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Voltei a convidar amigos para uma sessão de cinema em minha casa.
Estiveram presentes, por ordem de chegada, João Carlos Raveira, Fábio Coutinho, Donaldo Mello, Robson Corrêa de Araújo e sua esposa Bizé (velocista vitoriosa neste domingo e noutras manhãs) e Ronaldo Costa Fernandes. E os que não chegaram: Antonio Miranda, Herondes Cézar (que estava em Belo Horizonte) e Ronaldo Cagiano (que estava em Paris depois de fazer palestra em Teerã).
Vimos "O intendente Sansho", do japonês Mizoguchi. Trata-se de cineasta que fez uns 100 filmes entre 1920 e 1956 (muitos deles perdidos). Só os dois últimos são coloridos. Foi forçado a fazer fimes publicitários para o governo (nazista, do Eixo?) na época da segunda guerra mundial. Daí, talvez, o acentuado tom social (principalmente reflexões sobre as condições da mulher — e também em razão de uma sua irmã ter sido vendida) dos filmes que vieram após a Segunda Guerra Mundial.
"O Intendente Sansho" trata disso. O Governo Lula devia baixar um decreto: todo homem público devia ver o filme antes de assumir um cargo público, antes de ser diplomado parlamentar, juiz, promootor... É um filme sobre a dignidade humana. Já que achamos tão óbvio ser digno, por que a falta de sua prática?
Após assistirmos o filme, ainda lemos Jorge Luis Borges. Lemos "Cosmogonia", lembrando que esse título quase foi dado ao "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. Ofereci ao amigo Ronaldo Costa Fernandes um exemplar da primeira edição do "Invenção de Orfeu", do mesmo ano em que nascemos (1952).
Hoje, para completar a temática do filme e do diálogo cosmológico e ético de Jorge Luis Borges, traduzimos o poema

"TU"

de Jorge Luis Borges
Tradução: Salomão Sousa

Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.
Dizer o contrário é mera estatística, é uma adição impossível.
Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho que sonhastes ontem à noite.
Esse homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou as constelações, o homem que erigiu a primeira pirâmide, o homem que escreveu os hexagramas do Livro das Mudanças, o forjador que gravou runas na espada de Hegisto, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luiz de Leon, o livreiro que inventou Samuel Johnson, o jardineiro de Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara letal, com o tempo, tu e eu.
Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.
Um só homem morreu nos hospitais, em barcos, na árdua solidão, na alcova do hábito e do costume.
Um só homem contemplou a vasta aurora.
Um só homem sentiu no paladar o frescor da água, o sabor das frutas e da carne.
Falou do único, do uno, do que está sempre só.

Comentários

me vejo lendo Borges em baixo do vidro do aparador na casa do Arnaldo do Refúgio no Cruzeiro:um poema:Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
- UM BORGES QUE NÃO ERA BORGES?
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"

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