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Parafraseando Drummond, eu diria que de ontem para hoje estou sendo perseguido pelas bruxas (mariposas). Ao apanhar a correspondência na caixa dos correios nesta tarde ensolarada, quase piso numa mariposa morta. Já não apresenta o viço ágil das asas abertas, pois perdeu o domínio do voo (é a primeira vez que me valho da nova regra ortográfica). É até bom que a fotografia não apresente esta mariposa dentro de um foco, pois seria humilhá-la em sua fragilidade. Esta é das negras, com as rajas em forma de "V", fazendo um contraste sábio ao contrário do formato dela ao recolher as asas. Lembrou-me um poema de Fernando Pessoa, do qual transcrevo apenas estrofe:

(Louvado seja Deus que não sou bom,
e tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.

Fernando Pessoa, eu já disse isso num artigo do Momento crítico, não se preocupa com a exatidão da gramatical. Ele não fecha o parêntese que abre esta estrofe. Essa estrofe vale também para o ato poético: acredito que a poesia atual está muito mais preocupada em ser poesia do que em existir como algo integrado ao ato de existir, de forma espontânea. A poesia está precisando imitar as mariposas: pousar despreocupada na sala, e morrer despreocupada perto das caixas dos correios, numa espécie de correspondência que não precisa chegar ao remetente.

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