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Mostrando postagens de Fevereiro, 2009

Antonio Machado

Total apatia literária no transcorrer deste carnaval. Para não perder o pique,
ou o samba, no último ressoar do tambor, deixo aqui a tradução abaixo (sempre traduziram erroneamente "estelas" por "sulcos", quando são "marcas de alguém que pisa" para fazer contrapartida com o primeiro verso, pois "huellas" também não são "passos", mas os "rastros". Os "passos", se Antonio Machado tivesse ampliado o poema ou composto outro, equivaleriam à "caminhada", já que o caminho são os "rastros" no chão, na terra, sei lá. Os "passos" são o ato de caminhar, e os "rastros", de marcar a terra, isto é, abrir caminho):


Antonio Machado
Provérbios e cantares XXIX, de Campos de Castilla

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante,…

Látego

O escritor goiano Brasigóis Felicio publicou a crônica “Não terminar a carta” no jornal Vermelho, de Goiânia , e anuncia que a mesma será republicada em O Popular no próximo domingo. A crônica complementa um texto-crônica de nosso livro Momento crítico.

Terminei de ler o livro “El sueño de los héroes”, do argentino Adolfo Bioy Casares. Exemplo de narrativa matemática, onde todos os diálogos se encaixam nos episódios centrais. O livro ainda não tem tradução brasileira. Só para relembrar uma postagem anterior sobre a violência contra cavalo que postei aqui no blog, aqui neste romance ela se repete:

Cada puchão das rédeas era mais brutal que o anterior. (...) Os puchões tinham machucado a boca do animal. Rasgadas pelo freio, as comissuras da boca sangravam. Um abismo de calma incômoda parecia refletir-se na tristeza dos olhos. (...) Os olhos do cavalo pareciam desorbitar-se num frenesi de pavor. Valerga voltou a levantar o látego (...)”

Não vou traduzir as duas páginas, senão nenhum editor…
Participamos da enquete que o poeta Carlos Willian fez para a revista Bula, digital a partir de Goiânia, para identificar a lista dos dez livros preferenciais que alguns autores já leram. O resultado pode ser conferido pelo resultado geral e pelo preferência de cada autor no seguinte LINK (inclusive os dez livros que listei, e também Gilberto Mendonça Teles).

SAYAT NOVA

Belo o filme sobre o poeta armênio Sayat Nova (A cor da romã, do russo Sergei Paradjanov), que viveu entre 1712/95! Cansou-se da vida palaciana e, depois da morte da mulher, retira-se para o monastério de Haghpat, onde é aceito como monge. Quando os persas atacam o monastério, pedem a ele para renegar Cristo, mas é decapitado ao apresentar resposta negativa. Legou muitos cantos em armênio, georgiano e turco. Charles Aznavour gravou uma de suas canções. Consegui apenas alguns versos esparsos para deixar aqui, retirados de um blog argentino (os versos são de suas várias canções, odes, sei lá). Há livros dele em francês.

Não padecerei neste mundo,
pois para mim és vida.
És uma taça de ouro
cheia da água da imortalidade.
Antes, indica-me meu delito,
em seguida, mata-me.
Para mim tu és Sultan e Khan.
Tens o talhe de um cipreste, de um plátano.
A razão fugiu de minha cabeça,
és uma vide num novo jardim.
Um hipogrifo saído do mar de fogo.
És a flor vermelha e o branco musguet
dos vales para mim
Sou um p…

William Faulkner

Por vários anos, em repetidas vezes, refutei a leitura de O som e a fúria, de William Faulkner. Temia tocar neste autor americano em meus encontros com o amigo Euler Belém, que é admirador incondicional desse novelista, e demonstrar meu analfabetismo faulkneriano. Sempre que iniciava a leitura do romance ou do conto Cavalos malhados — que está no volume da Civilização Brasileira, que traz três novelas, entre elas O urso —, eu me atrapalhava com a forma de o autor já entrar no meio da história como se o leitor já tenha conhecimento antecipado do que vem acontecendo com o enredo. Ele já começa no fim do enredo, já que o enredo para ele não é o percurso da narrativa, mas algo que dá intensidade ao homem de uma época. Além de ter uma inteligência hábil para enriquecer a linguagem. A própria novela O urso, logo de início, traz um intrincado de difícil penetrabilidade (vou ter a paciência de datilografar):

“Havia um homem e um cachorro também, nessa ocasião.”

