julho 27, 2008





Quebramos o cronômetro da Sherle.
Areia, sombras e sombras e sargaços
— perdidos nalguma corrente,
éramos aves desgarradas
frente às falésias.

Quebramos a ansiedade ao ver
os marcos antigos dos descobridores.
Ouvidores do rei
e os despachos das arcas do tesouro.
Restos de uma réplica de nau
que só poderia estar sem porto.

Quebramos o medo dos monstros de lama
e das criaturas más inventadas ao Norte.
Ex-votos com mãos estendidas,
dedos longos, cabelos espremidos
no asfalto, e o mar ainda
entre as estacas.

Quebramos a rigidez das faces.
Outra cor ao corpo, rotas
de desovar. Pó de ostra
nas garrafas. Outra onda
vem — junto às crianças se desdobra,
quase sem cor —, se é puro o sol,
se é o despudorado sal.
No mangue movemos os pés
de nosso animal.

Quebramos o tormento
de repetir a mecânica de andar.
Ir é outro prazer. Ouvir
outras palavras, entre os dedos
areias, cordões coloridos, quase apanhar
as finas barbas dos tubarões e das enguias.
Narinas moles respiram água.

Quebramos — e acabam as avenidas
e as orlas. Arrastam-nos as correntes
de volta às Antártidas.

@ Salomão Sousa

julho 16, 2008


Eu e Yuri no dia da entrevista citada abaixo
Postei no meu "segundo blog" (salomaosousa@blogspot.com), o qual destino para textos mais longos — sobretudo dedicados à minha obra —, a entrevista que concedi em em maio de 2008 a Yuri Soares Franco, estudante de História da UnB. A entrevista aborda aspectos de minha vida, da história e da poesia de Brasília.
Agradeço a Yuri a escolha de meu nome para o trabalho.

Deixo aqui o email que el me mandou com o trabalho:

Salomão, finalmente terminou o semestre, e é com muito orgulho que informo que sua entrevista e minhas considerações feitas nas aulas me trouxeram uma boa nota e bons comentários da professora e dos demais alunos, além obviamente de muito conhecimento advindo tanto da metodologia e conhecimentos específicos da matéria como da história viva de Brasília e da literatura brasiliense representados na sua pessoa.
Desculpe a demora, mas eu estava esperando o resultado das notas para enviar-lhe a transcrição e os comentários.
Novamente muito obrigado pela sua disposição e presteza em me conceder a entrevista, e aproveito para agradecer novamente o livro que me deste de presente.
Segue a transcrição da entrevista em anexo e por extenso no corpo da mensagem.
Abraços,

Yuri Soares Franco
Estudante de História da UnB

julho 14, 2008

Agradeço à Leonice Jacob, conterrânea valente, que lançou recentemente o livro "Labirintos de Mim", as referências carinhosas ao me incluir entre as ilustres figuras da cultura de Silvânia:

Falei sobre o professor Edmar
Do seu “enredo e personagens”
Dos seus traços marcantes
Que perseguiram os meus
Iluminando-os com sua sabedoria.

Com Rubens Vieira
Lembrei-me do antigo cinema
Da lida diária da pequena Bonfim
Quando um "tropel de emoções"
Invadiu nossos corações.

Com Antônio da Costa
Revivi a rua comprida e estreita
Que foi cúmplice das nossas brincadeiras
De infância e adolescência.

Dividi a minha saudade
Com Inácio José de Paula
O vi crescer batalhador
E cheio de esperanças
E na cumplicidade da pequena rua
Que fazia-nos irmãos.

Em “Memórias”
De Osvaldo Sergio Lôbo
Senti-o carente
De amor, inocente
E uma ponta de saudade
Bateu forte no peito

Oh! Meu glorioso Salomão
Quando nascer de novo
Quero ser como você
Quero fazer uma “safra” de livros
E nas “horas vagas”
Deleitar-me na “moenda dos dias”.

Chorei com Geraldo Majela
As “lágrimas do ipê”
Sofri pelo poeta
Sem fama
E sem cama
E que chama por alguém
Que não o ama.

Se “recordar é viver”
Vivi com Getúlio Silva
Os encantos da primavera
Que ele descreveu e amou.

Gessilma no aconchego de sua alma
Distribuiu migalhas de sabedoria
Em páginas de ouro.

Com o Pascoal que era poeta
Comecei a arte de sonhar.
Do Pascoal que era jornalista
Recebi a triste notícia:
A morte do pipoqueiro.
Com o Pascoal que era professor
Aprendi a arte de escrever.

E Maria das Dores
Sempre na janela,
Em sentinela
Escondia versos no coração.

André Leones
Nobre por excelência
Nas passarelas literárias
Nosso orgulho.

Hilda,
A pequena ruiva de cabelos dourados,
Hoje uma grandeza na literatura
A quem muito admiro.

De Élson Gonçalves
Guardo a “família feliz”
Com “esteio de aroeira”
Que eternizou suas marcas
Em “labirintos de mim”.

De Coelho Vaz
Roubei alguns poemas
E enfeitei a simplicidade das minhas páginas
Com a preciosidade dos seus versos.

Curvo-me diante do eterno Americano do Brasil
Para dizer-lhe que na minha pequenez
Sinto-me muito orgulhosa
De fazer parte da sua terra e de sua gente.

De José Sêneca Lobo
Guardo no “gotejo do passado”
As marcas indeléveis da cidade de Bonfim
Através das suas letras inesquecíveis.

julho 03, 2008

O DESVIO

Yêda Schmaltz

A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.

E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!

A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.

E me importa muito menos
se aceitas solenemente
a nossa vida parca e torta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.

E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!

A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.

E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.