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Livreiro

Surpreendi-me com a matéria que saiu neste sábado, 23.02.13, no caderno "Pensar & Agir", do Correio Braziliense, sobre a comercialização de livros no Brasil. Sobretudo sobre a sobrevivência da profissão de livreiro. A matéria surpreende pela paixão nela contida. Afonso Borges, o autor, não fica só no informativo. Transvere às palavras a sua paixão pelo livro e pelo conteúdo dos livros. Isso também é importante para a divulgação dos livros. Os jornais, as revistas, os poucos suplementos - não abordam mais os livros com paixão. Não fazem mais matérias intimistas. Os livros são abordados sempre com técnica. E o que transvere ao leitor a vontade de ler não é a técnica, mas algo que sobressaiu de outro leitor, algo que imprima uma intimidade com o livro antes mesmo de sua leitura. 
Vejamos o que Afonso Boges diz sobre poesia e Whitman dentro da matéria: "Poesia, esta raridade absoluta nas grandes livrarias brasileiras. E em pleno século 21, quando a neurociência prova que a velha arte de Withman faz o cérebro trabalhar à velocidade de fórmula 1 durante a leitura de um poema. Por que será?"
O livreiro passava a participar das preferências dos leitores. Brasília teve grandes livreiros. Alguns mais saudáveis, outros mais rabugentos. Todos estranhavam o Hargreves, da Casa do Livro, pois, para defender o bom livro, era chegava às raias da rabugice. Mas conseguia para os clientes os mais raros livros, num tempo em que as livrarias não estavam todas visíveis na virtualidade. "A Casa do Livro" começou a definhar quando Hargreves se negou a comercializar Paulo Coelho, entre outros bestseller.
Mas eu gostaria de mencionar ainda os livreiros Victor Alegria e o Ivan da Presença, pois todos tiveram grande participação na minha vida. Além de muitos outros balconistas de livraria. O bom leitor espera chegar numa livraria e ter alguém com quem trocar informações sobre os lançamentos. A minha experiência maior sobre o livreiro foi com o Salles, que fechou a Livraria Literatura para continuar sua paixão pelo livro com a publicação de edições de arte. Eu passava tardes inteiras na livraria só para conversar com ele e com outros escritores que acabavam se reunindo no local. O cliente (e eu era um destes) fazia às vezes muitas vezes de balconista. Lembro-me que ele pediu uns dez exemplaves do romance "Crônica da casa assassinada", de Lúcio Cardoso, que foram ficando abandonados na prateleira. Um dia eu decidi que aquele romance era muito bom para ficar na prateleira. Em dois sábados, em conversas com clientes, os dez exemplares foram vendidos. 
Acredito que estas paixões vão sendo extintas. O balconista agora está preparado para vender o que o cliente imagina querer ler. O balconista (que substituiu a presença do livreiro dentro da livraria ) não auxilia mais o cliente a criar imaginação. E o jornalista e o balconista precisam ter paixão pela letura para que a vontade de ler um bom livro seja transferida para o leitor. Acredito que a contratação, pelas grandes redes, de profissionais só para conversa com leitores, seria um trabalho enorme para a melhoria da qualidade da leitura. São muitos os escritores já idosos que estão precisando de emprego. Quantas vezes converso com clientes em livrarias que circulam perdidos sem saber o que escolher para uma boa leitura, e acabo dando orientações. A cultura é transferência de paixões.
Mas era só para saudar a matéria Afonso Borges! Alonguei-me demais! Boa leitura para todos. Sugiro Gonçalo M. Tavares. Um dos escritores mais inteligentes e instigantes dos últimos tempos!

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