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Ao almoçar hoje com amigos, o Carlos me dizia que não conseguiu ler os poemas do Safra quebrada. E me perguntava porque a poesia tem de ser tão difícil.
Eu não sinto a poesia como algo difícil. Eu entendo que a poesia é difícil para quem lê pouco poesia. Eu tinha dificuldade com Jorge de Lima, assim como tinha com Horderlin e Rilke. Mas, de repente, como se faz a luz, tudo ficou claro. Tão claro que não era preciso mais a realidade, mas só a luz da poesia.

O amigo Euler Belém escreveu uma nota na sua famosíssima coluna "Imprensa", que sai semanalmente no Jornal Opção, de Goiânia. Talvez por ser amigo deste poeta e da Poesia ele não tenha dito que a minha poesia é difícil, mas apresentou algumas alternativas para que ela não se pareça impenetrável. Mas o Euler tem a lâmpada nas mãos para nos auxiliar a pôr a poesia na frente da realidade. Meu abraço ao Euler, e obrigado.

Supersafra de boa poesia

Leio o livro de poesia Safra Quebrada, fusão de livros anteriores com os inéditos Gleba dos Excluídos e O Marimbondo Feliz, de Salomão Sousa, goiano radicado em Brasília desde 1971.

Salomão Sousa impõe ao leitor certas dificuldades, ou barreiras, dadas as múltiplas referências — assimiladas e, portanto, dissolvidas no texto, que, assim, se torna exclusivo.

Trata-se de um poeta culto — o que não quer dizer empolado —, que dialoga com a tradição sem se tornar refém.

Tecnicamente, é um bardo irrepreensível. Sua poesia “livre” é tão rigorosa, metódica, que, às vezes, lembra a poética dos vates de outrora. Há uma certa matemática na sua lógica, por assim dizer, subjetiva. No caso, a fuga à métrica é métrica reinventada.

Trata-se de um poeta complexo, para ser lido aos poucos, jamais às pressas. Mas complexo não é o mesmo que inacessível ou obscuro. Pelo contrário, é luminoso.

Há aquela saudável universalidade (Cádiz) ancorada na vitalidade da cor local (Silvânia) na poesia de Salomão Sousa. Transcrevo um poema, sem título, no qual a inicial maiúscula funciona como pontuação, pausa para a respiração e transpiração do leitor: “São várias as maneiras de ser feliz/Arrastar-se sobre as pedras/só para esfriar a barriga/Catar o pó das estrelas/que caem à noite/só para depois jogá-lo/sobre os melhores miosótis/Nunca esbarrar em cobra/quando estiver com vara curta/Não ter de inventar nada/quando estiver/em Silvânia ou Cádiz/Jamais fazer um bolo/só de espadas/para sangrar os lábios/Sentar sobre a canastra/onde se esconde/o dragão das vinte línguas/Deixar o dragão louco/enquanto estou feliz/com o sol sobre a barriga/Contar para o menino/uma maneira de ser feliz/e ele pedir — conte outra”.

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