13 de fevereiro de 2024

Espergésia

Cesar Vallejo


Eu nasci num dia

que Deus esteve enfermo.

 

Todos sabem que vivo,

que sou mau; e não sabem

de Dezembro e desse Janeiro.

Pois eu nasci num dia

que Deus esteve enfermo.

 

Há um vazio

em meu ar metafísico

que ninguém vai apalpar:

o claustro do silêncio

que anunciou a flor de fogo.

 

Eu nasci num dia

que Deus esteve enfermo

 

Irmão, escuta, escuta…

Bem. E que eu não parta

sem levar dezembros,

sem deixar janeiros.

Pois eu nasci num dia

que Deus esteve enfermo.

 

Todos sabem que vivo,

que mastigo... E não sabem

porque em meu verso tagarelam,

oscuro insosso de féretro,

espanados ventos

desenroscados da Esfinge

bisbilhoteira do Deserto.

 

Todos sabem… E não sabem

que a luz é tísica,

e a sombra gorda…

E não sabem que o Mistério sintetiza…

que ele é a corcunda

musical e triste que a distância denuncia

a passagem meridiana das fronteiras para as Fronteiras.

 

Eu nasci num dia

que Deus esteve enfermo,

grave.


Tradução: Salomão Sousa

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