Impecável como abertura. E é com…
Deixamos aqui um dos slides do curso de “Ecologia Interior”, de Édisa Lopes Brito, em que foram usados três versos de um poema de nossa autoria. O curso tem apoio da Associação Humanista Crescer.

Romance de Ronaldo Costa Fernandes

Foto: Robson Corrêa de Araújo

Consultei a internet e constatei que a divulgação do resultado do Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2008, mereceu raríssimas notas em jornais e mesmo em blogs. Foram-se os tempos em que os jornais entrevistavam os vencedores! Mas eu não poderia deixar de me regozijar de ter um amigo entre os premiados. Torço para que uma editora se ofereça para editar o seu romance. Portanto, saúdo Ronaldo Costa Fernandes pela premiação na categoria romance com o inédito “O vigia”. Caso os jornais ou editoras não tenham o contato dele para entrevistas e contrato, podem me procurar. Destaque, ainda, para a categoria poesia para o livro “A outra noite”, da mineira Ana Martins Marques”; e de contos para “Contos do Norte”, de Jádson Barros Neves (Guaraí-TO).

OS HERALDOS NEGROS - de Cesar Vallejo

Há golpes na vida, tão fortes... E eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles,
o sofrimento em ressaca
se empoçasse na alma... E eu não sei!

São poucos, mas são... Abrem sanjas escuras
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Talvez sejam os potros de bárbaros átilas;
os heraldos negros que nos manda a Morte.

São as quedas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
do pão pronto na porta do forno e queima.

E o homem... Pobre... pobre! Vira os olhos, como
na hora em que a mão nos bate nos ombros e nos chama;
volta os olhos loucos, e tudo que foi vivido
se empossa no olhar, como culpa cheia de lama.

Há golpes na vida, tão fortes... E eu não sei!



Tradução de Salomão Sousa

POEMAS DOS DONS - Jorge Luis Borges

Com a preocupação de ir selecionando material para montar uma grandes antologia de exponenciais poemas da humanidade, traduzi o "Poema dos dons", de Jorge Luis Borges. Gostaria muito que as pessoas julgasssem a tradução e mesmo dessem sugestões visando aperfeiçoá-la.


Ninguém derrame a lágrima ou não acoite
esta declaração da sábia mestria
de Deus, que com magnífica ironia,
de uma só vez me deu os livros e a noite.

Deu posse a esta cidade de livros
a olhos deixados sem luz, que só podem,
nas bibliotecas dos sonhos, ler crivos
de insensatos parágrafos que cedem

as poucas alvoradas. Em vão o dia
prodigaliza livros infinitos,
árduos como os árduos manuscritos
que pereceram junto a Alexandria.

De fome e de sede (na história grega)
falece um rei entre fontes e jardins;
me fatiga e deixa sem rumo os confins
desta alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
e o Ocidente, séculos, dinastias
e símbolos, cosmos e cosmogonias
brindam os muros, mas inutilmente.

Lento em m…

Brasigóis Felício

Carinhosa a resenha de Brasigóis Felício sobre o nosso livro Momento Crítico, publicado na revista Bula, editado na ambiência cibernética a partir de Goiânia. Em outro momento, Brasigóis, certamente os meus artigos estarão mais focados na literatura goiana, tão plena de grandes poetas (lembremos a sua poesia, a de Yêda Schmaltz, do Aidenor Aires, do Delermando Vieira, do Valdivino Braz, dos novos Marcos Caiado e Edmar Guimaraens. Também me surpreendeu a poesia de Carlos Willians.). A próxima resenha que quero fazer é do livro Caderno, de Edmar Guimaraens, mas queria fazer um contato com ele antes — mas ele é muito na moita. Mas ainda “arranco ele da moita”, para usar uma expressão bem goiana. Sou amigo destes poetas e desta poesia. E certamente José Godoy Garcia, Afonso Félix de Souza, Gilberto Mendonça Teles e Cora Coralina. Obrigado pela resenha “O perfume da memória e o ocaso da crítica”.

Aproveito para agradecer a resenha de Manoel Hygino no jornal Hoje em Dia, de BH, também sobre…
A jornalista Marcela Heitor de Andrade, em sua monografia de graduação na UNB, através de entrevistas de 21 escritores de Brasília, estuda a possibilidade de escritores exercerem a profissão de Jornalista. Ela cita aspectos apresentados em nossa introdução à antologia Deste Planalto Central ― poetas de Brasília.