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Especial para A VOZ, jornal de Silvânia

A Terra do Coração

Nasci à beira do rio Calvo. A fazenda de meu avô nem chegava a ter nome. Chamavam-na de Fazendinha. E só agora, quando convidado pela A Voz a falar sobre o 325º aniversário de Silvânia, comemorado em 5 de outubro, foi que me preocupei com o nome do lugar em que nasci. Ainda no Festival de Poesia de Goiás — depois de eu dizer no recebimento do Prêmio Goyaz de Poesia pelo livro Ruínas ao Sol que nasci às margens do rio Calvo — o poeta Gilberto Mendonça Teles ainda brincou comigo, alegando que eu não podia ter nascido perto de um rio, “pois Silvânia não tem rio”.
Saí de Silvânia há 35 anos, portanto só posso abordá-la com o olhar da juventude. E, se de juventude, olhar de inocência. Não é à toa que as minhas primeiras matérias jornalísticas foram publicadas em Silvânia com a afoiteza de um crítico ainda em formação. Nunca me arrependi daqueles comentários, pois eles contribuíram para atitudes administrativas à época —, mas hoje a minha abordagem se daria com maior leveza, pois a experiência nos conduz a tons esmaecidos.
Um de meus projetos será reunir aspectos históricos do município de Silvânia para produção de um texto que possa apresentar a cidade em alguma página da internet. Noutro dia, ao consultar a Wikipédia, pude notar que a cidade ainda não se apresenta com a sua grandeza no meio virtual. Datilografei umas três linhas e criei o verbete para a cidade. Só aí já assumi o compromisso de ampliar a sua divulgação, afinal, Silvânia não é só um quadro na parede ou um verbete na memória.
Como não me encontro fisicamente na cidade, perdi o contato político com ela. Lembro-me do Dr. Misac à porta da prefeitura articulando as campanhas políticas no período que antecedeu o regime militar. Agora a política não se dá apenas pelo comando dos mandatários, mas pelos meios de comunicação e pelos programas sociais. Em Silvânia não deve ser diferente. No entanto, com essas novas compreensões, a população deve se comprometer com políticos que coloquem a cidade nas rubricas orçamentárias.
O importante, para mim, é que a cidade ganhe maturidade cultural, e crie alternativas que não deixe a sua juventude apenas com a opção etílica. No meu caso, teve influência fundamental a existência de bibliotecas em funcionamento na cidade (a Biblioteca Municipal e a do Ginásio Anchieta). E os filmes de hoje não tem a mesma intensidade daqueles que vi em Silvânia com o olhar atento da juventude! Se não fossem essas bibliotecas, o cinema e o Ginásio Anchieta, neste momento, em vez de estar inventando estas linhas, poderia estar na beira do rio cavando valas para plantar batata ou para enfiar meu fracasso. Ainda noutro dia, conversando com o poeta Ronaldo Costa Fernandes, ele enfatizava que — mesmo que tenha um único leitor — uma cidade tem a obrigação de manter uma biblioteca.
Portanto, o que me preocupa é a formação cultural. E até nisso a cidade progrediu. A instalação da Rádio Rio Vermelho foi um avanço extraordinário para o desenvolvimento social; a ampliação da rede de ensino, inclusive com a instalação de uma faculdade, veio cimentar a capacidade de questionamento da população. E, a partir do Pallas, a cidade passou a se preocupar com o seu registro histórico, com a preservação do seu patrimônio... Até aquele período, registrava-se apenas a derrubada. Silvânia — se esse movimento tivesse começado há uns cinqüenta anos — poderia ombrear com as cidades de Goyaz e Pirenópolis em importância turística. Mas foram abaixo a Praça do Rosário, com seus sobradinhos, com sua igreja, sem esquecer que demorou a contar com boas estradas que a colocasse numa rota turística que motivasse a conservação de seu patrimônio.
Espero que alguém assuma a revitalização do cinema! Em vários municípios isso já aconteceu! A minha amiga Rosângela mantém o de Paracatu com o maior sucesso, com ingressos a dois reais para as escolas! E que os pais exijam que seus filhos leiam trinta minutos para cada hora que ficar no computador ou com os carros estrondando banalidade na avenida! A leitura nos conecta com o conhecimento e nos projeta para as realizações.

***

Não sei com quantos metros se mede um leito de água para estabelecer que ele é rio, ribeirão ou qualquer outro nome oficial que se tenha de dar. No entanto, os olhares da infância sempre vêem com maior grandeza do que os olhares do adulto. Se é córrego ou não, para mim até o rio Vermelho será para sempre um rio. As pessoas de minha infância não faziam essas distinções. Todo curso de água era rio; toda elevação de terreno era morro; todo ajuntamento de árvores era mata. E a terra do coração será sempre Silvânia.

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