do ocidente, está sendo invadido, mais uma vez, pelos bárbaros fora e dentro do "limes". Aproximamo-nos de uma nova Idade Média, talvez tão fervorosa, diabólica e crente quanto a primeira. Consideremos a posição maniqueísta da atualidade.

Basicamente ela assume duas formas: a do existencialismo e a do neopositivismo. O existencialismo diz respeito à situação do homem no mundo e representa um humanismo curiosamente invertido. O homem foi jogado pelo "fundamento que não gosta de nós" (Rilke), isto é, pelo diabo, para dentro do mundo sem ser previamente consultado. Duas são as situações que resultam deste "estarmos jogados": podemos continuar decaindo em direção da morte, nojentamente e angustiados, ou podemos projetar-nos contra nossas origens, honestos e preocupados. Em ambos os casos o nosso destino é absurdo, porque o "nada" (o diabo) está à nossa espera, tanto no fim do trajeto da decadência, como no fim do trajeto do projeto. Somos criaturas do diabo e seremos sua presa, quer nos afastemos dele decaindo, quer nos projetemos contra ele. O inferno é o horizonte do Ser em todas as direções e o próprio Ser não passa de uma espécie de inferno transitório pelo qual a existência passa em seu caminho do inferno para o inferno. Embora os diversos pensadores existenciais variem este tema básico até torná-lo quase irreconhecível e embora cheguem a resultados tão assimétricos com Heidegger, Sartre, Camus e Buber, esta é, no fundo, a posição do existencialismo. Trata-se de um maniqueísmo radical, o qual se distancia do maniqueísmo medieval somente pela sua insistência na "vivência" e na "vontade", desconhecendo, portanto, a ascese dos hereges medievais.

O neopositivismo diz respeito à capacidade do homem de conhecer o mundo e prega uma alienação total entre homem e mundo. O homem está para o mundo como dois espelhos estão um para o outro, se estiverem pendurados dentro de um quarto vazio em paredes opostas (Wittgenstein). Um espelha o outro e nada mais. Os pensamentos do homem são símbolos do mundo e o mundo é a projeção dos pensamentos humanos. Na realidade, o espírito humano está fechado sobre si mesmo e a atividade intelectual equivale, quanto ao seu significado "real", ao jogo de xadrez. O homem está encarcerado dentro do seu intelecto, num inferno particular, com efeito. "Somos ilhas". O clima de uma teoria de conhecimento assim concebida é o da frustração e do desespero. Conduz ao suicídio do intelecto. (O que não pode ser falado deve ser calado). A língua, concebida como um sistema estéril e tautológico de símbolos e regras, é o único campo de atividade do intelecto. Com efeito, a língua é o diabo. O neopositivismo é o lado epistemológico do maniqueísmo atual, o existencialismo é o seu lado ontológico. Muito embora os dois não tenham ainda unido suas forças, essa aliança é facilmente realizável.

A tendência ortodoxa da nova idade que se está aproximando não pode ser ainda caracterizada. Por enquanto, manifesta-se tão somente como resíduos ingênuos da Idade moderna moribunda. Está não somente na defensiva, como representa a reação à situação atual do pensamento ocidental. É neste sentido que podemos falar em "crise do Ocidente". A sobrevivência daquilo que chamamos "civilização ocidental" depende de uma reformulação autêntica de posição ortodoxa, depende, portanto, de uma reformulação daquilo que é chamado, tradicionalmente, "diabo". Se essa reformulação for conseguida, se conseguirmos incorporar no conceito "diabo" os aspectos existenciais do "nada" e os aspectos epistemológicos da "língua", surgirá automaticamente uma nova fé e uma nova e autêntica escala de valores. Não sendo possível a fé no diabo, como diz Kafka, a definição nova do conceito "diabo" acarreta automaticamente a fé no seu rival. A ortodoxia, em sua posição defensiva em face do maniqueísmo novo, necessita terçar armas com ele no terreno por ele escolhido. As tentativas das religiões tradicionais de enfrentar as idéias novas em terreno antigo são desesperadas. Não é destruindo, mas ultrapassando o novo maniqueísmo que poderemos, talvez, salvar a civilização ameaçada. É preciso enfrentar o diabo em sua forma atual se quisermos enquadrá-lo num esquema de valores novos. Não podemos, entretanto, nutrir a esperança de destruí-lo. A destruição do diabo, por inimaginável que seja, seria, logicamente, a destruição de "Deus".

Publicado originalmente em "O Estado de São Paulo" data

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Este artigo faz parte de Vilém Flusser: Olhares Brasileiros, uma publicação do CISC disponível em http://projetos.cisc.org.br/flusser

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